terça-feira, 18 de setembro de 2012

Agridoce

Essa tela do computador está se mexendo? Era o fundo da área de trabalho: uma colina verdejante contra um céu azul claro, e um redemoinho se formava embaralhando as cores. É claro que eu sabia a resposta, mas queria deixar claro a todos que o ácido estava fazendo pleno efeito. A reação foi de gargalhada geral, obviamente; aquele riso nervoso mas ao mesmo tempo espontâneo de quem está tentando lidar com um certo desconforto e quase que tentando se convencer de que está se divertindo. No sofá ao lado do meu estava o Zito, o entusiata lisérgico que conseguira os micropontos, enquanto o Johny percorria os discos tentando escolher alguma coisa menos fritação, o que foi fonte de alguma disputa pois o Zito também era entusiasta das coisas mais absurdas, e se sentia muito à vontade escutando improvisação livre enquanto nós outros tínhamos receio de cair numa bad com aquela maluquice. O único consenso naquele momento era que era a hora de pitar mais um, para potencializar a onda que estava chegando com tudo; como o outro morador da casa, a minha, não fumava, precisávamos ir até os fundos.

Havia umas cadeiras metálicas e nos instalamos em um patamar mais elevado, mas o Johny pôs sua cadeira muito perto da borda; eu avisei: você está quase caindo, o Zito mandou uma de suas tiradas: não estamos todos? Ele mesmo estava terminando os trabalhos: tinha mais hábito em operar em tais condições adversas; aquilo me lembrou uma história. Um dia estava na praia, tinha tomado um doce, e eu estava fumando tabaco de enrolar, aí eu com muita dificuldade consegui colocar o tabaco na seda, mas bateu uma onda forte, e eu fiquei minutos segurando aquilo, sem conseguir apertar, rindo... Foi o mesmo dia dos mosquitos? Exatamente, louco aquilo, cara, a gente desesperado pra ir embora, e os caras jogando capoeira, eu dizia que não ia adiantar nada, mas eles estavam lá, sossegados... Rimos gostosamente. O banza começou a circular e o Zito começou a contar de uma outra trip que teve, quando outro colega viajou e deixou a casa como laboratório lisérgico por uns dias. Sei que eu entrei no banheiro e abri a torneira, então eu ouvia a água cair de uma altura enorme, e, quando eu vi, a pia estava mesmo derretendo, chegando até o chão. Nós ríamos enquanto ele fazia uma contorção pra imitar a pia.

Então o beque acabou e eu saquei minha carteira de cigarros e constatei que só havia dois deles. Caras, precisamos falar sobre alguma coisa. Eu preciso ir comprar cigarro. Putz! A reação inicial foi de desânimo, mas todos acabaram concordando que uma caminhada faria bem. Foi difícil conter o riso para passar pelo porteiro, mas ganhamos a rua. Eu estava viajando, percebendo detalhes inéditos das casas pelas quais passava sempre, e quando me dei conta os outros estavam em uma discussão sobre pós-modernismo; não tinha o que dizer então fiquei ouvindo por um tempo. O Zito contava de um livro que tinha lido, em que o autor havia publicado o artigo mais absurdo possível e recebido críticas entusiásticas. E ninguém pode admitir que o rei está nu, arrisquei. Isso mesmo. Fiquei me sentindo inteligente. Meu corpo parecia uma máquina que eu nunca havia manejado, e mesmo eu que sempre fui rígido andava me requebrando, queria senti-lo; de repente tive vontade de abraçar os dois, que entenderam prontamente.

