quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sorte Grande VI

A menina andava calada todo o fim de semana. A mãe percebeu, investigou, mas não obteve nada. Na escola, também, participava pouco das aulas, parecia tristonha. Isolava-se, e lia o máximo que podia seu livro, ansiosa por começar o volume seguinte, que ganhara do avô. Sua amiga veio conversar, ela sorriu pela primeira vez em muito tempo. Perguntou se estava de pé, Isabela confirmou que sim, mas precisava avisar o pai. Pediu o telefone emprestado, há muito pedia um para os pais, que se safavam dizendo que ela ainda era jovem demais; disse ao pai que tinha um trabalho a fazer, e iria almoçar na casa de uma colega e ficar lá à tarde. Pronto, tudo certo, você avisou sua mãe que eu ia? E combinou com ele? A amiga se despediu para ir jogar vôlei, Isabela retomou o livro.

O sinal indicou o fim da última aula, Isabela e a amiga esperaram toda a confusão se dissipar e saíram. Ela morava perto da escola, as duas caminharam até lá. A mãe da amiga a tratou muito bem, Isabela ficou constrangida com a insistência com que a colega louvava sua inteligência. Conheceu ainda o pai e os dois irmãos, ambos mais velhos que a amiga, e sentaram-se à mesa. Isabela ficou feliz em ver batata frita na mesa, coisa que nunca tinha em casa, e refrigerante circulando. Ela continuou ouvindo elogios, e não sabia onde meter a cara, até que a conversa desviou para qualquer assunto de trabalho do pai de família. Ele trabalhava em um banco, e Isabela achava aquilo o máximo, ficou pensando que seria bancária quando crescesse.

As duas assistiram à televisão depois da refeição, mas a Isabela não interessavam em nada as notícias dos famosos. Olhava o relógio, faltavam quarenta minutos, estava ansiosa. Ela ainda acreditava que era um engano da amiga, e afirmava isso a cada cinco minutos; ouvia sempre que talvez fosse, mas seria muita coincidência. Saíram de lá rumo ao campinho de futebol, onde ela tinha marcado com o menino. Ele era mais novo que elas, pouca coisa, e era o melhor jogador do bairro; infelizmente, a mãe, solteira, não tinha o dinheiro suficiente para submetê-lo às seleções de escolinhas de futebol. Estava no meio de uma partida quando chegaram. A amiga acenou e ele veio, sorriso no rosto, o contraste dos olhos e dos dentes com a pele negra faziam um belo efeito.

Oi, Isabela disse, tímida. A amiga tomou a dianteira. Então, Isabela, esse é o Daniel, que eu falei. Ele mora aqui no bairro e a gente se conheceu na quermesse. Ele me contou que o pai dele se chama Roberval, mora no seu bairro e conserta bombas. Como eu te contei. É outra pessoa pessoa, ela insistiu, apesar do mesmo nome do avô. Meu pai vem me ver todo mês, ele tem um monza vermelho; minha mãe fala mal dele o tempo todo, mas eu gosto dele. Ele me explicou que não pode morar com a gente, mas um dia ele espera poder dar uma vida melhor para nós dois. Isabela enfim cedeu, o modelo do carro foi a gota d'água. A amiga tomou suas mãos: Isa, não vá falar nada pra sua mãe, coitada, eu só achei que você ia gostar de ter um irmão. Isabela gostava sim da ideia, só não se sentia bem sendo enganada. Ela tinha razão, não vou falar com a mamãe, mas vou cobrar uma explicação dele, isso sim.

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