quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa II


_ Jorjão!
_ Salve, Príncipe Hal!
Trocaram um cumprimento estrepitoso e Jorge se sentou na cadeira oposta. Pediram mais uma cerveja e Jorge, um quibe; o outro confessou que detestava o quibe do Beirute. Por um tempo o assunto foi a separação recente de Halunke, depois passaram por futebol até que Jorge comentou o mais recente escândalo político, ao que Halunke ergueu o sobrolho.
_ Nem me fala, cara.
_ Desembucha.
_ Hoje eu consegui um caso. A mulher desse Macieira aí.
_ Não brinca. O de sempre?
 _ O de sempre, Jorjão, mas tem coisa aí.
_ Tá na cara, Hal, logo em cima do escândalo?
_ Todos esses caras têm uma, se não mais amantes, e as mulheres via de regra sabem. Por que elas iriam pular fora? O bolo só cresce. Geralmente elas também aprontam e fica assim, em nome da conveniência.
_ Isso deve ser algum jornalista ou adversário político, cara, que quer pôr as mãos em material comprometedor e propôs o golpe à madama.
Fez um cigarro e o acendeu, o cheiro de fumo barato despertou olhares. Em volta, a nata da fauna urbana da capital, gays e lésbicas, hipsters e metaleiros, funcionários e poetas.
_ É possível. De qualquer maneira... A primeira coisa que eu tenho que fazer é enquadrar o figurão. E eu não tenho porra nenhuma.
_ Nada?
_ Segundo ela, é só uma suspeita.
_ Malcheiroso, Hal.
_ Que seja, e você?
_ Alemão, eu te liguei por isso. Talvez você possa ajudar... sabe como é a camaradagem no nosso ramo.
_ Claro, Jorge, camaradagem e ética, não se esqueça. Diga logo.
_ Esse é de uma garota de fugiu de casa. Família riquíssima, de Anápolis. Viraram a cidade de ponta cabeça, estavam desesperados; um dia ela ligou e deixou uma mensagem, e o DDD era 61. Aí me descobriram na lista. Já ouviu falar de Lauro Saavedra?
_ Nunca.
_ Empresário da indústria farmacêutica, pica-grossa. É o pai. E essa aqui – abriu a carteira e tirou uma fotografia – é a pilantra, Patrícia Saavedra, dezessete anos.
Hal soou um silvo em tom decrescente. A imagem mostrava uma loira sorrindo, sardas quase imperceptíveis, olhos castanhos translúcidos, em um vestido florido esverdeado esvoaçante e pose insinuante, mas natural. Os acessórios e a sandália de couro davam um ar meio riponga.
_ Que ninfeta, não?
_ Ela não tem metade da sua idade.
_ Foi só uma observação. O que mais você tem?
_ Sei que ela gosta de ir ao teatro, por exemplo.
_ E você vai fazer plantão na porta de todos os teatros até vê-la.
_ Essa é uma das estratégias, mas como eu sei que você também gosta...
_ Eu não tenho ido, estou meio quebrado...
_ Desde o divórcio.
_ Isso de novo, não. Enfim, até que entrou algum agora.
_ Bom pra você. Mas o que eu ia dizer é que você fique atento quando for, esta é uma cópia, pode ficar.
 _ Claro, mano velho, pode contar comigo, espero que eu possa ajudar. Sugiro concentrar no Renato Russo, pelo estilo. E tem outra, posso usar seu rastreador?
_ Porra, cara, cadê seu equipamento?
_ Você sabe. Jorjão, seu serviço é outro, não tem uso para um rastreador.
_ Amanhã você passa no meu escritório. Liga antes. Alguém já conseguiu negar uma coisa a você, seu patife?
Resolveram pedir um prato e comeram trocando banalidades. Despediram-se e Hal tomou o rumo de casa um pouco embriagado, não sem antes abordar um dos guardadores de carro e conseguir vinte mangos de fumo – andava careta por falta de grana – e voltar ao bar para pegar uma seda de guardanapo. 

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