quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Intro da Mono


“Mad call I it; for, to define true madness, 
What is't but to be nothing else but mad? 

“Louco digo eu; pois, definir a verdadeira loucura,
O que é senão ser nada mais que louco?”
Hamlet II-2

Escrever sobre Shakespeare é sempre lançar sal ao mar. Mas ainda é possível adicionar seu próprio tempero. Este trabalho parte da admiração do autor pelo Bardo e de sua própria experiência pessoal de paciente psiquiátrico: trata-se de identificar e discutir as instâncias de loucura em suas peças, relacionando-as com as concepções contemporâneas sobre o tema, então em rápida transformação.

Pouco precisa ser dito sobre William Shakespeare (1564-1616), o Bardo de Avon. Dramaturgo, ator e empresário de sua própria trupe (Lord Chamberlain’s e então King’s Men), desde a primeira menção a ele feita, por Robert Greene, outro dramaturgo elizabetano, como um “corvo iniciante”, até sua aposentadoria, Shakespeare foi consagrado em vida e absorvido pela corte. Suas peças seguiram sendo encenadas e adaptadas, recebendo grande impulso na era vitoriana, quando houve, nas palavras de G. Bernard Shaw, uma verdadeira “bardolatria”. Com a importância geopolítica que assumiu a Grã-Bretanha e em seguida os Estados Unidos, e a consequente valorização da literatura de língua inglesa, é comum se lhe atribuírem superlativos como “o maior dramaturgo” ou “o maior autor” de todos os tempos. Isso sendo uma questão menor, talvez sem sentido, o que importa é que “o melhor” ou não, Shakespeare, como escreveu o colega Ben Jonson, “não é de uma era, mas para todos os tempos”. Isso se provou verdade não só para o tempo como para o espaço: suas peças são encenadas, adaptadas para o cinema e para televisão, virtualmente no mundo todo; tramas como a de Romeu e Julieta, citações como “ser ou não ser”, para citar dois exemplos, foram assimilados pelo senso comum e pela cultura de massa, configurando patrimônio cultural universal.

Já a loucura é um tema escorregadio: é uma condição de assusta e fascina; um destino temível para um ente querido e ao mesmo tempo buscada deliberadamente através do uso de substâncias. É um termo, de vários, sem uma definição precisa, nem nos dias do Bardo, como veremos, e nem mesmo hoje, por mais que as categorias e diagnósticos se revistam de cientificismo, donde observa brilhantemente Polônio, citado na epígrafe: definir a loucura não é nada mais que loucura. O vocabulário da loucura não se contém no terreno patológico propriamente dito, mas transborda metaforicamente para exprimir outras situações, como qualquer extremo de sentimento: “louco de raiva” (“mad” em inglês significa tanto louco quanto enfurecido), “louco de ciúmes”; reprovação: “você é louco de abandonar os estudos”; incredulidade: “mataram o presidente?, você está louco?”; confusão: “devo estar louco, onde deixei minha pasta?”; é uma maneira de desacreditar uma pessoa “não dê ouvidos a ele, ele é louco!”; é o veredicto de uma geração sobre hábitos da próxima: “você é louco de usar isso na orelha!” e daí por diante. Ao longo do trabalho o conceito de loucura será eventualmente alargado de modo a contemplar estados a ela  assemelhados, em que a razão é obliterda. Veremos adiante como a loucura tem sido entendida desde a Antiguidade, clínica e literariamente, enfatizando a Renascença e o início da Era Moderna, e a terminologia hodierna será eventualmente mencionada à guisa de comentário (uma vez que não cabe usar um quadro de referências anacrônico e não-literário para explicar as dinâmicas das peças).

Neste trabalho, discutirei o fenômeno da loucura em três tragédias: Hamlet, King Lear e Macbeth, além de brevemente em comédias como A Comédia dos Erros, Noite de Reis ou Sonho de uma Noite de Verão. Em um capítulo dedicado à contextualização, dedicar-me-ei a sondar a concepção da loucura à época, às transformações epistemológicas nesse domínio, às ocorrências de loucura nos palcos elizabetano e jacobino, além de alhures na Literatura. Cada tragédia ensejará um capítulo estruturado da seguinte forma: uma identificação formal das menções à loucura seguida das discussões críticas e epistemológicas suscitadas. O capítulo sobre as comédias terá uma organização mais livre. Breves palavras finais tentarão ver método em toda essa loucura. Duas serão as principais fontes para as discussões teóricas: Madness and Drama in the Age of Shakespeare (1993), de Duncan Salkeld, e Distracted Subjects: Madness and Gender in Shakespeare and Early Modern Culture (2004), de Carol Thomas Neely; além desses, lançarei mão de Hamlet’s Enemy de Theodor Lidz e incidentalmente de Histoire de La Folie à l’Age Classique de Foucault; as peças foram consultadas nas edições listadas na Bibliografia. Certamente, ao fim ainda não poderemos definir a loucura verdadeira, mas teremos uma percepção mais profunda do modo como o universo literário (e o dramático) se apropria(m) do fenômeno, especialmente em e em torno de Shakespeare.

Nenhum comentário: