sexta-feira, 18 de maio de 2012

Corre IV

E esses dois outros caras, Pedro? Consegue a grana com eles ainda hoje. Relaxa, cara, eles estão desesperados para pôr a mão na marofa; e mesmo se não forem eles, você passa fácil a parte deles. Passar? Eu não sou traficante, porra, eu só quero cobrir o buraco na minha conta! O interfone tocou, era o Fábio, para quem eles haviam ligado do terminal central. Quando ele entrou pela porta, deu de cara com o metro bem em cima da mesa, sobre uma assadeira metálica. Havia ainda um enorme baseado pela metade, que foi prontamente aceso; Cássio escolheu um LP do Tim Maia e todos se esparramaram pelo sofá, celebrando o sucesso da arriscada empresa. Pedro iniciou a narrativa com uma minúcia talvez desnecessária.

Num restaurante do centro, Sílvio, o colega de apê careta, almoçava com um amigo que estava chegando da terra natal deles. Faziam planos de procurar um lugar para dividir e dar fim àquela situação insustentável. Não dá mais, sabe? Eu não gosto de interferir na vida de ninguém, mas todo dia quando eu chego tem quatro, cinco vagabundos fumando e falando bobagem, a sala fica fedendo, eu preciso estudar no quarto... Eu não tenho tempo para procurar imóvel, mas você pode fazer isso.

De volta no apartamento, perceberam que não tinham uma serra de pão, e foram bater no vizinho. A cara de terror da empregada ao ver Fábio com os olhos banhados em sangue fez rir aos três, a situação ficou assaz desconfortável, mas após consultar a patroa a senhora trouxe o utensílio. Estavam no processo de partir o tijolo em cinco, com muito cuidado para que ficassem iguais as partes, quando a porta se abriu e Sílvio entrou com o conterrâneo. Estabeleceu-se mais um embaraço; a expressão dele era de fato furibunda, e ele não se preocupou em cumprimentar a todos antes de se trancar no quarto.

Toda a tarde de sábado foi dedicada a fumar um depois do outro e ouvir metades de lados de discos. Fábio disse que tinha um conhecido que manjava de eletrônica, ia trazer ele para dar uma olhada na vitrola. O problema é mecânico, estúpido, Cássio irritou-se. De certa forma, já achava aquele defeito um charme. E estava tocando um da Alberta Hunter quando os dois elementos faltantes da negociação finalmente chegaram; ambos eram da matemática. Jogaram as notas sobre a mesa, mas ninguém guardou sua pedra, restando a mesma cena de antes, apenas com o volume dividido em cinco. Na verdade, ficavam brincando de empilhar os paralelepípedos ou construir diferentes formas.

A dado momento, os dois caretas saem do quarto e transpõem a porta da sala sem dizer nada. Atrás deles, deixaram um rastro de maledicência. Porra, se livra logo desse cara, incitava Pedro. Não é tão simples, Cássio desconversou. Não se passaram dez minutos até que a porta voltasse a se abrir. Todos estavam cozidos demais para se importar, apenas Cássio olhou, e teve um choque. Três policiais entraram com arma em punho; quando todos perceberam, ficaram petrificados em seus lugares. Ainda tiveram que ouvir insultos do síndico, que cruzou com eles quando desciam as escadas algemados. Cássio e Pedro, que não esconderam terem sido os responsáveis pelo corre, tiveram que cumprir seis meses; os demais prestaram serviços comunitários. Sílvio divide até hoje o mesmo apartamento com seu amigo.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Corre III