O caminho para o posto que estava aberto passava por dentro da universidade, e de repente demos de cara com o Supimpa, que era colega do Johny na Sociais. Ele não demorou pra sacar a movimentação, e riu, cúmplice; avisou que estava acontecendo uma festa lá no instituto. Mais uma vez houve dissensão: o Zito e o Johny não queriam se sociabilizar, eu era todo pilha. Decidimos que o melhor era fumar um, e passamos a discutir o melhor lugar ali por perto; eu sentenciei que não precisava ser nenhum lugar especial, e fizemos um círculo em um estacionamento por ali. O Supimpa disparou a falar - sabíamos bem o porquê - e usou várias vezes a palavra que virou seu apelido; foi ótimo para nós que não queríamos mesmo falar àquela altura, numa onda de introspecção. Eu fechava os olhos e via cores dançando; estava absorto com elas quando me cutucaram com o beque aceso. Eu começava a fazer umas vocalizações que não significavam nada, achava aquilo divertido, uma brincadeira com fonemas. Fumamos e nos despedimos do Supimpa, que precisava passar em casa - sabíamos bem o porquê - mas ia voltar pra festa.

Passamos perto da festa no caminho, estava abarrotada. Os dois reafirmaram a preguiça de enfrentar aquela multidão, mas eu tinha um motivo para ir, alguém que eu queria encontrar e certamente estava lá. Chegamos ao posto; era uma loja de postinho como qualquer outra, mas todas aquelas luzes e aquelas cores foram a disneilândia para nós: cada neon, cada rótulo de produto, até mesmo um boneco de fibra de vidro na entrada, era motivo para espanto ou riso. Eu tratei de ficar sério o bastante para pedir e pagar os cigarros, mas ficou claro que os poucos clientes que estavam na loja observavam nosso comportamento; e isso era parte da graça. Eu que fumara o último antes de encontrar o Supimpa, acendi com gusto o primeiro cigarro do maço, mas logo em seguida senti repulsa àquilo; essas coisas de ácido, pensei que não havia motivo algum para eu me envenenar daquele jeito. Joguei o cigarro fora e o maço; pensava se devia jogar o isqueiro: e o beque, não vai parar? Você fez a gente vir até aqui comprar o cigarro, pra jogar fora? Acordei. Guardei o isqueiro instintivamente e dei qualquer reposta.

Mas a partir dali comecei a entrar numa bad de que precisava para de fumar, e tomar um doce parecia errado. Foi pensando nessas coisas e sem falar nada que caminhei até o ponto mais próximo de festa, quando a conversa inevitável aconteceria. Eu estava prestes a desistir e voltar pra casa quando o Zito disse que topava ficar meia hora; o Johny relutou, dizia que estava muito chapado, mas aquiesceu. Aquilo me animou, deixei as neuras um pouco de lado pra pensar nessa garota; a gente sempre se encontrava e ela era muito simpática, estava determinado a fazer meu lance, eu sabia que ela também tomava doce então não importava. Chegamos à festa e encontramos algumas pessoas antes de conseguir uma cerveja; a comunicação era monossilábica, apenas com um deles abrimos o jogo, e houve muita risada. Com as latas nas mãos, circulamos, e eu eventualmente avistei a garota em questão; ela usava um vestidinho colorido, que gracinha. Ela estava falando com um cara e eu despistei; já estávamos na segunda cerveja quando eu topei com ela de novo, sozinha.

A primeira coisa que eu disse foi sobre o doce. E vem para um lugar desses? Você é louco. Foi desanimador, fiquei nervoso, ela fumava, eu pedi um. A bad começou a voltar; eu pensei em me despedir e correr pra casa, mas uma conversa se estabeleceu e fui ficando, até quando dei qualquer indireta meio atrapalhada e fiquei constrangido. Meu, cê tá muito louco, vai pra casa. A gente continua outro dia, foi minha última tentativa. Melhor fingir que nunca aconteceu, ela ficou séria. Depois é que fui saber que ela estava namorando outro amigo meu, meio em segredo, por algum motivo. Só quis pegar mais uma cerveja antes de ir, e os dois já estavam impacientes. Fiquei com aquela derrota e com um vago sentimento de culpa ocupando minha cabeça na caminhada de volta. Concordamos em ouvir música bem tranquila para fumar mais um e descansar, foi um ponto alto da trip, na verdade, as paredes balançavam. Obviamente não ligamos e fumamos na sala mesmo. Na manhã seguinte parei com o cigarro, mas sabe como é, tem a última vez e a as últimas vezes, e eu voltaria a fumar tanto um quanto o outro. Mantive uma boa amizade com ela, e isso é bom.        

