domingo, 30 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa X

Halunke estava na calçada quando quando a porta se abriu acima e começou a expelir exemplares típicos da comunidade hipster de Brasília, que ele via descerem uma escada até o nível da rua. Depois que todos aparentemente haviam saído, Hal ainda teve tempo de fazer e fumar um cigarro inteiro antes que o pessoal da produção começasse a sair. Ele prestou muita atenção, voltou a analisar a fotografia; de repente surgiu uma jovem, de jeans e camiseta, que se perecia com ela, mas com cabelo castanho. Ele se aproximou.

_ Simone?

Ela pareceu surpresa, ficou na defensiva.

_ Sim, pois não?
_ Jonas Zanattini, do Correio - e mostrou o crachá falso, ou ao menos antigo.
_ Ah, prazer...
_ Eu gostei muito da peça, de sua performance em particular...
_ Ah, que isso... Mas espera um pouco, eu não vi você na plateia.
_ Estava sentado em uma caixa, no escuro. O melhor para o jornalista é não ser notado, entende?
_ Bem, eu posso dizer que fico nervosa ao perceber um - estavam ambos rindo.
_ Será que eu consigo uma entrevista?

Ela hesitou um instante. Os interesses conflitantes de fugitiva e de aspirante a estrela a dividiam. 

_ Me deixa um cartão seu, eu vou pensar.
_ A gráfica está me devendo os cartões, mas vou anotar aqui - e entregou a ela uma folha do bloco.
_ Hal? Seu nome não é Jonas?
_ É meu apelido no jornal, desculpa, é tão automático.
_ Devo chamá-lo como?
_ De Hal, eu acho.
_ Então fica assim, Hal. Espere meu telefonema.

Ele entrou no carro, esticou uma perninha no livro e pegou a W3 rumo ao Venâncio. O vigia olhou desconfiado, conferiu a autorização e liberou Hal enfim. Ele trabalhou como um lunático, com pausas para cheirar um par de carreiras, e às oito e trinta ele estava salvando o trabalho em um CD. Voltou para a pensão e tomou um banho, deitou-se e ainda pensou na atriz, que anjo!, antes de conseguir conciliar o sono. 

Acordou molhado de suor, lá pelas três. Passou café e fumou, ficou assistindo TV e não teve fome o dia todo. À noite, ligou para um amigo, conversou brevemente e desceu para pegar o carro. Dênis morava no Guará, recebeu Hal com uma long neck, estava jogando videogame. Conversaram algumas bobagens, Hal contou sobre seu caso, enquanto o bong circulava.

_ Dênis, você daria uma olhada nessa tradução, por favor?

O amigo havia morado na Alemanha, e já tinha ajudado Hal várias vezes, a troco de uma comissão que acabava não sendo cobrada. Havia poucas alterações por fazer e o CD pulou do drive no mesmo instante em que Dênis tirava a última bongada da noite. Hal achou uma estação tocando música erudita e voltou para a pensâo sorrindo, mas ainda cansado pela noite mal dormida.

Na Trilha Certa IX

A manhã seguinte exigia de Hal a velha acrobacia de evadir a cena do crime sem ferir a susceptibilidade da vítima. Ele teve que esperá-la descer para ir à padaria, tomar café conversando amenidades, e por pouco escapou de ver fotos de uma viagem à Europa que ela fizera. Zaira o acompanhou até o carro e pediu-lhe que não sumisse. Ele dirigiu até a pensão, andou até a banca ali perto e conferiu se havia notícias sobre o senador Macieira, debalde. Subiu a escada pensando no olhar idiota que a dona da pensão sempre lhe reservava quando ele dormia fora, o que de fato se repetiu. Ela aproveitou para admoestá-lo pelo atraso, ele mal prestava atenção, absorto em uma fantasia que envolvia muito dinheiro e o fim daquela humilhação. Hal teve energia bastante para tomar um banho e desabar na cama, da qual sairia apenas depois de duas da tarde.

Como o PF estaria fechado, Halunke analisou as alternativas, inclusive a casa da ex, lembrando logo o risco de topar o usurpador, e optou pelo quibe do Conjunto Nacional. Era quase uma extravagância para quem havia filado almoço dois dias seguidos. O telefone tocou quando ele fechava o carro; era sua mãe.

_ Oi, mãe!
_ Jonas, você não se importa comigo!
_ Como assim, mãe, eu sonhei com você outro dia!
_ Sério, como era o sonho?
_ Não sei, foi mais uma impressão... tá tudo bem?
_ Como se você se importasse.
_ Sem drama, mãe.
_ Estou ligando pra dizer que sua irmã vai fazer um curso no Canadá. Eu vou precisar passar um tempo com você em Brasília.
_ Mãe, olha... meio difícil, o apartamento tá em reforma.
_ Você nunca me disse.
_ Pois é, faz tempo que a gente não se fala, né? Agora não dá, mãe, mais pra frente, certamente... eu adoraria.
_ Você vai negar abrigo a sua mãe?
_ Você vai ficar desconfortável aqui. Por que não vai pro Rio com a tia Jaque?
_ Olha Jonas, eu nem sei por que ainda converso contigo. Adeus.

Depois de comer sua comida árabe, dirigiu-se ao Venâncio 2000, ali perto, mais uma vez parando no parque para economizar. O segurança consultou um caderno onde aparentemente estava registrada sua autorização e permitiu a entrada. Halunke se sentou na poltrona de Jorge e saboreou o que era ter um escritório por alguns instantes antes de se dedicar ao trabalho. Quer dizer, não haveria problema se ele visitasse esta ou aquela página antes... e o resultado é previsível. Mas afinal ele atacou a tradução. Hal havia estudado alemão sim, mas seu nível era intermediário no máximo, o que ele compensava usando bem as ferramentas da internet. Quando eram sete horas ele havia feito, bem ou mal, um terço do trabalho. Trancou o escritório e caminhou até o carro, dirigindo até o bar mais próximo, que veio a ser uma pista de kart. Já havia bebido três garrafas de cerveja quando decidiu pilotar um kart, e isso não pareceu um problema a ninguém, era como se o kart fosse uma realidade paralela onde as leis do trânsito e do bom senso não se aplicassem. Ele demorou para pegar o jeito, e se mantinha à direita para ser ultrapassado, mas depois de dominar minimamente a técnica necessária, passou a intimidar os oponentes e a arriscar todo tipo de manobra imprudente. A direção do lugar deu-lhe bandeira vermelha e o fez parar; ele saiu do carro alucinado, revoltado contra a decisão; comprou uma lata e saiu cantando pneus com o batmóvel.

O destino era a Ceilândia, onde ele conhecia um canal de bright. Depois que ele chegou à quadra, passou pela área de lazer e se aproximou da praça onde ocorria o movimento, estacionou o carro e seguiu a pé.
Havia um grupinho aparentemente fumando um embaixo de uma árvore. Usavam de modo geral roupas de surfe e correntes pesadas; um se adiantou.

_ Vai querer o que?

Hal só fez um sinal roçando o indicador na narina direita, seguido de outro com a mão espalmada.

_ Cinquenta de brizola, tá na mão.

Ele alcançou alguma coisa atrás mureta da quadra de esportes e entregou a Hal, que, ao mesmo tempo, entregava a onça.

_ Bom fazer negócios com você.

Já no carro, com a ajuda do Chandler, ele deu um tiro de cada lado, esfregando o restante nas gengivas. Guardou o flagrante e pegou a Estrutural alucinado. Talvez não fosse boa ideia, mas ainda dava para testar uma teoria naquela noite ainda. Estacionou o carro e andou um pouco até localizar o teatro, no meio da quadra. A peça obviamente já havia começado, estava mais perto de terminar na verdade, o que enfim aconteceu, e a plateia, pequena, começou a sair.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa VIII

Halunke voltava para casa pensando nos pés pequeninos de Âmbar, na faceirice de Patrícia/Simone e na amiga que precisou imaginar, com cabelos curtos, pretos, e olhos azuis, e em pouco tempo estavam todas nuas, explorando a anatomia umas das outras. De repente uma faixa lhe chamou atenção: internet; conseguiu, com muita sorte, uma vaga na comercial, não se molhou muito até chegar à lojinha de subsolo. Sacou seu bloco e enviou ao Aranha a lista com os nomes do senador e de seus assessores; suas buscas pelos nomes das seguidoras do político na rede social não renderam nada. Chegou então ao que queria: pesquisou tudo que pôde sobre Âmbar, achou sua aprovação no vestibular, o programa em Viena, um blog de poesia e suas contas em redes sociais; a moça ficava cada vez mais interessante. Salvou algumas fotos e enviou a si mesmo. Pesquisou então por Patrícia Saavedra, conseguiu muitas notícias em jornais locais e só; buscou então por Simone + teatro + Brasília, até que descobriu uma nota no caderno de Cultura, mencionando uma peça, ainda em cartaz, no Espaço Mosaico, e tomou notas. Não havia uma foto dela, mas parecia ser um bom palpite. Pagou pelo serviço e, subindo à superfície, percebeu que havia uma farmácia atravessando a rua; comprou enfim uma escova de dentes.

Terminou o trajeto até a pensão, tomou um banho e pôs roupas secas. Ligou o rastreador e verificou que o carro não saíra do lugar, o que fazia sentido, pois o senador fora viajar. Lembrou-se do cheque, faltavam poucos minutos para o fechamento da agência, desceu desesperado. Conseguiu sacar o dinheiro, por muito pouco, e já aproveitou para tomar uma gelada no botequim mais próximo. Sacou o telefone e ligou para Jorge, que atendeu entusiasmado.

_ Já ia te ligar, bandido!
_ Telepatia pura, meu velho. Vamos tomar uma?
_ Daqui a pouco, estou meio...
_ Hoje é sexta, porra.
_ Às seis? No velho Beira?
_ No velho Beira.

Bebeu duas cervejas sozinho, lendo o mesmo Chandler, e rumou para o Beirute, que já começava a fervilhar com o happy-hour de profissionais liberais e libertinos profissionais da capital federal. Antes que o amigo chegasse, ligou outro número da memória.

_ Zaira?
_ Sim?
_ Hal, beleza?
_ Você tem coragem de me ligar?
_ Poxa, Zaira, eu te expliquei por que...

Ela desligou, ele insistiu. Ela demorou a atender.

_ Fala.
_ Escuta, eu realmente tive um imprevisto aquele dia, tenho testemunhas.
_ Você sequer me ligou.
_ Era um assunto urgente, profissional, você precisa entender.
_ Eu não quero mais conversar.
_ Não faça isso, se você me deixar...

Desligou de novo. Ele retomou o livro, mas não leu nem parágrafo e Jorjão apareceu, com a gravata listrada em torno do pescoço. Abraçaram-se, pediram mais um copo ao garçom e Jorge começou logo a narrar seus progressos.

_ Eu pensei no que você disse. Fui a todos os restaurantes caros, abordando os garçons. Eles geralmente não sabem de nada, como sempre, mas um - a troco de cinquenta mangos - revelou que a havia visto jantando com um cara mais velho. Ali no Intercontinental.
_ Sei... é uma pista, afinal.
_ É verdade, mas o maître não quis ajudar e me enxotou.
_ O garçom descreveu o acompanhante dela?
_ Eu insisti, mas ele só sabia que era velho e gordo.
_ Ele pode ter dito qualquer coisa só pela onça.

Jorge parou por um instante, pensativo.

_ Que se foda, príncipe, hoje é sexta - brindaram.
_ Por falar nisso, meu caro, eu tenho mais um favor a pedir...
_ Caralho, Hal.
_ Relaxa, é coisa pouca. Posso usar seu escritório no fim de semana?
_ Vai trabalhar?
_ Eu consegui uma tradução pra fazer.
_ Bom.
_ Em breve vou reativar o meu, tão logo possa comprar um micro. Já paguei as contas e tudo.
_ E como vai o matrimonial?
_ Nada novo, mas o rastreador foi instalado.
_ Você está ficando preguiçoso, Hal.
_ Que nada, só aderindo à tecnologia.

Continuaram bebendo e conversando, e em dado momento o Monte Calvo atacou novamente: era Zaira. Hal conversou um pouco, concordando sempre, e, ao desligar, comunicou ao colega que precisava resolver certo assunto. Pediram a conta, Jorge se ofereceu para pagar mais uma vez e Halunke fez o charme de sempre antes de aceitar. Despediram-se, Hal por um instante considerou revelar o ocorrido no Restaurante Universitário, mas conteve-se, convinha investigar mais, podia ser alguém parecido, racionalizava.

_ Ah, sim, as chaves!

Jorge lhe entregou as chaves do escritório, ligou para a portaria do Venâncio expressando a autorização para que o amigo entrasse em dias não comerciais. Quando Hal chegou ao bloco de Zaira, na asa norte, já estava um pouco embriagado. Saíram para jantar, ela o xingava e o beijava com veemência; ele dormiu no apartamento dela, depois de uma garrafa de vinho e de uma transa intensa, seguida de um baseado. Não tivesse ele tido que pagar pelo jantar, teria sido perfeito.  
    

Na Trilha Certa VII

O rádio-relógio antigo, vintage, como ele preferia, dizia que estava atrasado, e a cabeça, modelo anos setenta e dificilmente em bom estado, dizia que estava com uma puta ressaca. O jarro estava vazio e saiu de cueca mesmo para buscar um pouco d'água no filtro; uma solteirona que morava lá desde sempre fez um escândalo e foi sumariamente mandada à merda. A escova ainda era só uma promessa, mas a pasta ajudou com o gosto ruim.

_ Que ideia estúpida, rum! Já devia ter aprendido essa.

Alcançou o telefone e discou um número da lista de chamadas recentes, sem muita certeza se era o correto. Com alguma sorte sua voz já não trairia sua sonolência.

_ Sim, sou eu, eu tive um contratempo... Minha filha se machucou na escola... Não, foi só um susto, obrigado. Podemos nos ver às onze, então? Sim, até lá.

Seu armário eram duas pranchas apoiadas em suportes metálicos fixos na parede, nenhuma das duas exatamente paralela ao piso. Escolheu uma bermuda já gasta, o que não não foi difícil, e uma camiseta de motivos hindus; uma sandália de couro completava a indumentária que vez por outra se mostrava útil, e dentro da qual não parecia ter mais de trinta e poucos anos.  

Haviam combinado no Minhocão Norte, e tudo que ele sabia era que ela tinha cabelo muito vermelho. A chuva, que andava escassa para a estação, resolveu dar as caras justo quando ele pôs o pé pra fora da pensão, e ele chegou molhado ao carro, acrescentando um guarda-chuva à lista de coisas que esqueceria de comprar. Rodou as estações e acabou desligando o rádio: precisava lembrar-se de procurar as fitas no meio da bagunça que deixara na edícula da casa do Lago Norte. Estacionou em uma vaga de deficientes, o que lhe parecia menos grave do que aparecer encharcado ao encontro, e nunca o incomodou muito, aliás. Correu até uma espécie de praça onde havia lanchonetes, livrarias e copiadoras, que os estudantes - ele tendo sido um duas décadas antes - chamavam de Ceubinho. Lançou um olhar em volta e viu ao menos três garotas com cabelo muito vermelho: uma usava um improvável sobretudo preto e muita maquiagem, o mesmo basicamente valendo para todo o grupo de cinco jovens levemente andróginos; uma tinha um alargador enorme em uma das orelhas e tatuagens cobrindo o colo e um braço inteiro, em um figurino evocando pin-ups dos 50 e cercada de amigos repletos de modificações corporais; outra mais adiante usava um vestidinho cor de terra coberto de uma miríade de brocados e vidros coloridos, chinelos de borracha e os cabelos ígneos em duas tranças - sentava sozinha lendo um livro. Faltavam dez minutos para a hora marcada e ele providenciou um café e enrolou um cigarro, sentando-se para observar as belas jovens que circulavam com os pés à mostra. Um garoto com uma cabeleira enorme veio perguntar se aquilo era um beque, ele tirou o pacote de tabaco e o mostrou com um sorriso forçado. Halunke sacou o celular e ligou, de olho na moça das tranças; quando ela atendeu, ele desligou e a abordou.

_ Âmbar? Oi, desculpa, eu realmente...
_ Não tem problema, eu ia estar por aqui mesmo.
_ Certo... você tinha dito que estuda música?
_ Sim, estou terminando. Fui selecionada para esse programa na Áustria...
_ E precisa traduzir a papelada, claro.
_ Você é alemão? Não tem sotaque.
_ Eu só nasci lá, aprendi os dois idiomas em casa, um do pai e um da mãe.
_ Prático isso, não? Eu levei a vida inteira para falar algum francês.
_ C'est formidable!

Ambos riram e por sorte dele ela não prosseguiu no idioma de Voltaire, pois ele era uma farsa.

_ Então, todos arquivos estão neste CD, algo em torno de dez laudas. Quando você consegue entregar?
_ Estou com outros trabalhos, você tem muita pressa?
_ Um pouco, disso depende toda a burocracia do visto.
_ Entendo. Olha, eu cobraria trezentos normalmente. Por quatrocentos eu posso entregar em uma semana.
_ É muito dinheiro!
_ É o padrão... esses termos burocráticos todos... você pode conseguir mais barato, mas vai enviar um monte de asneira, e sei que você não quer isso, estou errado?
_ É verdade.
_ O pagamento é metade-metade, é praxe também.
_ E... você tem algum tipo de referência?
_ Bom, eu acabei de me mudar para Brasília... O que você estava lendo?
_ Cortázar - mostrando o livro.
_ Então você também fala espanhol.
_ Consigo ler...

Hal fazia esforço para não transparecer que estava salivando. Cada gesto, cada sorriso era repleto de uma graça primaveril; cada encontro dos olhos, os seus verdes, os dela quase negros, era um estremecimento. Jovem, bonita e culta, simpática sobretudo. Ele não deu tempo a ela de completar a frase.

_ Quer tomar um café?
_ Sim, claro.

Ele fingiu interesse pela oportunidade que ela tinha na Áustria, e ela explicava, enquanto eles aguardavam na fila, que se tratava de um estágio na Orquestra Jovem de Viena aberto a músicos de países em desenvolvimento. Foi quando de seu bolso as madeiras executaram seu glissando soando quase como elefantes, dando lugar a uma base de cordas em semicolcheias sobre a qual os metais executavam, irreconhecíveis através do aparelho, um tema heroico, grandiloquente.

_ Mussorgsky!

Ele fez um sinal se desculpando e se afastou para atender.

_ Pois não?
_ Halunke? Cláudia.
_ Bom dia, sra. Albuquerque. Como vai a senhora?
_ Bem, obrigado. Estou ligando para dizer que o dispositivo está instalado na caminhonete.
_ Boa notícia, sra. Albuquerque. Mantenha-me informado de qualquer desenvolvimento. Bom fim de semana.
_ Igualmente.

Quando ele voltou, ela já havia pagado pelos cafés.

_ Se importa se eu fumar?
_ Não, tranquilo, eu também ia fumar... um desses. Você tem cara de quem...

Âmbar tirara uma caixinha metálica de dentro da bolsa, mais enfeitada e colorida do que o vestido, abriu-a mostrando um baseado pronto e sorrindo desafiadora.

_ Você só quer testar meu profissionalismo.
_ Eu vou confiar mais em você, na verdade.

Ele se conteve para não tentar beijá-la ali mesmo.

_ Nesse caso...

Caminharam até um banco de concreto do lado de fora, a chuva havia passado. Conversaram sobre música clássica e popular, jazz especificamente, ele mostrou a tatuagem do Miles no braço esquerdo e ela parecia cada vez mais interessada. Ela o convidou para um recital que aconteceria no último dia de aulas, ironicamente o mesmo dia em que seu prazo se encerrava, ele garantiu que a veria e perguntou que instrumento afinal ela tocava, que vinha a ser percussão. Quando o beque acabou, Âmbar preencheu um cheque e lhe entregou; disse que estava indo almoçar no Restaurante Universitário e ensejou uma despedida. Ele disse que a acompanharia, para matar a saudade.

_ Mas você não disse que acaba de se mudar?
_ Eu estudei aqui, morei em Sampa e acabei voltando.
_ Fez o que?
_ Direito.

Quando chegaram ao caixa, ele pescou a última nota de cem na carteira para mostrar que não tinha trocado, ela se dispôs a pagar. Ele remexeu a carteira em busca de sua carteirinha falsa e, na confusão, derrubou um monte de papéis. Bem no topo estava a foto que Jorjão lhe dera. Âmbar se abaixou para ajudar, parecia surpresa.

_ É a Simone!
_ Você a conhece?
_ Sim, ela frequenta minha casa, é uh... amiga da Raquel.
_ A Raquel mora contigo?
_ Isso.
_ E quão... amigas exatamente são as duas?

Âmbar sorriu e sacudiu a cabeça:

_ Vocês homens... Por que você tem uma foto dela?
_ Eu... ah... sou amigo do pai dela.
_ Oh-oh, o pai dela... bem, acho que estou sendo paranoica.
_ Ela me deu essa foto, disse que guardasse pois um dia seria muito famosa, só isso.
_ É verdade, ela é atriz, e muito vaidosa.

Quando terminaram de comer, a chuva voltara a cair, torrencial. Ela tinha uma sombrinha minúscula na bolsa e acompanhou-o até o carro, aonde chegaram cada um com um dos ombros molhados; trocaram um olhar constrangido e dois beijinhos, ele agradeceu, ele também, imagina, essas coisas.





sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa VI


Saiu de lá em direção ao começo da asa norte, parou o carro dentro da quadra e chegou ao bloco onde ficava, ou ficara, seu escritório, pelos fundos. A porta de ferro estava repleta de teias de aranha por fora, e corria com dificuldade. Dentro, o pó cobria tudo: a escrivaninha com topo de fórmica outrora branca, o ventilador metálico e as prateleiras com muitos papéis em desordem. Ele atacou o interruptor, nada. Alcançou uma das contas na gaveta e ligou, ouviu cinco minutos de gravação mas conseguiu solicitar o religamento, que foi prometido dentro de 24 horas. Fechou tudo, subiu e caminhou até o supermercado na L2, comprou vassoura, balde, pano, e um limpador multiuso; foi um trabalho ingrato voltar com isso tudo nas mãos. Lembrou-se ainda de ligar novamente para o Aranha, que desta vez atendeu.
_ Boa tarde?
_ Aranha, Hal.
_ Seu patife! Qual é a boa dessa vez?
_ Estou na trilhe de um coelho gordo, rapaz, talvez você possa...
_ Está foda, aqui, Hal, muito trabalho.
_ Então anota ai os nomes, procura quando der.
_ Não quer mandar por e-mail?
_ Isso vai ser mais... não, tudo bem, eu faço isso. Mesmo endereço?
_ Mesmo endereço.
_ Firmeza, meu camarada, até outra então.
Gastou duas horas para deixar o lugar apenas sujo, o que era um progresso enorme. Passou a fazer uma triagem nos papéis e jogava quase tudo fora, às baldadas, em uma caçamba em frente ao bloco. De repente algum documento chamou atenção. Era uma investigação de um empresário encomendada pelo sócio. Foi um trabalho interessante. O respeitável magnata da coleta de lixo tinha mais esqueletos no armário do que o Campo da Paz desenterrava todo mês para acomodar a questão fundiária do além-vida. Começava com licitações arranjadas e ia até vínculos com traficantes e execução de adversários, e em algum momento o senador Macieira apareceu, na qualidade de governador do Tocantins. Hal não tinha a boa memória que deveria, em seu ramo. Interrompeu a limpeza, pôs o envelope pardo sob o braço, fechou a loja e sentou-se no bar mais próximo, a ler a papelada. As fraudes nos contratos governamentais eram apenas mais do mesmo, mas havia indícios de que Macieira e outros políticos usavam seus salvo-condutos para levar pó da fronteira boliviana até Brasília, Rio e São Paulo. O cliente não precisava seguir aquela trilha, pagou – bem – a Großlügner e denunciou o sócio à polícia. Por algum motivo não teve sucesso, e Hal soube dele pela última vez como caixa de supermercado no interior, meio paranoico. Isso havia sido mais de dez anos atrás.
_ Eu que não quero me meter com essa gente, vou conseguir essas fotos e pular fora – disse a si mesmo em voz alta, atraindo olhares.
Resolveu que já era hora de descansar, mas foi surpreendido por uma mensagem. Era de Cláudia, e confirmava que seu marido viajaria de sexta a segunda. Ele deu uma golada substanciosa do uísque – estava com ânimo para bebida quente – e uma baforada do fumo vagabundo, pensando nas variáveis.
_ Aeroclube: aí é que eu preciso de um amigo. Esses putos não ajudam nada – desta vez apenas pensou.
Pagou, pôs o chapéu, e se levantava quando tocou o telefone, um número novo.
_ Boa tarde.
Na verdade já era mais de sete, mas era horário de verão. Seria outro caso?
_ Boa tarde, pois não?
_ Você que faz tradução?
Pronto, ia perder as madrugadas, mas ia ter o que comer: o adiantamento já tinha ido quase todo embora. Passou mais uma vez no supermercado e comprou rum, que, juntamente com um fino que sobrara, fizeram sua noite. 

Na Trilha Certa V


Dormiu com a TV 14” ligada, cedo ainda, e acordou deitado de mau jeito e com torcicolo. Tinha impressão de ter sonhado com a mãe, mas não conseguia recompor a cena. Eram oito horas. Realizou sua higiene pessoal precária, prometeu a si mesmo que compraria uma escova. Ali perto, em um ponto de ônibus, havia uma lanchonete muito pouco recomendável, mas ele achou naquele dia que precisava comer alguma coisa antes dos tradicionais café amargo e cigarro; estava resolvido a ser mais saudável. Obviamente não devia começar com uma coxinha impregnada de óleo e feita sabe-se lá quando, mas cada avanço é uma vitória, ou não? Pediu para preparar um copo de café solúvel, pois o da garrafa era um purgante de doce, enrolou seu cigarro e pôs-se a pensar. Tinha tempo até a hora do almoço, ia fazer uma pesquisa sobre o senador. Caminhou até a lan house, abriu a mensagem de sua cliente que fornecia um conjunto de informações nem sempre úteis, mas uma linha de investigação lhe pareceu clara: esses figurões geralmente mantêm seus próprios rendez-vous, com alguma sorte podia ser um imóvel em seu nome ou mesmo no de algum assessor. Aranha: esse era seu contato no cartório, ligou mas não teve resposta. Pesquisou o nome do político nas redes sociais; ele tinha contas de divulgação institucional apenas. Como o número de seguidores era pequeno, ele vasculhou a lista em busca de mulheres bonitas; havia poucas e ele anotou os nomes. Como era previsível, o velho gostava de jogo. Hal conhecia os melhores antros de jogatina da cidade, sabia como eles se comunicavam através de fóruns on-line e mesmo os códigos que usavam para marcar as noitadas cercadas de segredo. Descobriu uma naquele fim de semana, tomou notas. Ainda acessou mais algumas bobagens, olhando em volta e pronto para fechar a janela se alguém se aproximasse, e enfim seu tempo expirou. Ele pediu para usar o banheiro e voltou para a pensão, para vestir o mesmo terno e o pôr mesmo chapéu, mas escolheu uma camisa azul limpa para causar boa impressão.

Chegou meia hora antes ao local marcado, pediu uma cerveja e sacou o Chandler que quase se desfazia na enésima leitura. Uma coroa na mesa em frente a ele lançava olhadelas, mesmo aparentemente acompanhada. Hal costumava ser notado, era loiro e tinha cara de menino, o cabelo liso jogado de um lado para o outro da cabeça insistia em cair sobre os olhos, e ele achava um charme ficar consertando, o nariz era fino e os lábios, quase femininos; os olhos verdes, no entanto, eram o principal. E por falar em olhos verdes, lá vinham os de Cláudia, em um vestido preto quase excessivo para a circunstância, e sapatos abertos que faziam barulho à medida que ela andava; Hal reparou nos pés: nada mau para uma cinquentona.
_ Bom dia, senhor Halunke.
_ Como vai a senhora?
_ Muito bem, já conseguiu alguma coisa?
_ A senhora me acompanha?
_ Se eles tiverem gim-tônica.
Ele chamou o garçom e pediu.
_ A tecnologia evoluiu muito, sabe sra. Albuquerque. Antigamente nós tínhamos que seguir nosso alvo dias e dias, o que seria até perigoso neste caso, a segurança dele notaria. Mas isto aqui – disse, tirando da cadeira ao lado e pondo sobre a mesa o estojo – é a última palavra em localização georreferenciada.
Abriu a maleta, onde um molde em espuma continha dois dispositivos: um grande com uma tela de cristal líquido e um menor, do tamanho de uma borracha e com uma pequena antena ao lado. Ele pegou este último, embrulhou em um guardanapo de papel e entregou a ela.
_ Você pega fita adesiva e gruda isto no carro particular dele. Ali na saia do pneu dianteiro é o ideal.
_ Ele tem três.
_ É verdade. Escolhe um, o que ele mais usa, o que você acha que ele usa para suas escapadas.
_ Você não tem como rastrear todos?
_ Ironicamente, sra. Albuquerque...
_ Cláudia, por favor.
_ Sim, Cláudia, ironicamente eu tenho outro desses, mas precisei emprestar para um colega que passa um momento difícil. Mas não se preocupe, aposto que vamos pegá-lo fácil. Outra coisa eu queria perguntar, já vasculhou o telefone dele?
_ Já, mas são muitos números, ele é político, não achei nada suspeito. Por falar nisso, agora eu tenho este número aqui, você pode me ligar.
E sacou de uma bolsa, também preta, um quarto de folha A4 em que se liam seu nome em uma caligrafia caprichada e um número, que obviamente era de outra operadora, o que irritou um pouco Hal.
Pediram o peixe que era a tradição do lugar, e Hal aproveitou para sondar melhor aquela história. Uma TV estava ligada e transmitia o noticiário, a dado momento o escândalo da Comissão de Orçamento foi citado: já haviam colhido as assinaturas para uma CPI. Ela fingiu não prestar atenção.
_ Como vocês dois se conheceram, posso perguntar?
_ Claro, por que não? Foi em uma festa de Réveillon, no Iate. Eu estava divorciada havia pouco, ele tinha acabado de assumir o primeiro mandato, a esposa era prefeita de Palmas, e tinha mais dois anos de mandato.
_ E você virou a amante dele?
_ Não exatamente, ele quis ficar comigo desde o início, mas tinha que evitar qualquer escândalo, ele é muito influente lá e não podia comprometer o projeto político. Mas aí chegaram as eleições municipais, houve um racha no partido, ela ficou sem a candidatura à reeleição, ele aproveitou e abandonou a ela – um cadáver político – e ao partido, o que lhe fez bem, pois acabou ocupando postos cada vez mais importantes, até...
_ A presidência da Comissão de Orçamento.
A morena que tinha se interessado por Hal levantou os olhos do prato, curiosa.
_ E seu medo – prosseguiu – é que ele faça com você o que fez com ela.
_ Não, meu caro. Essa moça é só diversão.
_ Mas tudo que você tem é uma suspeita vaga.
Ela suspirou.
_ Não é a primeira vez que ele é visto em Caldas Novas.
_ Ele foi visto com alguém?
_ Não exatamente.
_ Quem é sua fonte?
_ Uma amiga do clube.
_ Quando foi isso?
_ Deve fazer um mês.
O prato chegou e o diálogo prosseguiu com pausas para mastigação; da parte dela, claro.
_ Ele viaja neste fim de semana?
_ Ele viaja quase todos, é bem provável.
_ Ele sabe da sua suspeita?
_ A suspeita é constante.
_ Você diz que ele já foi visto antes em Caldas. Só agora você quer flagrá-lo?
_ Você pergunta demais.
_ É minha profissão.
_ Ao que me consta, não sou eu a investigada.
_ Obviamente, não é. São informações relevantes apenas. Mas diz uma coisa: ele não tem um telefone em Palmas? Não seria fácil saber se ele foi pra outro lugar?
_ Ele só usa o celular.
_ Bem, eu quero que você descubra se ele viaja ou não. E não deixe de instalar o dispositivo no carro em que ele vai viajar.
_ Ele viaja no avião dele, seu tolo.
_ É verdade. Enfim, fica assim.