O rapaz que os acompanhara apontou um outro, com jaqueta de time de basquete americano, que estava com mais três em uma rodinha, perto de um armário metálico, daqueles de arquivo, antigos, nos fundos do galpão. Cássio olhou para Pedro e fez um sinal que dizia "deixa comigo"; o outro protestou: "fui eu quem ligou". Nisso chegaram ao grupo; cumprimentos nada sinceros e gírias meio forçadas à parte, Cássio foi direto ao assunto: "a gente veio pegar um metro". O cara da jaqueta mandou sossegar e pitar com eles, e prosseguiu acompanhando a letra do rap que tocava. Pedro estava de boa, mas Cássio não conseguia relaxar; depois de umas quatro bolas, uma bad trip começou a se instaurar e ele não via a hora de estar longe dali. Fez um sinal ao amigo que dizia "assuma daqui pra frente", o que era o melhor para os dois. Terminado o baseado, Pedro chegou no líder dos malacos e jogou a ideia: tinha ligado, tinha combinado, e estava ali para fechar negócio. O outro reiterou as condições, Pedro só olhou para Cássio, que sacou do bolso da calça um maço de notas que já havia sido contado e recontado. Na verdade, Cássio queria que todos tivessem dado sua parte de antemão, mas não foi possível, então ele teve que usar o limite de sua conta para levantar a quantia, o que o deixava exposto, até porque não conhecia todo mundo que estava na fita.

O traficante deu o dinheiro a um dos subalternos para contar, abriu a gaveta inferior do armário e tirou um tijolo enorme de maconha. Entregou a Pedro, que ficou embasbacado: é sempre uma visão impactante. Da segunda gaveta, ele tirou uma balança digital, que pôs sobre uma tábua estendida entre dois cavaletes, que fazia as vezes de mesa, e sustentava o som portátil que insistia com a música de gueto à qual os marginais balançavam apenas as mãos apontadas para baixo. Pedro depositou a brenfa sobre o prato: novecentos e cinquenta. Cássio tirou a mochila das costas, pegou o tijolo nas mãos, examinou e teve uma ideia: "alguém tem uma tesoura?" Ela surgiu da mesma segunda gaveta, ele rasgou toda a fita adesiva que empacotava a droga e ficou mais tranquilo: não estava sendo enganado. O traficante ainda insistiu para que fumassem mais um, nisso Pedro se lembrou do mala que os ajudara a encontrar a bocada, e separou um naco, que pôs no bolso. Não vai dar, sabe, temos compromisso à tarde. Mais cumprimentos conforme o código local - mãos espalmadas e depois cerradas - para a despedida, e percorreram o mesmo corredor com o mesmo sentinela para sair. Você nunca esteve aqui, foi a recomendação final.

No caminho do ponto de ônibus estava o campo de futebol de terra batida em que haviam deixado o guia. Ele agora estava jogando, com um monte de trabalhadores que chegavam da jornada matutina de sábado. Cássio quis seguir adiante e estar longe da quebrada o quanto antes. Pedro sabia do valor da palavra naquele tipo de contexto, e puxou o colega pela mão para esperar, sentados em uma caixa de eletricidade na base de um poste, o vapor que os ajudara. Intranquilo, Cássio olhava em volta, e de repente sua espinha gelou ante a vista de um carro de polícia. Sem reação, cutucou o amigo com o cotovelo. Fica tranquilo, ouviu, nenhum movimento brusco. Os policiais desceram do carro e empunharam as armas; os jogadores se dividiram entre correr e erguer os braços, mas logo ficou claro que era justamente aquele que eles esperavam que os homens da lei buscavam. Ele parecia se render por um momento, mas de repente alcançou na bermuda uma arma e atingiu um dos policiais na perna. A correria então foi geral, e uma confusão de disparos teve qualquer desfecho que eles não acompanharam, em sua debandada rumo à saída do bairro. Estavam ainda ofegantes ao chegar ao ponto. Dentro do ônibus, depois de meia hora de angústia, trocaram um abraço apertado como nunca antes, e nem ligaram para olhares dos outros passageiros.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Corre II