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Fronteira IV

Carlos dirigia seu próprio carro; nem tão próprio assim, havia sido sido emprestado pelo chefe, mas há tanto tempo que era como seu. E ele estava prestes a trair..., como assim, ele já havia traído sua confiança. Mauro era amigo de longo tempo, mas dar ouvidos a ele era sempre se meter em encrenca; esta era apenas a maior delas. Mauro, o Fino, não estava arriscando exatamente nada, largava um programa de aprendiz que podia ser a ponte para o emprego que há tanto buscava, e nisso pensava na estrada. Foi uma viagem tensa: pouco conversaram. Passaram por três postos de polícia, em que apenas rezaram, maus católicos que eram, para não serem parados; e tiveram sorte. Chegaram ao Rio e buscaram logo um albergue que o Fino já conhecia. Era bem na Lapa e o Bisnaga concordou na hora em tomar um chope. Domingo à noite, acabaram se sociabilizando, e calhou de ser com duas garotas mais jovens que estavam no albergue, uma alemã e outra austríaca, embora apenas Carlos soubesse um inglês rudimentar. Ainda assim foi seu amigo que tenha, mais por gestos que por palavras, conseguido informações sobre Lisboa, que a austríaca conhecia: bairro alto é onde deveriam se informar. O Fino ainda se entusiasmou e acreditou que conseguiria passar a noite com a vienense, mas sentiu logo o choque de cultura. Dormiram bem.

De manhã, conseguiram os saquinhos e a fita para acomodar todo o flagrante nos casacos que haviam trazidos prontos para o frio do sul; resolvido isso, foram à praia, ali em Copacabana. os dois fizeram telefonemas explicando que iam demorar a voltar, cada um com uma desculpa bem ou mal elaborada; a cada momento ainda trocavam olhares para confirmar o própósito, mas a resposta era sempre, por parte do Fino, principalmete, vamos em frente. O voo era naquela noite. Chamaram atenção no aeroporto, de casaco, mas não foram incomodados e embarcaram, ambos suando frio, o Bisnaga sendo mais inábil em disfarçar. Os assentos eram separados; Carlos sentou-se ao lado de uma professora de inglês bastante comunicativa que o ajudou a relaxar e Mauro ao lado de dois senhores que não quiseram muita conversa, o que palavras cruzadas compradas no aeroporto ajudaram a compensar. Ambos dormiram no voo, e o teste da alfândega, de manhã bem cedo, os reuniu. A conversa na fila foi truncada, falsa, nervosa, Mauro talvez mais inseguro, e com isso falante, que Carlos; mas tudo não passou de apresentar os passaportes - que haviam levado para ir apenas ao Paraguai. Suspiraram e trocaram um sorriso cúmplice; apenas no banheiro trocaram o cumprimento tradicional e um abraço forte.

Descobriram rápido que o idioma local não era exatamente o mesmo, mas foram informados de que não havia hotéis no bairro alto, mas a moça da lanchonete indicou um no chiado; dirigiram-se até lá e se instalaram. Era perto de meio dia, conseguiram almoçar - bacalhau, Carlos fez questão - ali perto, e voltaram para dormir até a hora em que o sol invernal se punha. Pediram direções e não foi difícil chegar ao bairro alto. Encostaram no primeiro bar que pareceu convidativo, o movimento ainda era pequeno. Aos poucos, uns tipos estranhos começaram a circular de cerveja na mão, desde mulheres de cabelo colorido a homens engravatados. Eu falei que ia dar tudo certo, Fino arriscou. Quase tudo, Bisnaga respondeu, tem uma fase importante pra resolver. Tinham dado uns tiros antes de ir ao hotel, e a cerveja estava dando vontade de reforçar. Vamos voltar pro hotel, disse o mais prudente; vamos aqui no banheiro, o mais pilhado. Vai você, então. Pois Fino foi flagrado por um funcionário do bar e os dois foram expulsos. Andaram até o hotel, cheiraram e voltaram a passos apressados, desta vez com foco no seu objetivo.

