quarta-feira, 16 de maio de 2012

Corre III

O rapaz que os acompanhara apontou um outro, com jaqueta de time de basquete americano, que estava com mais três em uma rodinha, perto de um armário metálico, daqueles de arquivo, antigos, nos fundos do galpão. Cássio olhou para Pedro e fez um sinal que dizia "deixa comigo"; o outro protestou: "fui eu quem ligou". Nisso chegaram ao grupo; cumprimentos nada sinceros e gírias meio forçadas à parte, Cássio foi direto ao assunto: "a gente veio pegar um metro". O cara da jaqueta mandou sossegar e pitar com eles, e prosseguiu acompanhando a letra do rap que tocava. Pedro estava de boa, mas Cássio não conseguia relaxar; depois de umas quatro bolas, uma bad trip começou a se instaurar e ele não via a hora de estar longe dali. Fez um sinal ao amigo que dizia "assuma daqui pra frente", o que era o melhor para os dois. Terminado o baseado, Pedro chegou no líder dos malacos e jogou a ideia: tinha ligado, tinha combinado, e estava ali para fechar negócio. O outro reiterou as condições, Pedro só olhou para Cássio, que sacou do bolso da calça um maço de notas que já havia sido contado e recontado. Na verdade, Cássio queria que todos tivessem dado sua parte de antemão, mas não foi possível, então ele teve que usar o limite de sua conta para levantar a quantia, o que o deixava exposto, até porque não conhecia todo mundo que estava na fita.

O traficante deu o dinheiro a um dos subalternos para contar, abriu a gaveta inferior do armário e tirou um tijolo enorme de maconha. Entregou a Pedro, que ficou embasbacado: é sempre uma visão impactante. Da segunda gaveta, ele tirou uma balança digital, que pôs sobre uma tábua estendida entre dois cavaletes, que fazia as vezes de mesa, e sustentava o som portátil que insistia com a música de gueto à qual os marginais balançavam apenas as mãos apontadas para baixo. Pedro depositou a brenfa sobre o prato: novecentos e cinquenta. Cássio tirou a mochila das costas, pegou o tijolo nas mãos, examinou e teve uma ideia: "alguém tem uma tesoura?" Ela surgiu da mesma segunda gaveta, ele rasgou toda a fita adesiva que empacotava a droga e ficou mais tranquilo: não estava sendo enganado. O traficante ainda insistiu para que fumassem mais um, nisso Pedro se lembrou do mala que os ajudara a encontrar a bocada, e separou um naco, que pôs no bolso. Não vai dar, sabe, temos compromisso à tarde. Mais cumprimentos conforme o código local - mãos espalmadas e depois cerradas - para a despedida, e percorreram o mesmo corredor com o mesmo sentinela para sair. Você nunca esteve aqui, foi a recomendação final.

No caminho do ponto de ônibus estava o campo de futebol de terra batida em que haviam deixado o guia. Ele agora estava jogando, com um monte de trabalhadores que chegavam da jornada matutina de sábado. Cássio quis seguir adiante e estar longe da quebrada o quanto antes. Pedro sabia do valor da palavra naquele tipo de contexto, e puxou o colega pela mão para esperar, sentados em uma caixa de eletricidade na base de um poste, o vapor que os ajudara. Intranquilo, Cássio olhava em volta, e de repente sua espinha gelou ante a vista de um carro de polícia. Sem reação, cutucou o amigo com o cotovelo. Fica tranquilo, ouviu, nenhum movimento brusco. Os policiais desceram do carro e empunharam as armas; os jogadores se dividiram entre correr e erguer os braços, mas logo ficou claro que era justamente aquele que eles esperavam que os homens da lei buscavam. Ele parecia se render por um momento, mas de repente alcançou na bermuda uma arma e atingiu um dos policiais na perna. A correria então foi geral, e uma confusão de disparos teve qualquer desfecho que eles não acompanharam, em sua debandada rumo à saída do bairro. Estavam ainda ofegantes ao chegar ao ponto. Dentro do ônibus, depois de meia hora de angústia, trocaram um abraço apertado como nunca antes, e nem ligaram para olhares dos outros passageiros.

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