terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um Dia no Meio do Inverno pt.1

As pessoas circulavam na capital mais meridional do país cobertas com todos casacos, gorros e cachecóis que tinham, vapor saía de suas bocas quando falavam. Era o inverno mais rigoroso em várias décadas. Mas dentro do centro comercial Rio Center a calefação garantia um ambiente mais confortável, e os clientes eram vistos carregando a roupa de frio nas mãos. Em uma das lojas, especializada em cosméticos e perfumaria, Thiago trabalhava com seu habitual joie de vivre, em uma calça preta de couro sintético e uma camisa branca com detalhes bordados. Atendia às clientes com toda atenção e prestatividade, conhecia muito bem a linha de produtos. Nem abalava seu bom humor o fato de que Sílvia, a gerente, detestava-o, e fazia o possível para tornar seu dia um inferno, todos os dias, com uma folga por semana apenas. Ela era uma solteirona bastante elegante, metida em um tailleur malva; trabalhava havia muitos anos ali, e seu perfeccionismo beirava o doentio. No caixa do cinema trabalhava Cíntia, uma jovem de ascendência alemã que fazia faculdade pelas manhãs e seria em breve enfermeira. Era doce e cordata, vestia-se com recato, e frequentava a mesma igreja evangélica que Leopoldo, alguns anos mais velho, funcionário de uma loja de calçados, ali mesmo. Ele era um rapaz sério e trabalhador, não bebia, e sonhava com a promoção a gerente, quando poderia usar o paletó verde da loja. Era também muito belo, um negro de feições salientes, apesar de tímido, e foi Cíntia quem teve que deixar claro seu interesse para que ele agisse. Estavam juntos já havia dois anos, e ele tinha que esperar a última sessão para levá-la para casa, onde os pais dela, ansiosos pelo casamento, aguardavam-nos.

Sílvia recomendou a Thiago que não se demorasse em seu intervalo para fumar: o movimento estava aumentado com todo aquele frio; obviamente era o que ela sempre falava, com uma cara azeda. A loja onde trabalhava Leopoldo ficava no caminho para a saída, e ele parou para admirar o rapaz, enquanto fingia ver as vitrines. O ritual era antigo, e deixava o jovem religioso muito constrangido; preferia simplesmente fingir que nada acontecia, mas a cada vez que olhava para ver se o outro já se fora, os olhos se encontravam e ele tinha uma sensação indefinível. No fumódromo, Thiago encontrou um amigo, um amigo com quem já tivera um caso. Ele sabia da paixão do outro pelo vendedor de calçados, e garantiu que tinha a solução. Tirou do bolso do casaco um vidro de perfume: está em fase experimental, mas eu já vi funcionar; você precisa borrifar o bofe com isto e certificar-se de que você seja a primeira coisa que ele toca. O amigo desdenhou, que crendice idiota, o outro insistiu: não vai te custar nada experimentar, quer dizer, custa cem reais. A curiosidade o venceu, pagou. Fumou um segundo cigarro, ia ter que escutar muito na volta.


Ele viu quando Leopoldo passou em frente à loja: devia estar indo almoçar com a namorada na praça de alimentação, ela estava chegando aquela hora. Explicou à chefe que ia almoçar mais cedo, não tinha tomado café, ela resmungou, mas autorizou. Lá estava o casal, ele não tinha bem um plano, sentou-se de modo que sua grande paixão não o visse. Tirou o frasco do bolso e o segurou na mão, o mais discretamente possível; passou pela mesa deles, mas calculou mal o tiro, e, com ajuda do sistema de ventilação, as gotículas aspergidas foram parar no rosto dela. Ela se virou e segurou-o pelo braço, estava disposta a tirar satisfações, mas, quando o viu, um sorriso de abriu em seu rosto, perguntou que perfume era aquele, começou a puxar conversa, enquanto Leopoldo, por mais que o rival fosse obviamente homossexual, não gostava nem um pouco daquilo. Ela disse que se lembrava dele, ele trabalhava em tal loja, ela ia passar lá mais tarde. Ele deu um jeito de se desvencilhar e se despediu, voltou sem almoçar para a loja. Cíntia tratou Leopoldo com indiferença daí em diante.

A gerente da loja estranhou sua volta abrupta, e viu quando ele guardou alguma coisa na gaveta. Tão logo Thiago foi ao banheiro, ela abriu a gaveta e pegou o perfume, experimentou; era diferente, cítrico. Um cliente entrou, um rapaz negro; ela era um tanto racista, mas não quando se tratava de vender, recebeu-o cheia de afabilidades, e tocou-o no ombro. Ele disse que não queria comprar nada, só queria conversar com um rapaz que trabalhava ali. Ela imaginou coisas, e ficou enciumada; começou a reparar no rosto do rapaz, em seus lábios grossos, na força de seus braços. Disse que ele fora embora, estava passando mal, deu um cartão dela, sugeriu que ligasse, acrescentou seu número pessoal, no que eu puder ajudar... Leopoldo não entendia nada. Thiago apareceu quando o outro acabava de sair, pediu licença para fazer um telefonema. Achou estranho quando ela não reclamou nem um pouco. Pediu um café e discou, exigia do amigo um antídoto, e fez uma cena quando descobriu que não havia. Voltou ao trabalho.

Enquanto isso, no caixa do cinema, as colegas de Cíntia estavam surpresas de ouvi-la elogiar tanto aquele homem, de fato bonito, mas gay até a medula, quando até ontem era a namorada bem comportada de um homem tão responsável. Confabularam e decidiram que uma ia conversar com Leopoldo quando pudesse, para sondar aquele mistério. O vendedor de perfumes conferiu a gaveta e descobriu o sumiço da poção, ficou desesperado, mas não teve dúvidas: questionou sua chefe com rispidez, garantiu que se tratava de algo muito perigoso, ela desconversou. Sem saber o que fazer, voltou a ligar para o amigo, desta vez dentro da loja mesmo; contou o incidente com a namorada de seu amado, e que a megera da sua chefe havia roubado o frasco. Ela ouviu tudo, e entendeu o funcionamento da mágica. 

Leopoldo mal conseguia trabalhar, preocupado com o comportamento de Cíntia, e tão distraído estava que sofreu uma reprimenda; aquilo era péssimo para seus planos. De repente viu entrar na loja a coroa que lhe dera uma cantada mais cedo; como se não bastasse! Ela inventava que precisava comprar um presente, fe-lo mostrar alguns modelos, e quando teve a chance deu-lhe uma borrifada do perfume. Ele, entretanto, mantinha-se distante, e, quando viu entrar uma colega de Cíntia, pediu licença à cliente e a cumprimntou com dois beijinhos. Ficou olhando fixamente para a moça, respondeu que não lhe preocupava o que Cíntia fizesse, desde que pudesse todo dia contemplar uma beleza tão sublime quanto a dela. Sílvia xingou em voz alta e disse que voltaria depois. A colega da namorada do vendedor se assustou e também voltou ao trabalho, ávida por compartilhar mais aquela novidade. Leopoldo esteve ainda mais aéreo, e o gerente comentava reservadamente que era uma pena, sua promoção estava para sair a qualquer momento.

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