Vocês precisam pegar com esse cara, vale a pena! Já estou percebendo. Com certeza, brodi! Na metade do baseado, estavam todos muito loucos. Cássio já tinha fumado, mas dava pra perceber a qualidade superior da brenfa. Eu nunca consegui ter um canal fixo, confessou o mais novo, sempre alguma coisa dá errado. Esse cara é firmeza, eu passo o número; ele traz na sua casa. Eu não gosto disso, observou o anfitrião: traficande subindo aqui, não pode dar boa coisa. O cara é gente boa. Não importa se o cara gente boa, eu não quero começar uma amizade, eu quero resolver meu problema. Pena que o Luizão foi pro xadrez, lamentou Fábio. Eu tô nessa de pegar paranguinha com aquele cara do bandejão, isso não dá futuro, confessou Cássio. Pedro concordou, já peguei muito com ele. Mas não tô podendo pegar a três-pra-um, tive que encomendar um livro caríssimo para a pesquisa. E como vai sua dissertação?, interessou-se o colega mestrando. Sei lá, eu inventei de falar das quatro grandes, mas às vezes parece que só Hamlet dá muito pano pra manga. Mas vai bem sim.

Após um longo silêncio em que cada um ia afundando no sofá e curtindo o jazz, o braço do aparelho interrompeu Hello Dolly e todos meio que acordaram do torpor. Cássio esmurrou a mesa de centro: eu preciso comprar uma picape nova. Colocou um do Tom pra girar e voltou a seu lugar. Foi quando Pedro deu a ideia: cara, o melhor é comprar logo um quilo! Tá louco, os outros dois reagiram. Não, cara, se juntar cinco já rola; sai muito mais barato! Todos se entreolharam e um sorrisinho surgiu-lhes no rosto. E você sabe onde conseguir?, perguntou Fábio. Bem, eu conheço alguém que pegou esses dias, vou conversar com ele. E aquele telefone do lanche, hein? Pediram sanduíches e quando terminaram já era hora do futebol. Mandaram obviamente mais um e conversaram sobre diversos assuntos, o som da tevê desligado e uma bolacha do Coltrane no pino.

Três dias depois, Cássio e Pedro se encontraram por acaso no campus. O mais jovem contou que já tinha o canal certo. O Sérgio e o Sujo estão dentro. É tanto pra cada um. É no Parque Tuiuti. Só você tem carro. Nem fodendo que eu vou lá de carro. Vamos de busão. Combinaram que iriam os dois fazer o corre. Faltava ligar pro Fábio; ele topou na hora. Combinaram para o sábado, era quarta-feira. Na sexta ainda houve uma puta duma festa nas Ciências Humanas, então Pedro estava numa tremenda ressaca quando acordou às sete da matina para encontrar Cássio no ponto de ônibus. Achavam que de manhã era mais seguro. Chegou bem depois do combinado e encontrou o colega lá. O importante é agir naturalmente. Você está carregando uma mochila e é só isso, ninguém vai incomodar a gente, Pedro orientou o outro. Fica tranquilo, eu tenho mais bagagem que você, já fiz muito isso.

Tinham que pegar um até o terminal central e de lá outro. O primeiro demorou vinte minutos para chegar e em mais vinte estava no terminal; esperaram um quarto de hora e aí iniciaram uma longa jornada de quase uma hora até o Parque Tuiuti, uma quebrada perigosa que evoluiu em volta de uma fábrica de cimento quando aquilo era afastado da cidade. No caminho foram vendo formas modernas e urbanismo aceitável dando lugar pouco a pouco ao mais absoluto caos de moradias improvisadas, indústrias poluentes e vias mal-cuidadas. Chegaram e andaram meia hora, perderam-se, até que viram um sujeito com cara de malaco e abriram o jogo; ele os ajudou em troca de uma preza, que estavam comprometidos a dar na volta. O local apontou a porta. Era na verdade um portão de aço esmaltado, no qual bateram e aguardaram uns instantes até que um cara de camisa regata e o peito repleto de tatuagens olhasse pelas barras. Eu combinei com o Robert, Pedro arriscou. O bandido os olhou um pouco e os deixou entrar. Percorreram um corredor estreito, entre um casebre azul e o muro coberto de musgo. Havia mil tranqueiras pelo caminho, mas conseguiram chegar a um pequeno galpão.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Corre I

Você conhece a regra de ouro: os incomodados que se retirem. Essa não é a regra de ouro, a regra de ouro é não faça aos outros aquilo que não quer que façam a você mesmo. Exatamente, não fique reclamando da minha fumaça se não gostaria que eu reclamasse da sua... caretice; sei lá, vai estudar lá no quarto, na varanda, não importa, este aqui é meu ritual.

