domingo, 24 de junho de 2012

Fronteira I

Encontraram um hotel vagabundo perto da rodoviária. A viagem havia durado um dia inteiro e estavam exaustos; haviam percorrido a estrada considerada a mais perigosa do país, haviam errado o caminho e perdido meia hora, haviam cruzado uma tempestade e caído em inúmeros buracos. A bagagem era coisa pouca, deixaram-na no quarto simples e desceram para procurar um boteco. A mocinha, bonita até, da recepção, aconselhou a evitar as redondezas. Não estavam dispostos a ir até o centro, não antes de tomar banho e tudo, ao menos, então escolheram uma birosca onde parecia que não seriam incomodados.

Enquanto o garçom servia os copos, Mauro (esse era o Fino) expunha seus planos. São quase dois anos procurando emprego, fazendo bico, Bisnaga (esse era o Carlos), isso vai ser minha salvação: eu copio os DVDs em casa, tranquilo, tem um bando de gente mais desesperada que eu pronta pra percorrer os bares vendendo, e eu ainda posso trabalhar aqui e ali, de encanador, sei lá. Brindaram batendo os dois copos entre si e cada um na boca da garrafa. Que nunca falte! - um - Nem mulher nem cerveja! - outro - Nem a brizola! - o primeiro, perto do ouvido do outro. Trocaram um sorriso cúmplice e seguiram em voz baixa, Bisnaga instigando: Cara, aqui rola uma da boa, se a gente descobrisse... Meu, eu não tenho grana, há muito tempo só cheiro se-me-dão. Você nunca cheirou muito, né? já eu não fico sem essa merda; eu podia ser menos fodido não fosse isso. Para então, porra! Vou parar, pode deixar.  

Olharam em volta, o bar ia se enchendo aos poucos de moças mestiças com as pernas de fora, rapazes com roupas exuberantemente estampadas e correntes, um senhor com roupas desgrenhadas bebia pinga sozinho, e parecia haver começado cedo. Tocava algum forró com batida eletrônica e um locutor anunciava o nome da banda a cada pausa da letra, seguido de um efeito especial datado. Quando é que vamos nas cataratas, quis saber Mauro. Meu, amanhã a gente resolve nossas fitas e aí a gente vai no sábado, domingo pega o trecho. Eu sempre quis conhecer as cataratas, o amigo acrescentou com ar pensativo, e prosseguiu, como é essa treta aí do seu chefe, você só falou que ia buscar alguma coisa, é um contrabando doido, não? Mais ou menos, Carlos tentou se defender, é um equipamento de som que nem vende no Brasil, tá ligado? Coisa de fanático, cara, ele gastou dez mil dólares nessa porra, ele encomendou da última vez que veio aqui. E você veio buscar agora. Exatamente. E já está pago ou a grana está contigo? Carlos fez um gesto desconversando. Ele confia em ti, hein. O outro só franziu o cenho em reprovação. E a alfândega? Vai passar de barco, sussurrou o outro. Ma-lu-co!

À medida que a cerveja ia fazendo efeito - era a segunda -, os dois foram se soltando, prestando mais atenção às moças - o que era provavelmente uma péssima ideia -, e o Fino, que era mesmo um negro bem magro, aproximou-se da jukebox e começou a analisar as opções. Carlos esticava-se para trás e fechava os olhos, então não percebeu a comoção que se formou quando o amigo pôs a moeda no aparelho. Ele voltou a se sentar e ainda tocou mais uma música, uma balada americana antiga, antes que entrasse o rap que Mauro escolhera. A reação foi imediata: três jovens que estavam em pé junto ao balcão vieram para cima da mesa dos forasteiros, ameaçando-os com uma fala quase ininteligível. Mauro entendeu a pergunta sobre ser "rei do terreiro". Lembrou-se da moça da recepção; estava entre tentar dialogar e pôr as pernas para funcionar, e fez a escolha potencialmente arriscada. Calma, gente, deixa pra lá, manda tirar... Quando percebeu que os locais iam só tagarelar no patuá deles, Carlos ficou menos tenso; arriscou: Olha, mano, nóis também é da quebrada, tá ligado, então nóis é que nem vocês, tá ligado? Ante o silêncio, prosseguiu. Deixa eu pagar uma cerva pra vocês. Sentaram-se, e várias cervejas depois foi inevitável que o assunto viesse à tona, e foi obviamente Carlos a fazer a pergunta: sabem onde conseguir um pó?

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