sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Fronteira III

O Fino saiu do banho falando rápido, pondo pilha para procurarem uma balada. Seu amigo pediu silêncio: estava passando o noticiário e ele havia escutado a chamada de uma notícia que interessaria muito aos dois. Bisnaga não quis adiantar o que era, mas tinha um sorriso estampado no rosto. O outro insistia, mas só recebia uma mão espalmada que pedia calma. E então a âncora, com seu cabelo loiro curto e sua postura robótica, começou a dar detalhes da greve da polícia federal. Dentre as atividades prejudicadas, a voz feminina narrava por sobre imagens de um cão policial, estava a revista nas fronteiras. Fino ofereceu a palma da mão direita com o braço erguido e o outro correspondeu, segurando firme a mão do amigo. Não havia mais volta.

Pediram à recepcionista que providenciasse um táxi, e ficaram um tempo sem jeito de falar a respeito, excitados; deram mais dois tiros, cada, e desceram. No carro, falaram de futebol com o taxista, que recebeu a ordem de achar um bar tranquilo. Sentaram-se e olharam muitas vezes em volta. Era bem diferente do último em que haviam estado, tinha decoração caprichada, plantas, iluminação aconchegante, tocava uma bossa nova. Pediram uma cerveja e, tão logo o garçom serviu e se afastou, Mauro esfregou as mãos e explicou. Eu conversei com ele, sobre pegar mais, entende? Não estava nem pensando em roubar a grana do seu chefe... Ele estava entusiasmado e falava alto o bastante para ser escutado, Bisnaga o advertiu com uma mão e com o cenho. Mas aí, prosseguiu sussurrando, ele começou a falar que 50g era tanto, 100g era tanto... Quanto é que você tem? Bisnaga fez com as duas mãos e o parceiro fez com dois dedos.

É loucura... meu chefe, minha mãe, minha mina, como é que explico? Cara, isso tudo se resolve; essa é uma chance que não dá pra desperdiçar. Mano, eu nunca fui bandido! Como não, você trabalha pra máfia! Fala baixo, caralho! Fino se desculpou, tomou um gole do chopp. Tem mais! A revista está parada aqui; e lá? O outro parou, pensativo. É pouca coisa, cara, vai na roupa... É um risco grande, ainda. Não é, meu, eles estão atrás dos peixes grandes, fica tranquilo, porra! Tentaram falar de outros assuntos pelo resto da noite, mas a tensão estava latente. Bisnaga pagou a conta e seguiram o plano do Fino: ele se lembrava do nome do bairro e do da padaria, foi para lá que o táxi foi. Enquanto o amigo mais receoso andava de um lado pro outro, o mais pilhado voltou ao sobrado, pegou mais cinquenta - às custas do outro - só como pretexto para combinar o grande corre para o dia seguinte: duzentos, dez mil, três da tarde. Palavra de homem? Palavra de homem, porra!

Os dois precisaram caminhar até uma rua movimentada pois não tinham o telefone do serviço de táxi, e foi com o coração na mão, especialmente o Bisnaga, que chegaram ao hotel. A recepcionista estava dormindo e foi preciso bater com força até que abrisse, com uma cara entre o espanto e o reproche. Ainda sobrava um pouco do uísque, e é fácil deduzir que foram dormir quando o sol já nascia, após uma fase de rememoração de quase todas experiências divertidas que já haviam vivido juntos. Perderam obviamente o café da manhã do hotel, e até almoço foi um pouco difícil achar quase às duas, de modo que se dirigiram diretamente para o tal sobrado após a refeição. Desta vez, Bisnaga fez questão de ir junto, afinal o dinheiro era "dele" de certa forma. O traficante não gostou nem um pouco, ficou intranquilo, revistou os dois, conversou com seus comparsas, mas eventualmente a negociação foi concretizada. Andaram novamente até conseguir um táxi, pois não queriam chamar qualquer atenção, depositaram o tijolo envolto em fita na mala e seguiram primeiramente a um bar para um chopinho e depois para uma lan house de onde compraram as passagens. Rio-Lisboa, dali a dois dias.