Vieram os dois cafés e a conta, ela pagou. Hal a acompanhou até o carro e observou modelo e placa. Despediram-se com beijos no rosto, e ela exibiu mais um daqueles sorrisos sedutores ao dizer contava com ele. 

Na Trilha Certa IV


O carro estava parado havia um tempo e foi difícil pô-lo andando, mas afinal Halunke beijou a mão da ex-mulher e deu um abraço em Sílvia. A primeira parada foi um postinho, onde abasteceu,  comprou uma lata de cerveja e buscou na memória do telefone, que agora podia também iniciar chamadas, o contato do Jorjão. O amigo dispensou o “alô”.
_ Meu grande!
_ Tudo nos conformes?
_ Na santa.
_ Tá na área?
_ Até as seis.
_ Nada, eu chego rápido. Você não vai acreditar, estou oficialmente motorizado.
_ Foi bom o adiantamento.
_ Nada disso, estou a bordo do velho batmóvel.
_ Não brinca.
_ Já chego aí, a gente conversa.
_ Claro, até mais.
 O escritório do parceiro era no Venâncio 2000 e ele enfiava o pé no eixão norte, sabendo que não teria que pagar as multas. Deixou o carro no parque para evitar a tarifa do estacionamento, caminhou sob um sol ainda intenso e apertou o botão do estacionamento enquanto enxugava o suor da testa com as costas da outra mão. Uma placa negra com letras douradas contrastava com a porta de imitação de jacarandá: “Jorge Mascarenhas, Detetive Particular”. Não tocou a campainha, simplesmente entrou. O escritório era pequeno, mas o mobiliário era de bom gosto, sóbrio; havia uma divisória e uma mesa para a secretária, remanescente do estabelecimento anterior, pois Jorjão nunca teve uma. Era ele que transpunha a porta de vidro da divisória.
_ Salve, salve!
_ Mil vezes salve, Jorge. Meu caso já está indo bem!
_ Mesmo? O que você conseguiu?
_ Meu carro, ora!
_ Como a Nádia caiu nessa?
_ Nada, ora. Eu disse que eu preciso e ela não.
_ Ela ainda curte você, Hal.
_ Todo mundo sabe. Ela só me deixou para aproveitar a situação e ficar com tudo.
_ Bem, está aqui o aparelho. Eu não devia fazer isso, mas você é como um irmão. Mesmo assim, se voltar avariado ou não voltar, você paga. Sabe o que diz o ditado.
_ Sim, “cavalo dado não se olha os dentes”.
_ Quê?
_ Caralho, Jorjão, isso aqui é obsoleto!
_ Vai se foder, porra!
_ Meu, preciso usar o computador.
_ Senta aí.
Halunke acessou o e-mail e, no meio de muita porcaria, lá estava a resposta de Cláudia. Sugeria um lugar na Vila Planalto, na hora do almoço. Isso é bom, ele pensou, e ainda dizem que não há almoço grátis. Respondeu confirmando. Jorge fechou o escritório, e acompanhou Halunke até o parque; guardaram o estojo no carro e se sentaram num quiosque para tomar uma gelada. Era dia ainda, um fim de tarde abafado, opressivo, mas bonito.
_ Meu, se você precisa achar essa moça, está fazendo o que no escritório, esperando ela tocar a campainha?
_ Eu tento achá-la na internet, mas ela deve ter mudado de nome, não usa sua própria foto. À noite eu acho mais provável topar com ela. Inclusive eu vou seguir sua dica hoje.
_ Vai ao teatro?
_ Quer ir?
_ O que é?
_ Não faço ideia. Vamos, minha esposa está viajando, a gente passa lá em casa, trata um.
_ Assim você me ganha.
Jorjão morava na asa sul, perto de uma distribuidora de bebidas, o que vinha a ser providencial. De modo que passaram umas duas horas bebendo, fumaram um e estava ambos retardados ao chegar ao Renato Russo. Faltavam ainda quinze minutos para o início da peça, que prometia ser “um drama sobre a inadequação na era da cultura de massa”. Fria. Aproveitaram para tentar abordar as outras pessoas com uma conversa mole e perguntar sobre a moça, mas mal conseguiam articular as palavras e houve um que até chamou a segurança. A fugitiva não havia dado as caras.
_ É como achar agulha no palheiro.
_ Há quanto tempo você está nesse caso?
_ Uns cinco dias. Mas ela fugiu faz dois meses.
Estavam chamando para entrar.
_ Alguém está bancando ela.
_ Sim, bem possível.
Foi a última coisa que conseguiram dizer antes de começar o espetáculo. Com cinco minutos, os dois se olharam. Com dez, Hal cutucou Jorjão, mas ficaram. Aos quinze, ele não se conteve e se levantou, não deixando outra alternativa ao amigo.
_ Não é falta de educação sair no meio do espetáculo?
_ Falta de educação é apresentar uma peça tão pretensiosa e abusivamente metalinguística como essa.
Halunke fez e acendeu um cigarro. Dirigiram-se ao carro
_ Mas enfim, você dizia, alguém banca ela, algum cara rico, certamente. Aonde você quer chegar?
_ Quero dizer que você está procurando nos lugares errados.
O outro só o fitou entre intrigado e embaraçado. Estavam chegando ao bloco de Jorge. Subiram para finalizar a noite e Hal cochilou no sofá. Foi acordado, murmurou uma despedida e desceu para pegar o carro e voltar para casa, que por sorte não era longe, em modo automático.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Na Trilha certa III


Morar em pensão era foda, e ele fumou em um beco, sem se preocupar muito, e subiu. A dona ainda encheu o saco sobre qualquer coisa à qual ele nem prestou atenção e ele capotou na cama. Dormiu um bom sono, ainda que não se possa dizer o dos justos, e acordou com metade da manhã percorrida. Lavou o rosto e limpou os dentes com pasta e dedo índice. Passou um café ansioso para poder fumar, o que tinha que ser fora. Estando lá, pensou em ligar para a madama, mas se lembrou da interdição. Subiu, vestiu algo entre formal e casual e dirigiu-se até a lan house, lá perto também podia comer um misto. Escreveu a Cláudia: “prezada sra. Albuquerque, é necessário que nos encontremos para tratar da quermesse da paróquia”. Era um misto de paranoia e excentricidade um pouco forçada. De qualquer forma, ele ganhava tempo para cuidar de outra campanha, uma árdua e ingrata missão que se resumia a conseguir o carro que ficara com a esposa. Escapar vivo já era um sucesso, então se resolveu a ir; hesitou entre ônibus e táxi, mas como a corrida ia ser cara – até o Lago Norte – foi de coletivo: não havia pressa.