Os dois moravam juntos havia três meses, e a tensão latente indicava que provavelmente igual período não se passaria antes que se rompesse a parceria. Ambos haviam respondido a um anúncio de um terceiro estudante que alugara o apartamento e acabou se mudando e deixando os dois estranhos no ninho. Sílvio era metódico e estudioso, fazia alguma engenharia que já não me lembro; não se mudava porque estava atarefado demais com o curso e o estágio em um laboratório para se preocupar com isso. Já Cássio era um bon vivant maconheiro e relapso que fazia mestrado em literatura e não trocaria aquele lugar perto do campus por nada.

Seja qual for a interpretação correta da regra de ouro, Sílvio aquiesceu e foi para o quarto estudar, mesmo sem uma mesa, e o companheiro, se podemos chamar assim, terminou tranquilamente seu primeiro baseado da noite enquanto esperava a visita de dois outros estudantes de Letras, um do mestrado e um da graduação. Viu um pouco do noticiário sem muito entusiasmo até que o interfone tocou. Acionou o botão que abria a porta do hall e desligou a televisão. Havia um velho três-em-um com defeito que recolhia o braço na metade do disco; ele colocou um do Louis Armstrong e abriu a porta.

Cumprimentaram-se com ruidosos apertos de mão e meios-abraços e acomodaram-se nos dois sofás surrados enquanto trocavam minudências da vida acadêmica. Vou ter que reescrever todo o segundo capítulo, Fábio disse, irritado, meu orientador pensa que eu não devo falar em Maupassant se não vou analisar todo o realismo francês, que idiota! O que falta a essa gente é flexibilidade, concordou Cássio, se querem receita de bolo, fazer o quê, receita de bolo neles! Eu tô fudido em latim, reclamou Pedro, tenho que decorar umas vinte declinações diferentes. Não há vinte declinações diferentes, protestaram os mais velhos. Ah, não sei, deixa isso pra lá, vamos fumar um ou não? Fábio tirou do bolso da jaqueta (começava a fazer frio) uma caixinha de lata: cara, a gente pegou um três-pra-um que vai estourar sua cabeça! Na mesa de centro havia um dichavador com um smiley no topo, o anfitrião o passou ao amigo e começou a recortar um guardanapo de papel, alguém tem uma seda decente aí? Pedro tirou um livrinho do bolso e destacou uma folha, rasgou um pedaço do papel cartão e dobrou eu um pequeno tubo que seria a piteira. Em instantes, estava acesa uma bomba, e o mecanismo automático interrompeu Black and Blue bem no meio. Cássio virou o lado e a conversa prosseguiu sobre canais de fumo.  

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Inerme

Cachos em harmoniosa desordem
Miríade de encantos sutilíssimos
Lascívia exala de seu corpo jovem

Caminha com garbo e desenvoltura
Milagre suas mãos tão delicadas
Lavanda emana de sua brancura

Capaz de hipnotizar com seu âmbar
Milhares de faíscas que abrasam
Lamentam os céus este anjo ímpar

Carinho, sugere seu rosto largo
Milhas de pernas e belos pezinhos
Lábios tão doces ou, quem sabe, amargos

Cada gesto, epítome do charme
Missão inglória estar indiferente
Ladra insciente de um ser inerme

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Encrenca

Riu o riso amargo que era sua especialidade. Curto e abafado, encerrando com um suspiro. Sentia-se um idiota de se ver naquela situação mais uma vez. Se qualquer um de seus pacientes pudesse imaginar que ele estava fazendo aquilo, sua carreira estaria ameaçada. Voltou a questionar o moleque: vai conseguir? Claro, tranquilo, calma, é o que já havia escutado várias vezes. O telefone tocou, estou resolvendo, vai dar certo. Estava nos fundos de um bloco de lojas, numa rua onde ficava um bar frequentado por um acervo inusitado de desajustados sociais, o que propiciava o ambiente ideal para vicejar a selva do varejo de drogas a céu aberto.

