quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Um Dia no Meio do Inverno pt.2

Havia um longo intervalo até a próxima sessão, e Cintia pediu para sair uns minutos. Fez questão de ser atendida por Thiago, e encarava-o com um ar embasbacado o tempo todo. Ele explicava que aquele perfume que ela conhecera estava em fase de testes. Sílvia ouviu tudo aquilo e resolveu pregar uma peça no funcionário: tirou da bolsa o frasco com propriedades fantásticas e o borrifou no pescoço do rapaz, é esse? A até pouco pia senhorita lhe agarrou pelos ombros, deu uma bela fungada sorvendo o perfume exótico, não resistiu e deu-lhe um belo beijo. Desculpou-se com a gerente, mirou lasciva o rapaz, que de repente descobriu que gostava de meninas, só não havia aparecido a certa. Ele alcançou Cíntia na saída e pegou seu telefone; o resto do dia ficaram trocando mensagens, combinando de saírem.

De repente entra na loja ninguém menos que Leopoldo; ele se sentia constrangido tanto com Sílvia quanto com Thiago, mas queria muito uma marca que só se vendia ali, para presentear a colega da provável ex. Ela obviamente insistiu em atendê-lo, numa patética tentativa de sedução. O que ela não percebeu foi que cometeu um erro: o frasco do amigo de Thiago e os frascos da marca que Leopoldo pedia eram parecidos, e ela acabara guardando a poção no mostruário. Foi o primeiro que ele escolheu, borrifou a mão. Thiago, que espiava de longe, percebeu, e viu ali sua chance de recuperar o frasco. Foi um golpe rápido e preciso, mas foi impossível evitar que se tocassem. O cliente ficou uns instantes olhando para o funcionário, voltou a conversar com a gerente, que não gostou nada daqueles olhares, finalizou a compra, encarou novamente Thiago e saiu um pouco constrangido. Leopoldo estava confuso, ele nunca pensara em homens, aquilo não tinha sido nada, mas agora começava a ver seu antigo admirador com outros olhos. Seu gerente perguntou se estava tudo bem, ele se desculpou pelas ausências, não se repetiria.

Thiago nem se lembrava que o propósito inicial era seduzir Leopoldo, ficou incomodado com seus olhares indiscretos; só pensava no esplendor loiro que estaria aquela hora na bilheteria do cinema. Ela também só pensava nele, mas estava sentindo uma leve dor de cabeça. Ocorre que havia de fato um antídoto para a fórmula mágica, um que nem os inventores conheciam, e era uma trivial aspirina. A mesma colega por quem seu ex-namorado esteve brevemente apaixonado providenciou o remédio para Cíntia. Depois de cinco minutos, ela pensou em Leopoldo, resolveu ligar, sem saber bem por quê. Foi a vez de ele desprezá-la, sua voz já ganhava trejeitos efeminados. Ela se desesperou, mas não podia sair naquele horário, o pico de movimento na bilheteria. A fofoca das colegas prosseguia, elas acabaram chegando à conclusão, ou bom palpite ao menos, de que havia um feitiço circulando, e só podia ter sido a aspirina a desfazê-lo.

O comportamento de Leopoldo estava cada vez mais estranho, e o gerente perguntou se ele não queria sair mais cedo, ele disse que estava tudo ótimo. Quando uma das moças da bilheteria entrou insistindo em que ele tomasse um comprimido, que seria um misto de hormônios que o faria irresistível para qualquer pessoa que ele tocasse, ficou desconfiado, mas quis arriscar. Disse que mudara de ideia e aceitou ser dispensado por aquele dia. Correu até a loja onde seu bofe trabalhava, inventou qualquer desculpa para se aproximar dele, que fugia. De repente o antídoto funcionou, não sabia o que estava fazendo ali e tinha saudades de Cíntia. Subiu até onde ela trabalhava, ela ficou feliz em vê-lo, agradeceu pelo presente, e disse que poderia sair em alguns minutos.

Sílvia, enquanto isso, seguia enciumada dos dois, resolveu tentar falar com Leopoldo no fim do expediente, que estava próximo. Thiago começou a ficar preocupado por não receber mais mensagens de Cíntia, até que ela mandou uma sugerindo se tratar de um engano. Pediu para sair um pouco mais cedo; ela autorizou, o que a ele já nem surpreendia, incumbiu outra funcionária de fechar a loja e resolveu seguir Thiago à distância. Ele se dirigiu à praça de alimentação, onde se pode dizer que tudo começou, e viu novamente o casal reunido. Ficou tão possesso com a traição de Cíntia que teve uma atitude impulsiva: abordou os dois, deu um tapa na moça e agarrou o pescoço do pobre rapaz. Os seguranças estavam longe, e, desacostumados a qualquer incidente naquele lugar tranquilo, não puderam evitar um bárbaro assassinato. Sílvia, que assistia a tudo, não pôde crer ao ver seu amado sendo morto, e, quando pôde reagir, tirou da bolsa sua pequena pistola, a qual nunca usara, aproximou-se e atingiu Thiago no peito. Ela foi detida em flagrante, a moça prestou depoimento e foi liberada. Chegou em casa de ônibus, tarde, não quis explicar nada. Tomou uma caixa inteira de remédio controlado; está no hospital, mas fora de perigo.

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