sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sorte Gande VIII

Roberval teve um sono intranquilo. Naquele dia ia deixar de lado o trabalho, que já estava devagar, para resolver alguma coisa urgente. Um amigo ia ajudá-lo, e eles haviam combinado de se encontrarem em uma praça do Centro. Acordou cansado, escovou os dentes, desceu e cumprimentou a esposa que o aguardava com o café. Saiu apressado, sem beijá-la. Quando enfim conseguiu estacionar, rumou à praça e encontrou o amigo que o aguardava. Garantiu que conseguiriam com facilidade o intento almejado. Tomara que sim, um tenso Roberval desejou, juntando as mãos espalmadas. A esposa não conseguira arrancar nada do prêmio do sogro, ele não conseguira nenhum serviço, e estava vencendo o prazo dado pela mãe de seu filho para saldar a dívida.

Caminharam até um prédio antigo, havia uma placa de um escritório de contabilidade e outros negócios. Atravessaram um pátio e atingiram um escritório pequeno nos fundos. O amigo apresentou Roberval a um sujeito gordo que usava suspensórios, todos se sentaram. Não queremos tomar seu tempo, Roberval só escutava, meu amigo aqui precisa de uma quantia, pequena, para certas questões pessoais, ele tem emprego e não vai ter problema em pagar de volta. O agiota acendeu um cigarro, perguntou qual era a quantia. Disse que não era tão pequena, não podia ter um prejuízo daquele tamanho, perguntou se tinha carteira assinada, Roberval disse que era autônomo. E uma jóia ou relojo valioso, não tinham? O outro só sacudiu a cabeça. Fica difícl para mim, tente conseguir alguma garantia e volte.

Saiu desanimado, mas o amigo lhe assegurou que um outro que conhecia não seria tão exigente, embora cobrasse juros mais altos. Pediu um segundo para avisar à esposa que não almoçaria em casa. Precisaram pegar o carro, e dirigiram até uma casa em um bairro de classe média. Foram conduzidos pela empregada até uma saleta. Era um tipo estranho com costeletas e cordão de ouro. O amigo de Roberval foi direto ao assunto, dizendo o valor. O agiota começou a explicar os termos do empréstimo: era uma extorsão. Roberval estava desesperado, não pensou meia vez. O dinheiro veio num envelope, Roberval deixou todos seus dados pessoais. Apertaram-se as mãos e saíram

Foram almoçar, o que foi difícil já no meio da tarde. Depois Roberval deixou o amigo em casa, agradeceu novamente e partiu para a casa do filho. Subiu as escadas tirando uma parte do dinheiro e metendo nos bolsos. Ela atendeu furiosa, o menino ficou sem jeito de se aproximar. Dizia que já eram três meses atrasados, como ela podia sustentar o filho assim? Ele pediu calma, disse que estava lá para pagar. Ela se desculpou secamente. O que eu consegui é isso aí. Ela contou, era três quartos da dívida, ela esbravejou, mas acabou guardando o dinheiro, sem deixar de acrescentar que o restante não seria perdoado. Roberval conversou com o filho, prometeu que um dia ia vê-lo jogando bola, e esperava que ele se tornasse um craque. 

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