Era o último recurso de qualquer usuário: caro, arriscado e a qualidade era muito variável, embora nunca realmente superior. Por isso Jonas estava ali de madrugada, quando a coca que um amigo conseguiu de dia já havia acabado. Sabia que o comportamento era doentio, sabia que a substância dominava sua vida, que mesmo assim seguia adiante com seu consultório e todas aquelas bocas abertas. Todos os demais espaços eram tomados pelo vício, e sua vida afetiva há muito era nula. Ironicamente, estava pensando naquele mesmo momento numa paciente que atendera à tarde. Era uma balzaquiana solteira, mais charmosa que bonita, e simpática, despojada. Ela fizera questão de perguntar seu estado civil, o que já é um sinal. Estava decidido a convidá-la quando acabasse o tratamento, mas aquilo realmente não importava muito. Talvez fosse o único benefício do pó, esboçou mais um sorriso auto-irônico.

O mesmo moleque apareceu pela décima vez com a mesma resposta. Eram sempre crianças de dez anos ou menos que operavam a banca, uma cena dantesca, e todos já o conheciam muito bem. Naquela noite, por algum motivo, ninguém tinha nada para vender: problemas de logística são naturais nesse ramo de atividade. Nenhuma novidade para Jonas, que apesar do hábito nunca conseguiu ter uma fonte estável de abastecimento. O pivete que sumia e aparecia, numa camisa de time muito maior que ele, tinha prometido que alguém ia conseguir, e ele já estava ali havia vinte minutos.

Foi quando surgiu um, um pouco maior, devia ter quatorze ou algo assim. Chamou-o no canto, alcançou por trás de um cano, e mostrou um embrulho de plástico branco, enquanto dizia rapidamente, como alguém que tinha consumido, talvez, que tomasse cuidado, estava muito perigoso. De fato, espiando por uma abertura por onde se podia ver a rua, um carro de polícia pôde ser visto passando. Ele deu o preço, Jonas regateou e conseguiu um pequeno abatimento. Deu o dinheiro e pegou a parada. Esboçou um movimento para abrir o saquinho, e foi quando o menor o repreendeu com veemência: tá louco, não abre isso aqui não. Ainda bateu boca com ele.

Há uma glândula no cérebro que atua sempre que você está na iminência de ser enganado, e garante que você seja enganado. Um drogado com a quilometragem de Jonas aceitar comprar qualquer coisa sem se certificar de que minimamente corresponde à expectativa, ou seja, de que é uma lebre e não mais um gato, é uma infantilidade tremenda. Dá vontade de cheirar tudo e fingir que não caiu como um pato. Tudo isso ele repetia para si mesmo dentro do carro, depois de ter atestado sua idiotice. Esmurrou o volante e gritou irado para aliviar a tensão. Era inútil voltar lá, os delinquentes já haveriam sumido.

Mas eles sempre voltam, e ele não estava disposto a simplesmente aceitar aquilo. Foi para casa onde o amigo compadeceu-se do logro sofrido por Jonas, mas lamentou muito mais a expectativa frustrada de mais algumas carreiras. Ocorre que esse amigo tinha uma arma, e Jonas insistia que ele a buscasse para voltar ao local do golpe. Ele tentou demover o dentista, não valia a pena mexer com essa gente: vamos dormir, tem aquela história que deve rolar amanhã e a gente fica de boa.

O amigo foi embora, ele se deitou sabendo que não conseguiria dormir, pelo que já havia cheirado e pela raiva que o consumia. Entre sucessivas iterações do plano de vingança, chegou a passar por sua cabeça que essa experiência deveria servir para que ele se convencesse de que aquilo tudo estava errado, de que deveria buscar ajuda para superar a dependência. Restava saber qual ideia prevaleceria pela manhã.