Aquela piranha ia estar em casa, não trabalhava, era sustentada pelo usurpador, ele ruminava no ponto. O ônibus demorou e ele ensaiava as linhas para, santo como era, produzir um milagre; chegou então um baú da linha que lhe servia e ele foi até a rodoviária sentado ao lado de um jovem em roupas espalhafatosas e cabelo arrepiado. Teve uma ideia: conseguiu as contas com as CEB e pagou todas na boca do caixa, com a grana viva que recebera. Ia reabrir o escritório, e talvez resgatar sua dignidade um pouco. Dinheiro é que ele ia ter que fazer de algum jeito. Pegou outro ônibus e chegou ao Lago Norte por volta de três horas, e a barriga avisou que ele estava sobrevivendo apenas com um misto.  Tocou a campainha da ampla casa, avarandada e pintada de azul escuro. Na garagem se podia ver o sedã preto que era dele enquanto durou o casamento; o utilitário-esporte da ex-sogra, que Nádia, a ex, usava, e qualquer carro que o usurpador usasse, não estavam. Atenderam a campainha, era a empregada, que, muito constrangida, fez todas as cortesias ao ex-patrão. Disse que dona Nádia não estava e não sabia quando ela voltava. Ele apertou a bochecha da mulher com os dedos.
_ Dona Sílvia, quantos anos nós não convivemos aqui nesta casa, hein?
_ É mesmo, seu Jonas.
_ Halunke, dona Sílvia.
_ É mesmo, perdão.
_ Seu filho está bem?
_ Sim, ele foi promovido a tenente.
_ Que ótimo! Escuta, será que eu posso almoçar?
_ Como?
_ É que agora não tem mais restaurante aberto, sabe...
_ Eu tenho que ligar pra dona Nádia, seu Haduke.
_ Não ligue, não é necessário, veja, eu sou de casa!
_ Vai, entra, não vai me meter em confusão!
Havia umas sobras bem generosas, ele esquentou um prato no micro-ondas e estava começando a comer quando ouviu o carro entrando. Ele foi encontrá-la na porta da sala, mas talvez tenha chegado perto demais, pois ela girou o braço e o acertou com a bolsa, talvez por mero instinto, mas, dado o estado da relação, talvez não. Era uma morena de cabelos curtos em torno dos 35, uma beleza exótica e um colo assaz interessante.
_ Ei, alto lá! Missão de paz!
_ Como você quer que eu me sinta vendo você dentro da minha casa? Você invadiu minha residência?
_ Não, a Sílvia me deixou entrar. Eu estava com fome. Ainda estou, na verdade.
_ E você vem até minha casa para economizar com uma refeição?
_ Não, claro que não, eu já explico, mas relaxa, vai. Guarda suas compras, eu posso comer da sua comida, você permite?
_ Não seja ridículo, Hal, vai lá e come. Mas eu quero que me ligue antes sempre que quiser falar comigo, tá bom? E como você sabe que eu fiz compras?
_ Muito simples, o porta-mala está aberto. Eu sou um detetive, baby.
_ De quinta. Não pode me ajudar pelo menos?
_ É claro.
À medida que executavam o trabalho, o clima se desanuviava, e conversaram amenamente sobre o desempenho de Âmbar na escola e a saúde da sogra, ou ex-sogra. Ela estava internada com problemas renais. Hal esquentou novamente o prato e eles conversaram enquanto ele comia, ela de pé, encostada a um balcão e bebericando um chá.
_ Você pode falar por que veio?
_ É uma questão delicada, Nádia. Veja só...
_ Eu não gosto desse “veja só”.
_ Pois bem...
_ Nem do “pois bem”.
_ Enfim, “nem do enfim”, você vai dizer, que previsível. Mas eu vim discutir um assunto.
_ Qual?
_ Um assunto importante.
_ Sou toda ouvidos.
_ Sua mãe não dirige há vinte anos...
_ Ah, isso não!
_ Pensa, Nádia, este carro está parado, eu consegui um caso que só posso atacar com um carro, você sabe, é minha profissão!
_ Foi a decisão do juiz, você sabe que aqueles cinco pés eram tão seus quanto meus, eu fui sacaneado. Esta casa era minha antes de nos conhecermos.
_ Você veio aqui para discutir isso?
_ Não, eu não vim para discutir, eu vim para implorar. Nádia, desse carro depende minha carreira, minha subsistência. Eu garanto que devolvo logo, inteiro, e recompenso você como puder, quando puder.
_ E o que vou dizer para o Henrique?
_ Eu quero que esse bosta se foda.
_ Não fala assim, Hal.
_ O carro é seu, a decisão é sua.
_ Ai, caralho... Eu não quero ver você na merda, seu patife. Mas isto vai me custar caro. Eu sou louca.
_ Você é sábia, Nádia.
_ Vá à merda.  

Na Trilha Certa II


_ Jorjão!
_ Salve, Príncipe Hal!
Trocaram um cumprimento estrepitoso e Jorge se sentou na cadeira oposta. Pediram mais uma cerveja e Jorge, um quibe; o outro confessou que detestava o quibe do Beirute. Por um tempo o assunto foi a separação recente de Halunke, depois passaram por futebol até que Jorge comentou o mais recente escândalo político, ao que Halunke ergueu o sobrolho.
_ Nem me fala, cara.
_ Desembucha.
_ Hoje eu consegui um caso. A mulher desse Macieira aí.
_ Não brinca. O de sempre?
 _ O de sempre, Jorjão, mas tem coisa aí.
_ Tá na cara, Hal, logo em cima do escândalo?
_ Todos esses caras têm uma, se não mais amantes, e as mulheres via de regra sabem. Por que elas iriam pular fora? O bolo só cresce. Geralmente elas também aprontam e fica assim, em nome da conveniência.
_ Isso deve ser algum jornalista ou adversário político, cara, que quer pôr as mãos em material comprometedor e propôs o golpe à madama.
Fez um cigarro e o acendeu, o cheiro de fumo barato despertou olhares. Em volta, a nata da fauna urbana da capital, gays e lésbicas, hipsters e metaleiros, funcionários e poetas.
_ É possível. De qualquer maneira... A primeira coisa que eu tenho que fazer é enquadrar o figurão. E eu não tenho porra nenhuma.
_ Nada?
_ Segundo ela, é só uma suspeita.
_ Malcheiroso, Hal.
_ Que seja, e você?
_ Alemão, eu te liguei por isso. Talvez você possa ajudar... sabe como é a camaradagem no nosso ramo.
_ Claro, Jorge, camaradagem e ética, não se esqueça. Diga logo.
_ Esse é de uma garota de fugiu de casa. Família riquíssima, de Anápolis. Viraram a cidade de ponta cabeça, estavam desesperados; um dia ela ligou e deixou uma mensagem, e o DDD era 61. Aí me descobriram na lista. Já ouviu falar de Lauro Saavedra?
_ Nunca.
_ Empresário da indústria farmacêutica, pica-grossa. É o pai. E essa aqui – abriu a carteira e tirou uma fotografia – é a pilantra, Patrícia Saavedra, dezessete anos.
Hal soou um silvo em tom decrescente. A imagem mostrava uma loira sorrindo, sardas quase imperceptíveis, olhos castanhos translúcidos, em um vestido florido esverdeado esvoaçante e pose insinuante, mas natural. Os acessórios e a sandália de couro davam um ar meio riponga.
_ Que ninfeta, não?
_ Ela não tem metade da sua idade.
_ Foi só uma observação. O que mais você tem?
_ Sei que ela gosta de ir ao teatro, por exemplo.
_ E você vai fazer plantão na porta de todos os teatros até vê-la.
_ Essa é uma das estratégias, mas como eu sei que você também gosta...
_ Eu não tenho ido, estou meio quebrado...
_ Desde o divórcio.
_ Isso de novo, não. Enfim, até que entrou algum agora.
_ Bom pra você. Mas o que eu ia dizer é que você fique atento quando for, esta é uma cópia, pode ficar.
 _ Claro, mano velho, pode contar comigo, espero que eu possa ajudar. Sugiro concentrar no Renato Russo, pelo estilo. E tem outra, posso usar seu rastreador?
_ Porra, cara, cadê seu equipamento?
_ Você sabe. Jorjão, seu serviço é outro, não tem uso para um rastreador.
_ Amanhã você passa no meu escritório. Liga antes. Alguém já conseguiu negar uma coisa a você, seu patife?
Resolveram pedir um prato e comeram trocando banalidades. Despediram-se e Hal tomou o rumo de casa um pouco embriagado, não sem antes abordar um dos guardadores de carro e conseguir vinte mangos de fumo – andava careta por falta de grana – e voltar ao bar para pegar uma seda de guardanapo. 

Nos Canos I

Teve sorte e foi o primeiro a retirar a bagagem da esteira no aeroporto de Amsterdã. De calça jeans e camisa preta sobre uma camiseta branca, ele pôs os óculos escuros quando saiu para fumar. Não era a primeira vez que Flávio ia à Meca dos pirados, mas desta vez era diferente: João Marcelo estava morando na Holanda. Os dois haviam estudado juntos na USP e mantinham contato dez anos já depois da formatura. Flávio arrastou a maleta para dentro e comprou a passagem do trem, que não demorou a passar; sentou-se e começou a ler, mas, exausto, cochilava, e acordou apenas na estação. João, que morava no interior, tinha um compromisso em Amsterdã e resolveu passar uns dias lá e encontrar o amigo, embora não visse mais muita graça naquela agitação. Trocaram mensagens e se encontraram em frente a uma banca. "Fala mermão, e essa barba?","Pois é, tudo tranquilo?". "Tudo, e por aqui, muita loucura?", "Sei lá, ultimamente estou mais tranquilo, você deve querer ir correndo pra um coffee-shop, não?". "Estou cansado, quero um banho; como é esse esquema onde você tá ficando?", "É um amigo, ele é de boa, disse que você pode pousar lá". "É holandês ele?", "Não, é sérvio; mas não se preocupe, ele fala inglês bem". Flávio sabia bem de que tipo de amigo se tratava, mas evitava o assunto. "Dá pra ir à pé?", "Claro, é aqui mesmo no Distrito da Luz Vermelha, olha ali a Igreja Velha; é um endereço que os holandeses evitam, o aluguel não é tão alto".

Chegaram, o sérvio não estava. "Ele faz mestrado e trabalha, o louco, só volta tarde", "Entendo. Cara, estou exausto, mas até que eu fumaria um antes do banho". Era o que João já tinha em mente, e buscou no quarto uma lata redonda de onde extraiu um pacotinho daqueles com fecho onde se via uma pequena quantidade de camarões gordos, uma mescla de verde profundo e marrom claro coberta de cristais esbranquiçados, além da seda e de um dichavador metálico. Flávio ficou um tempo admirando as flores, cheirando-as, enquanto o outro preparava o petardo, com tabaco pois a maconha era muito forte, e os dois conversavam sobre os antigos colegas: quem encaretou, quem se perdeu no pó, quem casou ou teve filho. "Acende aí, sente o gosto com ele apagado antes", ele o fez, elogiou o sabor, tomou uma longa bola e ao expeli-la, sentenciou: "Já estou louco". Ambos riram, Flávio quis saber: "Qual é esse?", "AK-47, é dos mais fortes". Fumaram só até a metade, um foi para o chuveiro e o outro para o computador. Flávio sentia a água morna escorrer como se fosse uma sensação inédita, havia muito não se sentia tão chapado e com uma onda tão limpa e suave. "Isso sim é maconha, disse saindo do banheiro, no Brasil eles misturam merla, cara, você fuma e não fica tranquilo", "Sério mesmo? Já escutei isso mas não pude acreditar". "É verdade, cara, já acusou no meu exame", "Por que você fez exame?". "Foi no trabalho, cara, aquela história que eu contei", "Ah, sim, mas ficou tudo bem?". Flávio fez um gesto de enfado como quem diz "não quero falar sobre isso".

João Marcelo preparou um jantar vegetariano, ambos comeram e em seguida fizeram a ponta de digestivo. Todo o tempo, as caixinhas do computador emitiam as dissonâncias e o radicalismo do jazz de vanguarda que João conseguira que o amigo apreciasse também. "Eu queria fazer alguma coisa diferente, sabe?", "O que, drugs?". "É, eu nunca fiz sálvia, nem amanita, nem... lembra quando você contou que pesquisou um processo para purificar herô?", "Cara, eu prometi não fazer mais isso, mas se você quiser... o Miro faz de vez em quando. Sálvia e amanita é fácil, vende nas head-shops". Flávio se levantou e foi até a janela, estava claro ainda, o relógio do micro dizia pouco mais de oito horas, ele aproveitou e arrumou o seu. "Quer fazer uma sálvia hoje à noite?"; João pensou, e fez um esgar que queria dizer menos "você é louco" do que "lá vou eu de novo". Suspirou e passou a mão pelo cabelo pelo amigo sentado ao seu lado no sofá velho: "Quer ir lá então?". Caminharam pelas ruas já repletas de tipos calculadamente estranhos, um passou correndo, gritando besteiras em português; "Brasileiro é foda", concordaram os dois. Entraram em uma lojinha à beira do canal, uma porta de vitrais psicodélicos sob uma placa colorida dizendo "Use Sua Imaginação". João observou: "O mais irônico é que se todos seguissem o conselho da placa talvez ele ficasse sem clientes". "Você está ficando moralista, porra?", "Sei lá, já não estou bem certo de que drogas estimulem a imaginação, a criatividade". Enquanto falavam, aguardando a vez de serem atendidos, Flávio percorria as prateleiras fascinado: cogumelos embalados a vácuo, ervas das quais nunca ouvira falar, uma infinidade de acessórios para fumo... rodopiou sobre o calcanhar com um sorriso embasbacado. O vendedor, livre, os atendeu em bom espanhol, João fez a negociação. "Vamos levar amanita também?", Flávio sussurrou, sem motivo aparente. "Amanita é meio sombrio cara, vai com calma". O outro ficou meio decepcionado, escolheu uma seda e jogou no balcão. "Você gosta de plástico?", "Não é plástico, é celulose, e eu gosto, queima devagar". "Eu não me adaptei", e ao funcionário, "um pacote de cat-nip também". "O que é isso?", "Erva de gato, eu costumava misturar no beque quando não estava fumando cigarro, deu saudade.

Chegaram de volta com a escuridão quase completa, e Miroslav estava em casa. A conversa passou para o inglês daí em diante. Após a apresentação protocolar, Miroslav virou a cadeira do computador, onde estava, enquanto os dois se estabeleceram no sofá. Os dois estranhos passaram um tempo falando sobre o que faziam, um contou de quando foi ao Brasil e o outro garantiu que queria muito conhecer Zagreb; o sérvio o corrigiu: Belgrado, e todos riram. Flávio comentou que gostava muito do Kusturica, o outro sorriu satisfeito, disse que gostava de música brasileira e começou a citar nomes. "Vamos fazer um no plástico, então?", "Achei que você não gostasse". "Não é que eu não fume, o Miro também gosta". Flávio fez questão de comandar o processo, usando para a piteira o livrinho de papel-cartão que ganharam de brinde. "Miro, nós compramos sálvia", "Mesmo? Cara, eu ainda tenho um relatório para preparar... não sei.". "Dá ressaca no outro dia?", "Pode dar dor de cabeça, mas é só". "Me disseram que a onda é curta e intensa", "Sim, são alguns minutos longe do planeta, depois passa". "Mesmo assim, eu não teria concentração para trabalhar depois... foda-se então, vamos lá". Flávio se levantou, bateu palma com palma com o novo e com o velho amigos. "Tem mais alguma coisa, Miro, diz pra ele, Flávio", "Sim eu... pensei...". "Fala, cara!", "Em tomar nos canos". O sérvio não entendeu a tradução literal e fez uma careta. "Herô, heroína endovenosa", e passou a elencar algumas gírias em inglês que conhecia. Miroslav olhou para um e para o outro, coçou a cabeça. "Eu posso te ajudar, mas eu tenho medo de... de desenvolver um hábito disso. Você tem certeza de que quer entrar nessa?", "É tranquilo, não se acha para vender no Brasil, é muito raro". "Certo, eu vou tentar meus contatos". "Bem, cabeção, quer chapar de sálvia, vamos lá, mais tarde a gente desce para umas cervejas". Flávio esfregou as mãos entusiasmado e o amigo foi buscar o cachimbo.    

