sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Fronteira IV

Carlos dirigia seu próprio carro; nem tão próprio assim, havia sido sido emprestado pelo chefe, mas há tanto tempo que era como seu. E ele estava prestes a trair..., como assim, ele já havia traído sua confiança. Mauro era amigo de longo tempo, mas dar ouvidos a ele era sempre se meter em encrenca; esta era apenas a maior delas. Mauro, o Fino, não estava arriscando exatamente nada, largava um programa de aprendiz que podia ser a ponte para o emprego que há tanto buscava, e nisso pensava na estrada. Foi uma viagem tensa: pouco conversaram. Passaram por três postos de polícia, em que apenas rezaram, maus católicos que eram, para não serem parados; e tiveram sorte. Chegaram ao Rio e buscaram logo um albergue que o Fino já conhecia. Era bem na Lapa e o Bisnaga concordou na hora em tomar um chope. Domingo à noite, acabaram se sociabilizando, e calhou de ser com duas garotas mais jovens que estavam no albergue, uma alemã e outra austríaca, embora apenas Carlos soubesse um inglês rudimentar. Ainda assim foi seu amigo que tenha, mais por gestos que por palavras, conseguido informações sobre Lisboa, que a austríaca conhecia: bairro alto é onde deveriam se informar. O Fino ainda se entusiasmou e acreditou que conseguiria passar a noite com a vienense, mas sentiu logo o choque de cultura. Dormiram bem.

De manhã, conseguiram os saquinhos e a fita para acomodar todo o flagrante nos casacos que haviam trazidos prontos para o frio do sul; resolvido isso, foram à praia, ali em Copacabana. os dois fizeram telefonemas explicando que iam demorar a voltar, cada um com uma desculpa bem ou mal elaborada; a cada momento ainda trocavam olhares para confirmar o própósito, mas a resposta era sempre, por parte do Fino, principalmete, vamos em frente. O voo era naquela noite. Chamaram atenção no aeroporto, de casaco, mas não foram incomodados e embarcaram, ambos suando frio, o Bisnaga sendo mais inábil em disfarçar. Os assentos eram separados; Carlos sentou-se ao lado de uma professora de inglês bastante comunicativa que o ajudou a relaxar e Mauro ao lado de dois senhores que não quiseram muita conversa, o que palavras cruzadas compradas no aeroporto ajudaram a compensar. Ambos dormiram no voo, e o teste da alfândega, de manhã bem cedo, os reuniu. A conversa na fila foi truncada, falsa, nervosa, Mauro talvez mais inseguro, e com isso falante, que Carlos; mas tudo não passou de apresentar os passaportes - que haviam levado para ir apenas ao Paraguai. Suspiraram e trocaram um sorriso cúmplice; apenas no banheiro trocaram o cumprimento tradicional e um abraço forte.

Descobriram rápido que o idioma local não era exatamente o mesmo, mas foram informados de que não havia hotéis no bairro alto, mas a moça da lanchonete indicou um no chiado; dirigiram-se até lá e se instalaram. Era perto de meio dia, conseguiram almoçar - bacalhau, Carlos fez questão - ali perto, e voltaram para dormir até a hora em que o sol invernal se punha. Pediram direções e não foi difícil chegar ao bairro alto. Encostaram no primeiro bar que pareceu convidativo, o movimento ainda era pequeno. Aos poucos, uns tipos estranhos começaram a circular de cerveja na mão, desde mulheres de cabelo colorido a homens engravatados. Eu falei que ia dar tudo certo, Fino arriscou. Quase tudo, Bisnaga respondeu, tem uma fase importante pra resolver. Tinham dado uns tiros antes de ir ao hotel, e a cerveja estava dando vontade de reforçar. Vamos voltar pro hotel, disse o mais prudente; vamos aqui no banheiro, o mais pilhado. Vai você, então. Pois Fino foi flagrado por um funcionário do bar e os dois foram expulsos. Andaram até o hotel, cheiraram e voltaram a passos apressados, desta vez com foco no seu objetivo.

