segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sorte Grande II

Foi fácil achar o endereço. O bairro era planejado, e todas as ruas e casas eram numeradas e ordenadas cartesianamente. Estacionou o carro velho, com adesivos nos vidros que anunciavam seu ofício e seu número de telefone. Tocou o interfone, chovia leve; cães vieram tentar intimidá-lo, ou anunciar sua presença aos donos. Uma voz respondeu lá de dentro, dizia que ia avisar a patroa, e ele seguia se molhando. Até que abrissem a porta e prendessem os animais, ele já tinha os cabelos crespos repletos de gotículas e a camisa quase toda molhada. Cumprimentou a madame metida no que mais parecia a ele um pijama, seguiu na direção da piscina. Era uma casa ampla, com um enorme jardim, havia três carros estacionados na garagem. Roberval admirou brevemente a residência antes de acocorar-se para abrir a tampa que dava acesso à bomba. Operou alguns controles, a máquina se pôs em marcha, emitindo um barulho estranho, ele a desligou e deu o diagnóstico. Questionado acerca do preço, iniciou explicando que era preciso desmontar a máquina, fazer enrolamento, ficava em tanto. A madame arregalou os olhos, assobiou um silvo breve e decrescente. Disse que era muito dinheiro, que não tinha como saber se ele não a estava enganando.

A ele incomodava profundamente que lhe questionassem a honestidade. O pai sempre fora obcecado por essa virtude, pela retidão moral, e Roberval sempre levou a sério esses ensinamentos. Mais que o pai, talvez, dado ao vício do jogo, o que, se não é uma desonestidade, é pelo menos uma fraqueza de caráter. Logo eles que não podiam desperdiçar nenhum dinheiro, ver o velho pai entregando tanto à Caixa Econômica. Pensou tudo isso em uma fração de segundo, antes de responder que o problema era difícil, tinha que quase fabricar o motor de novo, ela podia fazer outros orçamentos, mas que se oferecerem mais barato estariam-na enganando, ia dar problema de novo. Ela disse que precisava conversar com o marido e praticamente o empurrou para fora. Ele, constrangido, pediu para usar o banheiro; ela se mostrou visivelmente incomodada em vê-lo entrar em sua casa, e pediu que usasse o banheiro nos fundos.

Ainda tinha uma visita a fazer, atravessando a cidade. Essa não era exatamente a trabalho. Tinha combinado de visitar de seu filho. Seu filho fora do casamento, fruto de uma relação efêmera e pouco cuidadosa. Ela prometeu nunca dizer nada à esposa legítima em troca de uma ajuda mensal. Mas ele estava subindo as escadas até o apartamento dela justamente para dizer que não conseguira nada em duas semanas, mas mês que vem certamente ajudaria. Ela não ia reagir bem, já era a segunda vez. Tocou, ela abriu com o moleque agarrado às pernas, pediu que entrasse. Algumas formalidades trocadas, ele foi direto ao assunto, não tinha interesse em ficar conversando com aquela mulher. Ela se levantou e arremessou uma revista em sua direção, errou. Ela o chamou de cafajeste, disse que trato é trato, e que se ele não contribuía ela não tinha que fazer a parte dela. Ameaçou contar tudo à esposa se ele não trouxesse o dinheiro em cinco dias.

Entrou no carro desconsolado, olhou no relógio: faltava algum tempo até a hora de buscar a filha. Para ajudar, ficava no caminho da escola um bar velho conhecido. É verdade que não costumava beber de dia, mas aquele dia se sentia oprimido, encostou. Entrou e pediu uma pinga e uma cerveja. Lembrou-se de suas aulas no Senai, como prometiam que com treinamento teriam o sucesso profissional. Quinze anos que eu conserto bombas, sempre a mesma coisa: às vezes entra dinheiro a rodo, às vezes passa um mês sem nada. Para piorar tenho essa despesa secreta. É claro que eu amo meu filho, mas não era para acontecer. Se na igreja ficam sabendo isso, então! Eu preciso mesmo é conseguir um emprego numa fábrica, talvez ir embora daqui. Quando terminou a cerveja, pagou e saiu. Entrou no carro e dirigiu até a escola da filha, que ficava ali perto.

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