sexta-feira, 11 de maio de 2012

Corre II

Vocês precisam pegar com esse cara, vale a pena! Já estou percebendo. Com certeza, brodi! Na metade do baseado, estavam todos muito loucos. Cássio já tinha fumado, mas dava pra perceber a qualidade superior da brenfa. Eu nunca consegui ter um canal fixo, confessou o mais novo, sempre alguma coisa dá errado. Esse cara é firmeza, eu passo o número; ele traz na sua casa. Eu não gosto disso, observou o anfitrião: traficande subindo aqui, não pode dar boa coisa. O cara é gente boa. Não importa se o cara gente boa, eu não quero começar uma amizade, eu quero resolver meu problema. Pena que o Luizão foi pro xadrez, lamentou Fábio. Eu tô nessa de pegar paranguinha com aquele cara do bandejão, isso não dá futuro, confessou Cássio. Pedro concordou, já peguei muito com ele. Mas não tô podendo pegar a três-pra-um, tive que encomendar um livro caríssimo para a pesquisa. E como vai sua dissertação?, interessou-se o colega mestrando. Sei lá, eu inventei de falar das quatro grandes, mas às vezes parece que só Hamlet dá muito pano pra manga. Mas vai bem sim.

Após um longo silêncio em que cada um ia afundando no sofá e curtindo o jazz, o braço do aparelho interrompeu Hello Dolly e todos meio que acordaram do torpor. Cássio esmurrou a mesa de centro: eu preciso comprar uma picape nova. Colocou um do Tom pra girar e voltou a seu lugar. Foi quando Pedro deu a ideia: cara, o melhor é comprar logo um quilo! Tá louco, os outros dois reagiram. Não, cara, se juntar cinco já rola; sai muito mais barato! Todos se entreolharam e um sorrisinho surgiu-lhes no rosto. E você sabe onde conseguir?, perguntou Fábio. Bem, eu conheço alguém que pegou esses dias, vou conversar com ele. E aquele telefone do lanche, hein? Pediram sanduíches e quando terminaram já era hora do futebol. Mandaram obviamente mais um e conversaram sobre diversos assuntos, o som da tevê desligado e uma bolacha do Coltrane no pino.

Três dias depois, Cássio e Pedro se encontraram por acaso no campus. O mais jovem contou que já tinha o canal certo. O Sérgio e o Sujo estão dentro. É tanto pra cada um. É no Parque Tuiuti. Só você tem carro. Nem fodendo que eu vou lá de carro. Vamos de busão. Combinaram que iriam os dois fazer o corre. Faltava ligar pro Fábio; ele topou na hora. Combinaram para o sábado, era quarta-feira. Na sexta ainda houve uma puta duma festa nas Ciências Humanas, então Pedro estava numa tremenda ressaca quando acordou às sete da matina para encontrar Cássio no ponto de ônibus. Achavam que de manhã era mais seguro. Chegou bem depois do combinado e encontrou o colega lá. O importante é agir naturalmente. Você está carregando uma mochila e é só isso, ninguém vai incomodar a gente, Pedro orientou o outro. Fica tranquilo, eu tenho mais bagagem que você, já fiz muito isso.

Tinham que pegar um até o terminal central e de lá outro. O primeiro demorou vinte minutos para chegar e em mais vinte estava no terminal; esperaram um quarto de hora e aí iniciaram uma longa jornada de quase uma hora até o Parque Tuiuti, uma quebrada perigosa que evoluiu em volta de uma fábrica de cimento quando aquilo era afastado da cidade. No caminho foram vendo formas modernas e urbanismo aceitável dando lugar pouco a pouco ao mais absoluto caos de moradias improvisadas, indústrias poluentes e vias mal-cuidadas. Chegaram e andaram meia hora, perderam-se, até que viram um sujeito com cara de malaco e abriram o jogo; ele os ajudou em troca de uma preza, que estavam comprometidos a dar na volta. O local apontou a porta. Era na verdade um portão de aço esmaltado, no qual bateram e aguardaram uns instantes até que um cara de camisa regata e o peito repleto de tatuagens olhasse pelas barras. Eu combinei com o Robert, Pedro arriscou. O bandido os olhou um pouco e os deixou entrar. Percorreram um corredor estreito, entre um casebre azul e o muro coberto de musgo. Havia mil tranqueiras pelo caminho, mas conseguiram chegar a um pequeno galpão.

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