segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sorte Grande I

Os sacos de lixo se acumulavam na frente das casas, esperando a coleta. Alguns haviam-se rompido, e era possível ver cascas de laranja e borra de café, dentre outras coisas, espalhando-se pela rua, com a ajuda de cães de rua, cascos de animais de tração e pneus de automóveis. As calçadas eram estreitas, onde as havia, o traçado das ruas ia de irregular a labiríntico. Já as casas podiam ser desde cortiços mal ajambrados até construções de dois ou três pavimentos, embora geralmente desprezando qualquer preocupação arquitetônica. Numa esquina esburacada, havia um supermercado, completamente desorganizado e desabastecido, um bar muito pouco recomendável, especialmente à noite, uma casa de madeira completamente murada, e um sobrado amarelo, escondido também atrás de um muro da mesma cor, mas exibindo ainda os vidros escuros do andar de cima.

Uma moto atravessou o cruzamento sem diminuir a velocidade, e fazendo um enorme ruído, e um senhor que saía do supermercado com uma sacola em uma mão e uma bengala na outra quase foi atingido. Gritou um palavrão e brandiu a bengala ameaçadoramente ao imprudente motociclista, que já ia longe. Terminou de atravessar resmungando para si mesmo e abriu uma porta de ferro, que era parte do portão grande, que dava acesso à garagem do sobrado. Era um homem negro, magro; a barba estava por fazer, a cabeça ficara toda branca anos antes; o andar era vacilante, com o tronco projetado para a frente, o que o fazia parecer mais baixo do que era. A garagem estava vazia, o filho estava trabalhando, consertando bombas hidráulicas em alguma parte. Entrou por uma porta que dava para a cozinha, onde a nora cozinhava. Era uma moça baixa, um pouco gorda, com os cabelos longos característicos das adeptas de sua religião. Os móveis e eletrodomésticos eram testemunhas de um outro tempo, e já tinham sido consertados várias vezes. O cheiro do feijão arrancou um comentário ao sexagenário. Ela agradeceu pelas compras e ele as depositou sobre a mesa de fórmica vermelha, descascada aqui ou ali, revelando o aglomerado de madeira que a neta gostava de ficar cavocando. Uma mocinha linda, que estava aquela hora na escola, onde era muito boa aluna.

Eu vou à lotérica, ele avisou. Seu Daniel tinha na loteria seu maior passatempo: arriscava a sorte em todas as modalidades; a que corria na terça tinha os prêmios mais gordos, a da quinta tinha chance dupla, a boa e velha esportiva o fazia sofrer acompanhando os resultados da rodada, até mesmo a anacrônica loteria federal ainda o atraía, os bilhetes eram vistosos, e enquanto aguardava os resultados, também se entretinha com as instantâneas. Nunca gostou do bicho, por ser um homem muito correto e idôneo. Não é preciso dizer que gastava muito mais dinheiro do que ganhava com os pequenos prêmios eventuais; o filho o criticava, poderiam ter um carro melhor hoje, equipar a casa, viajar, não fosse aquele hábito, ou vício, tão arraigado. Ele sempre respondia que o dinheiro era dele, e que um dia ganharia uma bolada e não repartiria nada, o que era provavelmente só uma provocação. Desceu três quadras, não sem alguma dificuldade, cruzou a praça, onde cumprimentou alguns contemporâneos, e chegou à casa lotérica, onde as funcionárias o conheciam bem. Conferiu com calma os jogos que tinham o resultado divulgado naquele dia, não tivera nenhum êxito. Pegou alguns cartões em branco e pôs-se a marcar; não precisou esperar na fila, pela idade, pediu, além das apostas que preparara, cinco bilhetes de instantânea. Despediu-se das duas moças e se sentou em uma mesa da praça, que estava tão descuidada quanto o bairro como um todo, a raspar sua sorte. Um deu direito a outro bilhete, três deram nada, mas um dava um prêmio intermediário, algo que pagasse uma feira: voltou para reclamar o prêmio.

Qualquer dinheiro era obviamente bem vindo. Daniel havia sido aposentado por invalidez depois que muitos anos dirigindo ônibus acabaram com sua coluna. A magra aposentadoria estava ao menos pela metade empenhada no jogo, e o trabalho autônomo do filho, ou os bordados na nora, dificilmente eram uma renda certa e garantida. A neta só falava em conhecer a Disney, eles garantiam que um dia seria possível, esperando que ela crescesse e esquecesse aquilo. Era exatamente no que ele pensava, no caminho de volta: quando ganhasse a tão sonhada bolada, seria o primeiro gasto que faria. Vão ver quem é o velho inútil.

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