terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sorte Grande IV

O dia de Patrícia começou cedo. Preparou o café para o marido, esperou vendo televisão e teve que subir para acordá-lo. Assim que ele se foi, retomou seus bordados, estava trabalhando numa colcha. Pensava na vida difícil que levavam. Talvez quando a filha começasse a trabalhar as coisas melhorassem. Já havia desacreditado tanto do futuro profissional do marido quanto da loteria do sogro. A sala era ampla, e a casa como um todo era vestígio de um tempo em que as coisas haviam sido melhores. Ela gostava de se sentar no chão, e a peça ficava sobre a mesa de centro, que por esse mesmo motivo nunca tinha nada sobre ela. Pensava que a filha era inteligente, e que conseguiria um bom emprego. Tinha tanto orgulho, parou um tempo o bordado, pensando. Aí voltou um pensamento antigo: e se ela arrumasse um trabalho? A renda do seu ofício era exígua; mas o marido era muito machista, ela tinha medo até de falar a respeito.

Ela então pôs uma Bíblia sobre a colcha e se dividiu entre bordar e memorizar os salmos. Orgulhava-se de ser respeitada como esposa e serva perfeita. Cada uma das colegas da Congregação tinha algum segredo tenebroso, que ela ficava feliz em descobrir, pelos meios tradicionais. O pastor a adorava, e ela já era havia alguns anos a ajudante dele. O sogro acordou, e desceu para tomar café. Ela preparou alguma coisa, ele mudou o canal da televisão. Ela gostava muito dele; talvez mais do que o marido. Estava na hora de começar a preparar o almoço, ela começou a separar os ingredientes. Percebeu que era preciso comprar alho e ovos, perguntou se o sogro não poderia providenciá-los. Ele achou bom ter alguma coisa para fazer, aceitou a missão e saiu pela porta. Ela mudou o canal de volta.

A verdade era que Patrícia gostava de cozinhar. As rotinas a hipnotizavam  e o tempo passava rápido. Ela se orgulhava do arroz que fazia, e a costelinha de porco que ia preparar era um sucesso com toda família. Desligou a televisão, que dali não conseguia ver, mesmo, e ligou o rádio. O aparelho já estava sintonizado na estação evangélica, e uma pregação estava em curso. O pastor eligira falar naquele dia sobre a inveja. Ela repetia cada frase dele, com um aleluia eventual. Patrícia na verdade pensava no dia em que conheceu a casa da vizinha, e em como seus eletrodomésticos eram todos modernos. Lembrou-se da batedeira que usava, muitas vezes consertadas pelo marido, e que, sem que ela soubesse, algum fetichista provavelmente compraria por milhares de dólares em Nova York.

O sogro chegou com as compras, ela agradeceu, e ele voltou a sair logo em seguida. Só agora ela podia começar de verdade o preparo da refeição. Pegou-se pensando no marido, que a proibia de pôr cominho no feijão. Era um bom coração, mas estava havia tanto tempo dando voltas no mesmo lugar. Lembrou-se mais uma vez da vizinha, cujo marido era funcionário público e ganhava o que, para ela, era uma fortuna. Forçou-se a pensar nesta ou naquela passagem da Bíblia, censurando sua própria cobiça, enquanto descascava mandioca. O sogro de repente chegou contando que havia ganhado um prêmio pequeno, e um pouco depois seu marido chegou com a filha

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