Circularam um pouco e detectaram um grupo que parecia mais propenso a conhecer os meandros do movimento local. A gente é brasileiro, tudo bem? É, chegamos hoje... A conversa caiu inevitavelmente em futebol inicialmente, passou por outros assuntos até que o Fino mandou: e uma brizola, como é que se consegue? Ninguém entendeu, obviamente, mas um gesto do indicador martelando a lateral do nariz completou a comunicação. Um deles os mediu, olhou para os parceiros e aconselhou que falassem com um gajo de cabelo comprido que ficava no adamastor e usava um gorro verde. Erraram algumas vezes o caminho até encontrar o mirante do adamastor, que estava repleto de gente, mas apenas uma como gorro verde. Tudo bem? - era sempre o fino a tomar iniciativa. Boa noite, o que tu queres? Aí foi a vez do Bisnaga tomar a palavra. Meu nome é carlos, sou brasileiro; nós viemos com uma proposta. O gajo tirou um palito da boca e demorou um pouco para contestar: e qual é? Não quer ir a um lugar mais tranquilo? Pediu um instante e andou até um banco onde estava sentado outro gajo, que levantou a um sinal do primeiro; cumprimentou-os. Boa noite senhores, brasileiros então? O gorro verde sussurrou em seu ouvido e ele passou a fazer uma série de perguntas banais; o Fino cortou a conversa e reafirmou: temos uma proposta, bom negócio pros dois, tá ligado? O segundo rapaz, que usava um casaco de couro marrom, fez uma careta com a gíria, trocou um olhar com um outro e disse que o acompanhassem. Saindo do mirante, em uma tranquila, os dois foram revistados; andaram um bocado trocando amenidades, Carlos praticamente mudo, nervoso. Chegando a uma viela de paralelepípedos - era a alfama - entraram em um restaurante, cumprimentaram o senhor no balcão e saíram por uma porta lateral, atingindo um quarto minúsculo.

Mais uma vez Carlos tomou a dianteira: tinha medo da impetuosidade do amigo. Nós temos 200 "g" de cocaína (não queria mal entendidos). Eles tinham pesquisado o valor de mercado na Europa no mesmo dia em que compraram as passagens, mas Bisnaga esperou a reação dos gajos. Está convosco? Está no hotel. Preciso provar, não posso dar um preço, o casaco marrom havia assumido o comando. É coisa boa, da fronteira, o Fino atravessou. Os locais se olharam, e o de gorro sentenciou: procura-me amanhã no mesmo lugar com a mercadoria. E assim foi feito, os brasileiros fizeram um pouco de turismo na tarde seguinte, excitados com o sucesso iminente do plano ousado. Repetido o ritual da noite anterior, o gajo com o mesmo casaco provou o produto, pesou, e estabeleceu um preço. Os manos da periferia paulista haviam-se equivocado: o pó valia muito mais, aceitaram sem regatear. Celebraram como loucos após guardar o dinheiro no hotel, foram se deitar quase meio dia, alucinados. Ao acordar, mais uma vez ao pôr do sol, Bisnaga tinha uma incrível sensação de culpa, enquanto o Fino já se preparava para retomar os trabalhos com a porção que haviam reservado para si. Aquele julgou que era bom alvitre ligar mais uma vez para o chefe, dizendo que a entrega da aparelhagem de áudio havia falhado e aconteceria no dia seguinte: ganhariam tempo. Ah, como a consciência nos trai! Todos os passos deles eram previsíveis, os tentáculos da máfia chinesa eram longos, e os dois brutamontes que os aguardavam não tiveram dificuldade em reconhecê-los no aeroporto de Amsterdam. Bisnaga procurava não se envolver com os detalhes das atividades de seu chefe; não sabia por exemplo que ele tinha um gosto mórbido por tortura. Só a morte aliviou o sofrimento dos dois.