sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sorte Grande X

Já havia tomado duas latinhas quando se sentou à mesa, tendo apenas Patrícia como companhia. Serviu-se pensando no momento em que daria a notícia. Ela pensava em como abordar determinado assunto. Começaram lamentando a má sorte de Roberval no trabalho, teriam que apertar os cintos um pouco mais. Mas Deus é grande e tudo vai ficar bem, ela persignou-se. Pode ficar tranquila, Patrícia, nós vamos dar um jeito. Ela passeou por assuntos banais, comentou a ajuda que deu à vizinha para preparar um bobó, mas silenciou sobre o pequeno furto. Enfim tomou coragem e falou. Seu Daniel, eu queria conversar uma coisa. O senhor já percebeu que sua neta está ficando uma mocinha. Eu fico com medo, o senhor sabe, os jovens são cada vez mais apressados hoje em dia, sabe Deus o que pode acontecer. E ela anda tão estranha esses dias... Tentei conversar, mas ela não se abre. E hoje ela não voltou... Ela gosta muito do senhor, eu queria pedir, se o senhor pudesse, que conversasse com ela, tentasse descobrir o que está acontecendo.

Não deve ser nada, Patrícia, fica tranquila. Eu vou conversar com ela sim, hoje mesmo. Eu já ia mesmo ter uma conversa com ela, e acho que ela vai ficar muito feliz. Patrícia arregalou os olhos, ele assentiu com a cabeça. Tirou do bolso o comprovante. Não conte a ninguém por enquanto. Acertei em cheio, Patrícia, finalmente! Finalmente tirei a sorte grande! Abandonaram a refeição para trocar um abraço caloroso. Cada um sorria mais que o outro, ele passou a mão sobre o cabelo dela. Deus é grande, Seu Daniel, eu sabia! Estava às lágrimas. Sentaram-se. Mais uma vez, Patrícia, não conte nada ao Roberval, ou a qualquer pessoa. Eu vou esperar para reclamar o prêmio, é o que aconselham. E quanto o senhor ganhou? Ainda não sei quantos acertaram as seis dezenas, vai dizer no noticiário daqui a pouco. Estava acumulada, e disse o montante. Ela esfregou as mãos entusiasmada.

Depois de comerem, ela tomou conta da louça e ele sentou-se ansioso no sofá. Cada notícia que era anunciada o enchia de angústia, até que foi anunciado o resultado da loteria. Havia dois acertadores, de tal e tal estado. Exibiram as dezenas, ele as saboreou mais uma vez, já as sabia de cor. A conta era fácil, estimou quanto perderia em impostos, seguia sendo muito mais dinheiro do que ele já vira em toda vida, mais do que veria se vivesse cinco vezes com aquela aposentadoria proporcional. Pensou que se trataria com os melhores médicos, que restabeleceriam sua coluna. Queria visitar a praia, podia ficar quanto tempo quisesse. Poderia retomar o hábito de frequentar o cinema, jantar fora, compraria tudo que quisesse no supermercado. Teriam uma, quem sabe duas empregadas, e Patrícia não precisaria cuidar da casa, ou mesmo bordar se não quisesse.

Anunciou à nora o valor que ganharia, e pediu mais uma vez segredo. Só ele sabia por que não queria que o filho soubesse. Entrou para o quarto para tirar seu cochilo costumeiro, mas não conseguiu pregar os olhos, excitado. Então eu sou um estorvo para a família, então o dinheiro que eu gasto jogando é o que faz falta para viver melhor? Vão ver uma coisa. Daqui pra frente vão me olhar com outros olhos. E ele vai fazer como eu disser se quiser qualquer coisa. Aquele mulherengo irresponsável. Patrícia abriu o armário e retirou o objeto. Sentia-se ridícula, não sabia o que fazer. Queria se livrar daquilo, agora que era quase rica, mas não teria coragem de admitir o delito. Saiu de casa, com o utensílio escondido em uma toalha de papel, e o atirou por sobre o muro da vizinha.

Um comentário:

Sheila disse...

Oi Leonardo.
Serei sua primeira seguidora...
Oi Leonardo. Faltam seus comentários em minhas aulas. Passa seu email ou me diz onde acho. Perdi aquele texto sobre as inapropriações, ou algo parecido que me mostrou em sala. Lembra?
Abraço
Sheila