sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sorte Grande IX

Seu Daniel, em seu quarto térreo, ouviu quando o filho tomava café, e esperou que terminasse e fosse embora para se levantar. Cumprimentou a nora e comeu alguma coisa, colocava um quilo de açúcar no café. Agradeceu e sentou-se na sala para ver televisão, mas ficava passando os canais sem assistir a nada e eventualmente impacientou-se. A nora disse que ia à farmácia. Entrou para o quarto e tirou uma caixa de sapatos de debaixo da cama. Abriu e pegou o primeiro álbum de fotografias. Eram antigas, da falecida esposa ainda solteira, uma linda jovem. As próximas eram do casal em visita ao Espírito Santo, e a memória dele o torturava, não conteve um choro fininho. Mais outras com o Roberval bebê, com a família dela em Belém, e cada vez doía mais aquela ausência de vinte anos. Guardou tudo e tentou se recompor, lavou o rosto.

Não encontrava a nora, tentou bater. Ela demorou um pouco e abriu, desejou boa sorte. Saiu sob um sol escaldante rumo à casa lotérica, a bengala garantindo o equilíbrio. Passou mais uma vez pela praça, desta vez parou para conversar com um amigo. Debateram a escalação do time pelo qual os dois torciam, o mais recente escândalo político e, obviamente, o tempo e o calor inclemente que fazia. Despediram-se e ele chegou enfim ao seu cassino pessoal. Desejou bom dia às moças e pegou uma filipeta com o resultado daquele dia. Era a loteria que pagava os mais altos prêmios, e estava acumulada. Saiu e buscou refúgio em uma lanchonete para analisar seus prognósticos.

Nada no primeiro, um acerto no segundo, nada, nada, três acertos. Não resolvia, o concurso só premiava o bilhete com todos números sorteados. Conferiu vários com um acerto, mais um tanto sem nenhum, até que acertou logo o primeiro número, e depois o segundo, começou a ficar ansioso. Em vez de alternar a vista entre os cartões, simplesmente os pôs lado a lado e quase teve um ataque: era uma identidade perfeita. Não pôde deixar de comemorar em voz alta, o que atraiu curiosos. Ele guardou o bilhete premiado no bolso e hostilizou os enxeridos. Não saiu correndo porque a coluna não permitia, mas mal podia conter sua alegria; quando se viu em um trecho deserto da rua, soltou um grito.

Não queria ir para casa, tomou um táxi rumo a uma sociedade hípica: gostava de ver os cavalos. Pensou na neta, que realizaria seu sonho, pensou nas viagens que gostaria de fazer, a lugares que lhe lembrariam a esposa falecida, pensou nos móveis e eletrodomésticos que a nora teria. Talvez fosse preciso até se mudar de casa, embora aquela fosse tão boa e cheia de lembranças. É que se a vizinhança soubesse... droga, será que eles perceberam? A esta hora, todo o bairro está sabendo. Um carro novinho, não, dois. Vou andar de carro para toda parte. O outro fica com o filho, embora ele não mereça. Voltou a pegar um táxi, que o deixou na frente de casa. Entrou e descobriu que nem o filho nem a neta almoçariam em casa. Pegou uma cerveja e foi pra frente da tevê. A nora achou estranho ver Seu Daniel bebendo assim sem uma ocasião especial, mas não falou nada.

Nenhum comentário: