sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sorte Grande VII

Depois de preparar o café e bordar,  Patrícia avisou ao sogro que ia à farmácia. Comprou o que precisava, e, na volta, encontrou a vizinha chegando a sua casa. As duas trocaram comentários sobre um julgamento que estava sendo comentado o dia inteiro por todas as redes, e Patrícia ouviu da vizinha que esta estaria tentando fazer um bobó de camarão. Dispôs-se a ajudar, embora não pudesse demorar. Entraram na casa e foram diretamente à cozinha. Patrícia explicou os passos e os ingredientes e a outra percebeu no que errara das outras vezes. Ainda assim ela permaneceu um pouco, orientando o preparo e conversando minudências. Patrícia mais uma vez ficou admirando todos os artefatos modernos e bonitos da vizinha, e tentava pensar na Bíblia e nos mandamentos, um em especial. Até que o telefone tocou na sala e a dona da casa pediu licença para atender, Patrícia ficou mexendo uma panela. Foi mais forte que ela: o utensílio mais próximo era um espremedor de alho, Patrícia o enfiou na bolsa e voltou para o fogão taquicárdica, repleta de uma sensação inédita. Quando a vizinha regressou, ouviu que já estava ficando tarde e era melhor ir. Patrícia voltou a repetir alguma recomendação enquanto a outra a acompanhava até a porta.

Entrou em casa tremendo e pálida, correu para seu quarto. Tirou o artefato da bolsa, estava sujo de alho, lavou-o e jogou-o sobre a cama. Ora pensava na condenação de sua alma, ora tomava o objeto e o admirava e manuseava. Bateram à porta, era o sogro, avisando que ia mais uma vez à lotérica; ela ficou sozinha. Desceu para a cozinha e começou a desfazer uma cabeça de alho, escolheu alguns dentes que descascou e moeu com o espremedor novo; sentia-se ótima. Só então pensou no fato de que se o deixasse na gaveta alguém poderia notar, embora só ela cozinhasse, então o utensílio acabou mesmo sendo só uma relíquia no fundo do armário.

O telefone tocou. Era o marido, dizendo tinha muitas visitas para fazer e talvez não almoçasse em casa. Ela ficou desapontada, mas que bom que é trabalho, né? Ele observou que eram só visitas, mas que agora pelo menos um ia contratá-lo, tinha certeza. Patrícia se lançou ao preparo da refeição. O sentimento de culpa, quando vinha, era facilmente rechaçado. Por um momento em que pôde se afastar do fogão, tomou o livro sagrado e leu em voz alta um trecho aleatório, com fervor redobrado. O marido voltou a ligar; disse que a filha havia telefonado avisando que ia almoçar com uma colega. Que pena, ela lamentou, mas pensou que poderia com isso ter uma chance de conversar com o sogro.

Quando os bifes estavam na frigideira, a campainha tocou. Pensou que seria apenas a leitura da água ou da luz, e abriu despreocupada. Recuou como se tomasse uma pancada quando via a vizinha diante de si. Convidou-a a entrar, ofereceu água, o café ainda estava bom. Ela disse que era rapidinho, só precisava perguntar se a irmã não tinha um espremedor de alho para emprestar, podia jurar que tinha usado o seu ainda hoje, mas não conseguia encontrar de jeito nenhum. Uma hora aparece, Patrícia arriscou, isso acontece. Era uma peça de ferro, articulada, de aparência anacrônica, a ferrugem já havia comido o metal em vários pontos; a vizinha agradeceu e aproveitou para observar que o bobó ficara ótimo, podia trazer um pouco. Não é preciso, somos só dois na mesa hoje, mas obrigada.

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