domingo, 29 de julho de 2012

Fronteira II

Era uma capinha de CD de um grupo de pagode. O mala limpou com um pano talvez ainda mais sujo e jogou a brizola em cima. O Fino repartiu duas carreiras com uma gilete quebrada que tirou da carteira e fungou uma com cada narina. É boa, foi a sentença, é ótima, veio como reforço. Sacou a nota de cinquenta que o Bisnaga tinha conseguido; dele mesmo só restavam trinta e algumas migalhas, mas não pensou duas vezes, pediu os oitenta em pó. Não lhe veio à mente que precisava pegar um táxi para voltar, ou mesmo descolar um troco para o outro mala, o do bar, que o levara ali. Perguntou se podia voltar e pegar mais, que fosse discreto foi a única exigência. Desceram da laje e, uma vez na rua, onde um carro com o som ligado em alto volume irradiava qualquer sucesso radiofônico, Mauro se deu conta de que estava na mão, sem um puto. Ligou para o amigo.

Carlos chegou ao hotel e foi correndo verificar a bagagem, estava tudo em ordem, inclusive, e principalmente, o pacote vultoso de cédulas. Nunca lhe passou pela cabeça sacanear o chefe. Até porque seria uma péssima ideia: tratava-se de um dos chefes do esquema de bancas populares do centro, diziam que até trabalho escravo ele usava em suas confecções. A ele só cabia cobrar dos comerciantes, e nunca foi de fazer perguntas. Ligou a TV e assistia a qualquer bobagem, ansioso pela volta do parceiro com a farinha, quando o telefone tocou. Deu um esporro no Fino, mas calçou o tênis e desceu para esperar um táxi. Chegou à padaria onde haviam combinado, não sem errar o caminho duas vezes e apesar dos protestos do taxista, que temia aquela área. O mala do bar ainda voltou com eles, levou seu troco e os dois subiram.

O hotel era tão vagabundo que o espelho era daqueles de feira, pendurado por um prego. Foi devidamente retirado para uma função mais nobre do que lembrar aos rapazes de sua feiura. Deram cada um dois tiros e desceram para voltar ao mesmo bar e tentar comprar um uísque. A garrafa parecia original, então gastaram uma grana, ou o Bisnaga gastou, com um uísque escocês. Se era autêntico ou não, nem perceberam, animados que estavam, conversando sobre os planos da viagem e para o futuro. Carlos elogiava a droga, e aos poucos a mesma ideia que o amigo tivera e não ousara verbalizar ia tomando conta dele. Ele tinha contatos em Sampa, não teria dificuldade de passar aquilo adiante. Mas um pequeno problema persistia: e seu chefe? seu equipamento de áudio?

De repente quedaram olhando um para o outro longamente. Fino olhou para a mala. Não, nem pensar! Cara, pensa bem... a gente consegue quatro, cinco vezes mais em Sampa, isso sem batizar, imagina. Eu não posso, o que faço com meu chefe? Silêncio prolongado, após o qual Mauro teve uma epifania. Não vamos para Sampa, vamos para o Rio. Ele já tinha morado lá e tinha ainda contatos. Depois a gente vai pra fora, pra Europa. Exatamente. Era cedo, Fino procurou na agenda do telefone e achou um número, discou. Foi uma conversa em código, mas dava para perceber que o projeto se encaminhava. Pronto, agora quem decide é você; o chefe é seu, é o seu na reta. Ele te espera quando? Falei que voltava até terça. Então! dá tranquilo! Carlos bebeu uma boa golada do uísque, e ficou fitando o infinito.