quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Na Trilha certa III


Morar em pensão era foda, e ele fumou em um beco, sem se preocupar muito, e subiu. A dona ainda encheu o saco sobre qualquer coisa à qual ele nem prestou atenção e ele capotou na cama. Dormiu um bom sono, ainda que não se possa dizer o dos justos, e acordou com metade da manhã percorrida. Lavou o rosto e limpou os dentes com pasta e dedo índice. Passou um café ansioso para poder fumar, o que tinha que ser fora. Estando lá, pensou em ligar para a madama, mas se lembrou da interdição. Subiu, vestiu algo entre formal e casual e dirigiu-se até a lan house, lá perto também podia comer um misto. Escreveu a Cláudia: “prezada sra. Albuquerque, é necessário que nos encontremos para tratar da quermesse da paróquia”. Era um misto de paranoia e excentricidade um pouco forçada. De qualquer forma, ele ganhava tempo para cuidar de outra campanha, uma árdua e ingrata missão que se resumia a conseguir o carro que ficara com a esposa. Escapar vivo já era um sucesso, então se resolveu a ir; hesitou entre ônibus e táxi, mas como a corrida ia ser cara – até o Lago Norte – foi de coletivo: não havia pressa.

Aquela piranha ia estar em casa, não trabalhava, era sustentada pelo usurpador, ele ruminava no ponto. O ônibus demorou e ele ensaiava as linhas para, santo como era, produzir um milagre; chegou então um baú da linha que lhe servia e ele foi até a rodoviária sentado ao lado de um jovem em roupas espalhafatosas e cabelo arrepiado. Teve uma ideia: conseguiu as contas com as CEB e pagou todas na boca do caixa, com a grana viva que recebera. Ia reabrir o escritório, e talvez resgatar sua dignidade um pouco. Dinheiro é que ele ia ter que fazer de algum jeito. Pegou outro ônibus e chegou ao Lago Norte por volta de três horas, e a barriga avisou que ele estava sobrevivendo apenas com um misto.  Tocou a campainha da ampla casa, avarandada e pintada de azul escuro. Na garagem se podia ver o sedã preto que era dele enquanto durou o casamento; o utilitário-esporte da ex-sogra, que Nádia, a ex, usava, e qualquer carro que o usurpador usasse, não estavam. Atenderam a campainha, era a empregada, que, muito constrangida, fez todas as cortesias ao ex-patrão. Disse que dona Nádia não estava e não sabia quando ela voltava. Ele apertou a bochecha da mulher com os dedos.
_ Dona Sílvia, quantos anos nós não convivemos aqui nesta casa, hein?
_ É mesmo, seu Jonas.
_ Halunke, dona Sílvia.
_ É mesmo, perdão.
_ Seu filho está bem?
_ Sim, ele foi promovido a tenente.
_ Que ótimo! Escuta, será que eu posso almoçar?
_ Como?
_ É que agora não tem mais restaurante aberto, sabe...
_ Eu tenho que ligar pra dona Nádia, seu Haduke.
_ Não ligue, não é necessário, veja, eu sou de casa!
_ Vai, entra, não vai me meter em confusão!
Havia umas sobras bem generosas, ele esquentou um prato no micro-ondas e estava começando a comer quando ouviu o carro entrando. Ele foi encontrá-la na porta da sala, mas talvez tenha chegado perto demais, pois ela girou o braço e o acertou com a bolsa, talvez por mero instinto, mas, dado o estado da relação, talvez não. Era uma morena de cabelos curtos em torno dos 35, uma beleza exótica e um colo assaz interessante.
_ Ei, alto lá! Missão de paz!
_ Como você quer que eu me sinta vendo você dentro da minha casa? Você invadiu minha residência?
_ Não, a Sílvia me deixou entrar. Eu estava com fome. Ainda estou, na verdade.
_ E você vem até minha casa para economizar com uma refeição?
_ Não, claro que não, eu já explico, mas relaxa, vai. Guarda suas compras, eu posso comer da sua comida, você permite?
_ Não seja ridículo, Hal, vai lá e come. Mas eu quero que me ligue antes sempre que quiser falar comigo, tá bom? E como você sabe que eu fiz compras?
_ Muito simples, o porta-mala está aberto. Eu sou um detetive, baby.
_ De quinta. Não pode me ajudar pelo menos?
_ É claro.
À medida que executavam o trabalho, o clima se desanuviava, e conversaram amenamente sobre o desempenho de Âmbar na escola e a saúde da sogra, ou ex-sogra. Ela estava internada com problemas renais. Hal esquentou novamente o prato e eles conversaram enquanto ele comia, ela de pé, encostada a um balcão e bebericando um chá.
_ Você pode falar por que veio?
_ É uma questão delicada, Nádia. Veja só...
_ Eu não gosto desse “veja só”.
_ Pois bem...
_ Nem do “pois bem”.
_ Enfim, “nem do enfim”, você vai dizer, que previsível. Mas eu vim discutir um assunto.
_ Qual?
_ Um assunto importante.
_ Sou toda ouvidos.
_ Sua mãe não dirige há vinte anos...
_ Ah, isso não!
_ Pensa, Nádia, este carro está parado, eu consegui um caso que só posso atacar com um carro, você sabe, é minha profissão!
_ Foi a decisão do juiz, você sabe que aqueles cinco pés eram tão seus quanto meus, eu fui sacaneado. Esta casa era minha antes de nos conhecermos.
_ Você veio aqui para discutir isso?
_ Não, eu não vim para discutir, eu vim para implorar. Nádia, desse carro depende minha carreira, minha subsistência. Eu garanto que devolvo logo, inteiro, e recompenso você como puder, quando puder.
_ E o que vou dizer para o Henrique?
_ Eu quero que esse bosta se foda.
_ Não fala assim, Hal.
_ O carro é seu, a decisão é sua.
_ Ai, caralho... Eu não quero ver você na merda, seu patife. Mas isto vai me custar caro. Eu sou louca.
_ Você é sábia, Nádia.
_ Vá à merda.  

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