quinta-feira, 10 de maio de 2012

Corre I

Você conhece a regra de ouro: os incomodados que se retirem. Essa não é a regra de ouro, a regra de ouro é não faça aos outros aquilo que não quer que façam a você mesmo. Exatamente, não fique reclamando da minha fumaça se não gostaria que eu reclamasse da sua... caretice; sei lá, vai estudar lá no quarto, na varanda, não importa, este aqui é meu ritual.

Os dois moravam juntos havia três meses, e a tensão latente indicava que provavelmente igual período não se passaria antes que se rompesse a parceria. Ambos haviam respondido a um anúncio de um terceiro estudante que alugara o apartamento e acabou se mudando e deixando os dois estranhos no ninho. Sílvio era metódico e estudioso, fazia alguma engenharia que já não me lembro; não se mudava porque estava atarefado demais com o curso e o estágio em um laboratório para se preocupar com isso. Já Cássio era um bon vivant maconheiro e relapso que fazia mestrado em literatura e não trocaria aquele lugar perto do campus por nada.

Seja qual for a interpretação correta da regra de ouro, Sílvio aquiesceu e foi para o quarto estudar, mesmo sem uma mesa, e o companheiro, se podemos chamar assim, terminou tranquilamente seu primeiro baseado da noite enquanto esperava a visita de dois outros estudantes de Letras, um do mestrado e um da graduação. Viu um pouco do noticiário sem muito entusiasmo até que o interfone tocou. Acionou o botão que abria a porta do hall e desligou a televisão. Havia um velho três-em-um com defeito que recolhia o braço na metade do disco; ele colocou um do Louis Armstrong e abriu a porta.

Cumprimentaram-se com ruidosos apertos de mão e meios-abraços e acomodaram-se nos dois sofás surrados enquanto trocavam minudências da vida acadêmica. Vou ter que reescrever todo o segundo capítulo, Fábio disse, irritado, meu orientador pensa que eu não devo falar em Maupassant se não vou analisar todo o realismo francês, que idiota! O que falta a essa gente é flexibilidade, concordou Cássio, se querem receita de bolo, fazer o quê, receita de bolo neles! Eu tô fudido em latim, reclamou Pedro, tenho que decorar umas vinte declinações diferentes. Não há vinte declinações diferentes, protestaram os mais velhos. Ah, não sei, deixa isso pra lá, vamos fumar um ou não? Fábio tirou do bolso da jaqueta (começava a fazer frio) uma caixinha de lata: cara, a gente pegou um três-pra-um que vai estourar sua cabeça! Na mesa de centro havia um dichavador com um smiley no topo, o anfitrião o passou ao amigo e começou a recortar um guardanapo de papel, alguém tem uma seda decente aí? Pedro tirou um livrinho do bolso e destacou uma folha, rasgou um pedaço do papel cartão e dobrou eu um pequeno tubo que seria a piteira. Em instantes, estava acesa uma bomba, e o mecanismo automático interrompeu Black and Blue bem no meio. Cássio virou o lado e a conversa prosseguiu sobre canais de fumo.  

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