Na Trilha Certa I


Fazia parte do mis-en-scène: ao se apresentar, Halunke tinha sempre que acrescentar: é alemão. A bandeira tricolor encabeçava o cartão: Halunke Großlügner, embora ele tivesse nascido em Brasília mesmo, de pais mais paulistanos do que germânicos. Uma linha abaixo, em caixa alta, lia-se “INVESTIGADOR PARTICULAR”. Na capital, o negócio para detetives não girava em torno de segredos industriais ou mesmo negócios de Estado (geralmente chamavam gente de fora quando era coisa séria), mas geralmente em torno de infidelidades conjugais, e essa era a especialidade de Hal, como os mais íntimos o chamavam. Ele amargava um período numa pensão da W3 sul enquanto as coisas não melhoravam, e estava descendo a pé para a 400 onde havia um restaurante fuleiro onde costumava almoçar quando o telefone tocou.

_ Senhor Grosinger?
_ Gosslügner (ele alongava o ü), é alemão.
_ O senhor me foi indicado por uma amiga... Investigador, é isso?
_ Escuta, estou atravessando uma passagem subterrânea, pode me ligar daqui a pouco?
_ É rápido, quero marcar um encontro, precisamos conversar.
_ Sim, hoje ainda?
_ Se possível.
_ Às quatro? Onde?
_ Na praça de alimentação do Conjunto Nacional

Nesse momento, a ligação caiu, e ela insistiu até que, tendo ele saído do túnel, restabeleceu o contato. Ela descreveu a roupa que usaria e até a bolsa; ele só mencionou o chapéu, um clichê do qual não abria mão. Halunke entrou no restaurante de bermuda, camiseta e chinelos e pediu um prato feito e uma cerveja. Antes que a comida chegasse, o trecho de Noite no Monte Calvo que elegera para toque de seu telefone soou, distorcido e mais alto que a televisão, que transmitia o noticiário esportivo. Ele, impaciente, disse algum palavrão, imaginando que se tratava da mesma pessoa, mas não era. Era um colega, outro detetive, o Jorjão (é português). Os dois se engajaram em qualquer conversa fiada, até que veio o PF e Hal tentou desligar logo; Jorjão propôs um chopp mais tarde, e combinaram de se encontrar no Beirute.

Depois de comer, ele voltou para casa suando copiosamente sob o sol de dezembro, tomou um banho e pouco depois um ônibus até a rodoviária, e chamou atenção com sua magreza, seu terno e chapéu pretos. Tinha tempo até o compromisso, e passou no Na Hora para levantar as contas atrasadas do escritório, uma loja de subsolo que estava basicamente fechada recentemente; era uma fortuna que ele não tinha nem como pensar em pagar. Subiu para o conjunto e, apesar de ter almoçado há pouco, comeu um quibe para passar o tempo. Ainda sobrou algum para visitar a tabacaria e fumar um cigarro (ele os enrolava), e estava na praça à 16:05; percorreu-a de um lado ao outro até ver uma coroa muito bonita em um vestido verde, que mantinha uma bolsa roxa sobre a mesa: só pode ser ela.

_ Olá, minha senhora.
_ Sr. Grosunder, sente-se.
_ Großlügner, é...
_ Alemão, eu já sei. Precisamos ser rápidos, não quero ser vista aqui.
_ Então por que sugeriu?
_ Aqui ainda é menos provável que alguém do meu círculo me veja, e não quero que pensem que estou pulando a cerca, você sabe o poder da fofoca.
_ E ser vista aqui é... embaraçoso?
_ Esquece isso, Gros...
_ Halunke, por favor.
_ Certo. Enfim, você já fez isso antes, o caso é simples: meu marido está tendo um caso e você precisa provar.
_ Ele é rico? A senhora estava apenas esperando esta chance, imagino?
_ Não vim aqui para ser julgada, Halunke. Ele é rico e influente, e você deve tê-lo visto no jornal ontem – e sacou um recorte da bolsa de grife, transmitindo-o ao interlocutor.   
_ Sim, estou a par – mentiu – Comissão de Orçamento, uma vez eu trabalhei... mas deixa pra lá. É um peixe grande, senhora Macieira.
_ Albuquerque, eu mantive meu nome de solteira. Cláudia.
_ Encantado. Não é um serviço simples, esses figurões são bem assistidos e não costumam se deixar rastrear. Ele usa o veículo oficial para esses encontros?
_ Não tenho como saber, tudo o que tenho são indícios.
_ Como qual?
_ Ele sempre viaja para o Tocantins nos fins de semana, visitar sua base e tal, ser bajulado, tudo isso. Fora as negociatas, claro, ele vende sua influência para o governador, prefeitos, fazendeiros... mas não estava falando disso.
_ A senhora tem provas dessas mutretas?
_ Isso não me importa, é parte do trabalho dele. O que eu ia dizer é que na última dessas viagens ele foi visto em Caldas Novas. Não consigo imaginar outro motivo para ele mentir. E o chamei para pegá-lo no pulo.
_ E o escândalo, é uma coincidência?
_ Sim. Na verdade, nem sei se é um momento apropriado, coitado.
_ Entendo. Não se preocupe, dona. Dê a ele todo apoio nessas horas difíceis, e dê a mim o máximo de informações: rotina, telefone, endereço dos amigos mais próximos...
_ Ele não tem amigos, só assessores.
_ Exatamente, assessores, o nome dos outros parlamentares que ele frequenta, clube, cassino, qualquer detalhe... modelo, cor e placa dos veículos particulares, do carro oficial, o nome do motorista – fez uma pausa olhando pensativo para o teto; você não tem nenhum palpite sobre a identidade da amante? Muitas vezes é alguém bem próximo.
_ Vou pensar nisso, mas não me vem ninguém à cabeça. Tem outra coisa, não ligue para este telefone. Escreva para este endereço eletrônico ao fim de cada dia – e sacou papel e caneta.
_ Mas eu... ah, sim, perfeitamente (teria que percorrer quatro quadras até a lan house mais próxima todo dia).
_ Então me escreva que ainda hoje envio tudo que eu conseguir. Agora, não preciso dizer, sigilo absoluto. Eu quero esse material para uma eventualidade, de modo algum quero mais um escândalo para desgastar a ele (e a mim) ainda mais. A corrupção é tolerada, mas questões íntimas jogadas no ventilador são motivo para anátema social.
_ A senhora não terá decepção, sra. Albuquerque, eu sou o mais eficiente e o mais honesto detetive na cidade. Ética é tudo no nosso ramo.
_ Pode me chamar de Cláudia. Adeus, Halunke, preciso ir.
_ Como precisa ir? Não falamos em dinheiro, e no mais importante: meu adiantamento.
_ Onde eu tenho a cabeça? Quais são seus termos?
_ Um barão agora e mais quatro no final.

Ela, que esperava gastar muito mais, sugeriu que fossem até o terminal do banco e sacou o montante da conta conjunta (“ele nem vai perceber”). A carteira de Halunke havia muito não via tanto dinheiro, e fazia um volume enorme na calça risca-de-giz esmaecida. Despediram-se com dois beijinhos e Halunke não sabia se alucinava ou se percebia um sorriso maroto daquela matrona de cabelos castanhos presos no topo da cabeça e olhos verdes circundados de maquiagem. Livrou-se do paletó e voltou à praça de alimentação, onde comprou uma cerveja em copo de plástico. Desceu para fumar e quando terminou conseguiu um táxi. Ainda teve tempo de ler Chandler com a TV ligada antes de tomar um banho e descer para o Beirute, uma curta distância que preferiu caminhar (o que ajudava a pensar, também). Tomou uma cerveja sozinho antes que o colega aparecesse.