sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Maus Bocados pt.1

Lembrava-se de quando conseguiu aquele emprego. Fora um sacrifício enorme frequentar o curso técnico à noite, depois da jornada como caixa de supermercado, mas ele conseguiu. Um amigo trabalhava em uma companhia de instalações telefônicas, havia feito o mesmo curso, ele levou currículo, fez entrevista; ainda levaram três meses para chamá-lo. Comprou uma garrafa de vinho para celebrar, o que representava uma exceção a sua costumeira parcimônia. No começo, descobriu que a realidade era um pouco diferente dos livros, mas em pouco tempo pegou o jeito do trabalho, e já podia liderar uma equipe para a instalação de serviços de telefonia e internet. Era muito competente, e também atencioso e educado, e começou a se destacar nas pesquisas de satisfação.

Ele nem acompanhou as notícias de crise imobiliária nos Estados Unidos, não entendia nada daquilo e no fundo não lhe importava: cria que bastava trabalhar duro e as coisas seguiriam melhorando. E melhoraram: tornou-se encarregado com apenas seis meses na empresa. A esposa ficava feliz ao ver a tralha de casa substituída por utensílios modernos, e os dois filhos com roupas novas. A quebra de instituições financeiras, seu socorro pelo governo, fusões, tudo era uma narrativa distante e sem sentido: seu salário era o dobro do que ganhava havia um ano, tudo tinha que estar bem. E estava, aparentemente: muita gente estava instalando internet em Leiria, a empresa crescia, os funcionários recebiam bônus. Ele comprou um carro, usado.

Islândia ainda lhe parecia distante demais para que uma crise de títulos, seja lá o que isso fosse, afetasse a ele. Irlanda era só outra ilha sem importância no seu modo de ver, esperava ansioso pela seção de esportes. Com menos de um ano de contratado, chegou a supervisor; o salário permitia pagar o aluguel de uma casa melhor, mudaram-se. Mas os noticiários começaram a falar dos problemas de Portugal também, e da vizinha Espanha, que seriam parte de uma sigla: PIGS, acrônimo de países em dificuldades. O governo anunciava cortes no orçamento, todos temiam pelo futuro. Ele garantia à esposa, que já abandonara o ofício de consertar roupas, que tudo sairia bem.

Mas a demanda por seus serviços começou a minguar, a parcela do salário que dependia das metas desapareceu. As equipes diminuíam de tamanho, ele via entristecido seus técnicos ficando sem emprego: já se dizia que era cada vez mais difícil conseguir uma recolocação. Ele estava acuado, e reagia trabalhando em dobro, ficando até de noite; o ambiente era insuportável na empresa, a competição, acirrada. Conversou com a esposa, era melhor retomar os consertos, talvez até o mais velho... ela rechaçou veementemente a sugestão. Agora ela tinha que reconfortá-lo. A tensão teve efeito sobre sua saúde, mais de uma vez ele deixou de trabalhar por um colapso nervoso. Isso não influenciou sua demissão, que viria de qualquer forma com o enxugamento da empresa.

A crise era agora concreta para ele, e até passou a tentar entender o noticiário sobre a dívida da Grécia, em pouco tempo discutia o mercado de subprimes nas rodas que se formavam na praça. Obviamente o mais urgente era cuidar de casa, o seguro-desemprego ajudaria, mas por pouco tempo. Ironicamente, para o negócio da esposa a crise era uma vantagem: as pessoas passavam a reformar as roupas em vez de descartá-las, e isso ajudou um pouco. Ele procurou emprego: como técnico em telefonia primeiro, viu que ninguém estava contratando naqueles tempos; tentou como caixa de novo, a experiência ajudaria, pensou, não conseguiu nada. Quando os seis meses se passaram e ele ainda estava procurando emprego, qualquer emprego, sabia que de alguma forma tinha de suprir o auxílio governamental que se acabava: descobriu um bico numa central de alimentos. Carregar caixotes, ele que entendia da última tecnologia de cabeamento ótico, e isso quando era aproveitado: havia um sorteio.

Sua auto-estima estava esmagada, e a esposa precisou de fortaleza para assumir o comando de tudo. Ele foi à igreja, queria perguntar a Deus como podia que alguém se preparasse, trabalhasse com afinco, e se visse reduzido a nada por ação de sabe-se lá quem em outro país; se todo mundo trabalha e trabalha, onde acaba essa riqueza toda? Como pode haver crise? O padre conversou um pouco com ele, que acabou aceitando um prato da sopa que estava sendo servida. Outro com quem teve que conversar foi o psiquiatra, pouco depois, estava com quadro de depressão e nem o bico conseguia levar adiante.

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