quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sorte Grande V

Sentaram-se todos à mesa, Isabela ajudou Patrícia a trazer as panelas para a mesa. Daniel se levantou, pegou o controle remoto e pôs no noticiário de esporte, queria descobrir os resultados da rodada da noite anterior. Tirou do bolso da camisa um maço de papéis e uma caneta e deixou sobre a mesa. Durante o almoço, pai! - reclamou Roberval. Isabela meteu o garfo na panela e sacou um pedaço de costelinha; recebeu um leve tapa de Patrícia: ainda não oramos, filha. Ela mesma começou: Obrigado, Deus meu, por esta refeição e por tudo que já fez pela nossa família, zele por favor pela saúde de todos, para que nunca falte serviço a Roberval e compradoras para meus bordados, que Isabela continue tendo boas notas e entre na faculdade, e... que o Seu Daniel tire um dia a sorte grande. Começaram a comer.

Eu ganhei um prêmio hoje, Daniel disse quando começou o intervalo comercial. Guardou os comprovantes, um único resultado inesperado já arruinara todos seus jogos; declarou o valor ganho. Isso é ótimo, pai, vai ajudar muito no orçamento, meu trabalho não vai muito bem... Não, Roberval, você me condena todos os dias por jogar, agora está de olho no meu dinheiro. Eu vou comprar um presente pra Isabela e o resto é meu. Oba! Eu quero o quinto livro dos Cavaleiros Mágicos, vovô. Roberval trocou um olhar com a esposa, ela entendeu: Daniel ouviria antes a ela que ao filho. Só havia um problema na estratégia: a esposa não podia saber para que ele precisava de dinheiro. Ela tentou a sorte. Seu Daniel, nós somos uma família, e estamos passando por dificuldades. É verdade que a loteria é seu passatempo, o dinheiro é seu, mas até as coisas melhorarem, o senhor não acha...

Acho. Acho que vocês não teriam nada hoje não fosse por mim e pela finada Raquel. Os sacrifícios que eu tive que fazer quando ela morreu e você ainda era menino, Roberval, não trabalhava, todos os anos que eu suportei o calor de um motor de ônibus o dia todo, minha coluna estragada para sempre, tudo isso não me permite ter uma aposentadoria sossegada, poder fazer minha fezinha e gastar com o que eu quiser quando ganhar? Comeram um pouco em silêncio, até que Isabela elogiou a comida, receita da mãe de Patrícia, que cresceu em Minas. A mãe agradeceu e afagou a filhota. Vovô, é verdade que a vovó tinha muito dinheiro? Muito, não, Belinha, ela tinha uma pensão pelo pai militar, que deixou também esta casa, mas era o bastante para viver melhor que hoje.

Terminada a refeição, Daniel entrou para escovar os dentes, Isabela ajudava a mãe com a louça e Roberval se sentou para ver o noticiário. O idoso voltou e deu uma nota a Patrícia, tomando cuidado para que o filho não visse. Confirmou com a neta o presente que ela queria, prometeu que ia ainda aquela tarde comprar. Roberval inventou que tinha uma visita a fazer, a verdade é que não se sentia bem em casa. Isabela contou à mãe o dia na escola, tudo menos o desgosto do recreio, ou a confidência que a colega tinha a fazer. Tão logo terminaram o trabalho, a adolescente disse que ia fazer suas tarefas, mas pediu o telefone da mãe para fazer uma ligação e subiu para seu quarto.

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