Acordou sem a dose que o "ajudaria" a trabalhar por horas, e durante o desjejum, café preto e cigarro, estava extremamente irritado. Lembrou-se da ideia de tentar parar, mas mais uma vez a resposta foi amanhã ou semana que vem. Ele tinha pelo menos que se livrar daquela ideia fixa. Se eu der um fim em um traste daqueles, quem vai se importar? Muita gente me agradeceria. Eu nunca pensei assim, eu dependo deles, afinal, mas agora é pessoal. A primeira coisa que disse à secretária (bom dia estava fora de questão) foi para cancelar todos horários da tarde.

Tinha dificuldades para se concentrar, tremia, e não atendeu o terceiro paciente, incumbindo a funcionária de inventar qualquer desculpa. Ligou para alguns amigos, e nem tão amigos, até descobrir alguém que tinha pó. Ele ia almoçar em casa então deu tudo certo: conseguiu dar pelo menos dois tirinhos até que a grande transação se efetivasse. Dirigiu quase uma hora até uma cidade próxima; havia lá uma feira especializada em produtos roubados e todo tipo de pequenas e grandes ilegalidades. O que ele procurava obviamente era a arma que o amigo lhe negara. Não foi difícil, nem foi muito caro, um clássico trinta e oito. Aquilo já estava mais caro que assumir o prejuízo, mas sua mente não conseguia raciocinar em linha reta.

No fim da tarde, veio a boa notícia: os amigos haviam concretizado a compra que os deixaria tranquilos, ou intranquilos, por algum tempo. Reuniram-se na casa de um deles e cheiraram ouvindo rock no último volume; não conversavam além do imprescindível, não se importavam mesmo uns com os outros, só com a farinha. Na cabeça de Jonas, sua resolução ganhava embalo com a sensação de plenipotência que lhe entrava pelo nariz. O assunto da véspera surgiu, entre risadas; ele dissimulou.

Era perto de meia noite quando ele passou bem devagar pelo mesmo bloco, com a janela fechada. Não viu o rapaz. Parou em um posto e tomou uma cerveja. Tentou mais uma vez, nada. Repetiu a operação, desta vez viu o moleque da camisa de time. Eu não mataria uma criança, embora ele mereça. Foi só na quinta tentativa que desistiu e foi para casa. Voltou no dia seguinte e no outro. Estava quase desistindo, mas sempre que manuseava a arma (afeiçoou-se a ela) seu intento se renovava.

Esperou dois dias e enfim conseguiu o que queria. Lá estava o rapaz, e estava na rua: esperava os carros encostarem para vender ali mesmo. Engatilhou a arma e parou bem devagar, longe dele, que veio andando até o carro; tempo em que ele ainda conseguiu fungar no seu tubinho, para dar firmeza. A mão esquerda acionou o vidro elétrico e a direita puxou o gatilho, quase ao mesmo tempo.

A polícia o alcançou em cinco minutos: estavam sempre por ali e os clientes do bar forneceram a placa. Sentado no chão da cela, esperando para ser apresentado ao delegado, Jonas finalmente concluiu o que sua consciência tentara insinuar: veja aonde essa porcaria me levou, eu me fiz de idiota muito mais do que ele; eu podia ter aproveitado a oportunidade, buscado ajuda, eu poderia conhecer aquela paciente, quem sabe, casar, ter filhos, comer e dormir como gente normal, passear no parque. A grade se abriu e ele foi posto ante a autoridade. Depois das formalidades, o delegado adotou um tom afável, disse que Jonas estava de parabéns por livrar a sociedade daquela escória, mas infelizmente não adianta matar um, vem sempre outro no lugar, e que, embora ele não pudesse sair com fiança, com um bom advogado daria tudo certo. A prisão foi a melhor, ou a pior, clínica de reabilitação que Jonas poderia ter. Não voltou a usar, e se aquela paciente precisou achar outro dentista, tenho certeza que ele se arranja qualquer hora.