Circularam um pouco e detectaram um grupo que parecia mais propenso a conhecer os meandros do movimento local. A gente é brasileiro, tudo bem? É, chegamos hoje... A conversa caiu inevitavelmente em futebol inicialmente, passou por outros assuntos até que o Fino mandou: e uma brizola, como é que se consegue? Ninguém entendeu, obviamente, mas um gesto do indicador martelando a lateral do nariz completou a comunicação. Um deles os mediu, olhou para os parceiros e aconselhou que falassem com um gajo de cabelo comprido que ficava no adamastor e usava um gorro verde. Erraram algumas vezes o caminho até encontrar o mirante do adamastor, que estava repleto de gente, mas apenas uma como gorro verde. Tudo bem? - era sempre o fino a tomar iniciativa. Boa noite, o que tu queres? Aí foi a vez do Bisnaga tomar a palavra. Meu nome é carlos, sou brasileiro; nós viemos com uma proposta. O gajo tirou um palito da boca e demorou um pouco para contestar: e qual é? Não quer ir a um lugar mais tranquilo? Pediu um instante e andou até um banco onde estava sentado outro gajo, que levantou a um sinal do primeiro; cumprimentou-os. Boa noite senhores, brasileiros então? O gorro verde sussurrou em seu ouvido e ele passou a fazer uma série de perguntas banais; o Fino cortou a conversa e reafirmou: temos uma proposta, bom negócio pros dois, tá ligado? O segundo rapaz, que usava um casaco de couro marrom, fez uma careta com a gíria, trocou um olhar com um outro e disse que o acompanhassem. Saindo do mirante, em uma tranquila, os dois foram revistados; andaram um bocado trocando amenidades, Carlos praticamente mudo, nervoso. Chegando a uma viela de paralelepípedos - era a alfama - entraram em um restaurante, cumprimentaram o senhor no balcão e saíram por uma porta lateral, atingindo um quarto minúsculo.

Mais uma vez Carlos tomou a dianteira: tinha medo da impetuosidade do amigo. Nós temos 200 "g" de cocaína (não queria mal entendidos). Eles tinham pesquisado o valor de mercado na Europa no mesmo dia em que compraram as passagens, mas Bisnaga esperou a reação dos gajos. Está convosco? Está no hotel. Preciso provar, não posso dar um preço, o casaco marrom havia assumido o comando. É coisa boa, da fronteira, o Fino atravessou. Os locais se olharam, e o de gorro sentenciou: procura-me amanhã no mesmo lugar com a mercadoria. E assim foi feito, os brasileiros fizeram um pouco de turismo na tarde seguinte, excitados com o sucesso iminente do plano ousado. Repetido o ritual da noite anterior, o gajo com o mesmo casaco provou o produto, pesou, e estabeleceu um preço. Os manos da periferia paulista haviam-se equivocado: o pó valia muito mais, aceitaram sem regatear. Celebraram como loucos após guardar o dinheiro no hotel, foram se deitar quase meio dia, alucinados. Ao acordar, mais uma vez ao pôr do sol, Bisnaga tinha uma incrível sensação de culpa, enquanto o Fino já se preparava para retomar os trabalhos com a porção que haviam reservado para si. Aquele julgou que era bom alvitre ligar mais uma vez para o chefe, dizendo que a entrega da aparelhagem de áudio havia falhado e aconteceria no dia seguinte: ganhariam tempo. Ah, como a consciência nos trai! Todos os passos deles eram previsíveis, os tentáculos da máfia chinesa eram longos, e os dois brutamontes que os aguardavam não tiveram dificuldade em reconhecê-los no aeroporto de Amsterdam. Bisnaga procurava não se envolver com os detalhes das atividades de seu chefe; não sabia por exemplo que ele tinha um gosto mórbido por tortura. Só a morte aliviou o sofrimento dos dois.

        

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