terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sorte Grande III

Soou o sinal do recreio, Isabela guardou calmamente seu material na mochila e saiu civilizadamente, depois que quase todos da sala já haviam saído desordenadamente, para se sentar no último banco do pátio. Abriu sua lancheira e retirou um misto frio e uma maçã, mais a garrafinha com suco de caju. Era a última que mantinha o hábito de trazer lancheira, todos mais comiam na lanchonete. Ao lado dela sentou-se um garoto de uma série mais adiantada. Ela ficou nervosa, jogou as tranças de um lado para o outro. De vez em quando olhava para o lado, e ele nem tomava conhecimento dela, concentrado em uma coxinha. Os garotos do seu ano eram todos uns bobões, e todas as garotas eram apaixonadas por alguém mais velho. Mas parece que Isabela ia precisar esperar mais um pouco para iniciar sua vida amorosa.

Foi até a sala guardar a lancheira e pegar seu livro. Voltou para o mesmo lugar, o menino não estava lá. Abriu o volume, que parecia enorme em suas mãos pequenas; era um episódio de uma famosa série de fantasia medieval. Isabela vivia aquele maravilhamento de ser transportada para outro mundo, que os adultos cedo perdem. Ela então se lembrou de quando visitou um parque com uma encenação medieval, no sul do país. Mas seu sonho mesmo era ver a mesma atração na Disney. Ela sabia todos os espetáculos dos parques da gigante do entretenimento americana sem nunca lá ter estado. Torcia para que o pai conseguisse um emprego melhor, ou quem sabe se o vovô ganhasse na loteria. Ela pedia ao papai do céu todas as noites. Retomou a leitura.

Em dado momento é interrompida por uma colega que precisava completar um time de queimada. Ela com um tom arrogante perguntou se não estavam meio grandinhos para isso. A outra garota fez uma careta e seguiu adiante. Isabela tivera um desenvolvimento intelectual muito precoce, e era considerada uma chata por não compartilhar os interesses da maioria. Terminou de ler um capítulo e levantou-se para ir ao banheiro. No caminho, deparou-se com o garoto de quem gostava, beijando uma menina loira, meio escondidos na entrada da quadra de esportes. Ficou furiosa por dentro, mas fingiu indiferença. É só porque ela é loira, pensava; naquele momento, detestava a cor de sua pele.

Acabou o recreio e ela se instalou em seu lugar, com a coluna ereta. A aula era de matemática, matéria em que a garota era um prodígio. Finda a explicação da professora, os alunos tiveram que fazer exercícios: ela foi a primeira a terminar. Logo após, tiveram que resolver problemas no quadro; ela era chamada para resolver corretamente cada vez que alguém errava. Alguns comentários desdenhosos eram trocados. A aula seguinte foi de português, ela leu um poema e respondeu duas perguntas corretamente. Havia na verdade umas três meninas que gostavam dela, e só. Uma delas enviou um bilhete, dizendo que queria conversar depois da aula. Ela sorriu em resposta, e quando o sinal soou as duas se encontraram na porta; foram caminhando até a saída da escola. A amiga disse que tinha alguma coisa incrível para contar, mas não podia ser ali nem ela podia contar para ninguém. Quando passaram pelo portão, o pai de Isabela estava em pé, encostado ao muro. Ela correu e o abraçou, disse para a amiga que ligaria para ela. Entraram no carro, que caía aos pedaços, e tomaram o rumo de casa.

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