sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa IV


O carro estava parado havia um tempo e foi difícil pô-lo andando, mas afinal Halunke beijou a mão da ex-mulher e deu um abraço em Sílvia. A primeira parada foi um postinho, onde abasteceu,  comprou uma lata de cerveja e buscou na memória do telefone, que agora podia também iniciar chamadas, o contato do Jorjão. O amigo dispensou o “alô”.
_ Meu grande!
_ Tudo nos conformes?
_ Na santa.
_ Tá na área?
_ Até as seis.
_ Nada, eu chego rápido. Você não vai acreditar, estou oficialmente motorizado.
_ Foi bom o adiantamento.
_ Nada disso, estou a bordo do velho batmóvel.
_ Não brinca.
_ Já chego aí, a gente conversa.
_ Claro, até mais.
 O escritório do parceiro era no Venâncio 2000 e ele enfiava o pé no eixão norte, sabendo que não teria que pagar as multas. Deixou o carro no parque para evitar a tarifa do estacionamento, caminhou sob um sol ainda intenso e apertou o botão do estacionamento enquanto enxugava o suor da testa com as costas da outra mão. Uma placa negra com letras douradas contrastava com a porta de imitação de jacarandá: “Jorge Mascarenhas, Detetive Particular”. Não tocou a campainha, simplesmente entrou. O escritório era pequeno, mas o mobiliário era de bom gosto, sóbrio; havia uma divisória e uma mesa para a secretária, remanescente do estabelecimento anterior, pois Jorjão nunca teve uma. Era ele que transpunha a porta de vidro da divisória.
_ Salve, salve!
_ Mil vezes salve, Jorge. Meu caso já está indo bem!
_ Mesmo? O que você conseguiu?
_ Meu carro, ora!
_ Como a Nádia caiu nessa?
_ Nada, ora. Eu disse que eu preciso e ela não.
_ Ela ainda curte você, Hal.
_ Todo mundo sabe. Ela só me deixou para aproveitar a situação e ficar com tudo.
_ Bem, está aqui o aparelho. Eu não devia fazer isso, mas você é como um irmão. Mesmo assim, se voltar avariado ou não voltar, você paga. Sabe o que diz o ditado.
_ Sim, “cavalo dado não se olha os dentes”.
_ Quê?
_ Caralho, Jorjão, isso aqui é obsoleto!
_ Vai se foder, porra!
_ Meu, preciso usar o computador.
_ Senta aí.
Halunke acessou o e-mail e, no meio de muita porcaria, lá estava a resposta de Cláudia. Sugeria um lugar na Vila Planalto, na hora do almoço. Isso é bom, ele pensou, e ainda dizem que não há almoço grátis. Respondeu confirmando. Jorge fechou o escritório, e acompanhou Halunke até o parque; guardaram o estojo no carro e se sentaram num quiosque para tomar uma gelada. Era dia ainda, um fim de tarde abafado, opressivo, mas bonito.
_ Meu, se você precisa achar essa moça, está fazendo o que no escritório, esperando ela tocar a campainha?
_ Eu tento achá-la na internet, mas ela deve ter mudado de nome, não usa sua própria foto. À noite eu acho mais provável topar com ela. Inclusive eu vou seguir sua dica hoje.
_ Vai ao teatro?
_ Quer ir?
_ O que é?
_ Não faço ideia. Vamos, minha esposa está viajando, a gente passa lá em casa, trata um.
_ Assim você me ganha.
Jorjão morava na asa sul, perto de uma distribuidora de bebidas, o que vinha a ser providencial. De modo que passaram umas duas horas bebendo, fumaram um e estava ambos retardados ao chegar ao Renato Russo. Faltavam ainda quinze minutos para o início da peça, que prometia ser “um drama sobre a inadequação na era da cultura de massa”. Fria. Aproveitaram para tentar abordar as outras pessoas com uma conversa mole e perguntar sobre a moça, mas mal conseguiam articular as palavras e houve um que até chamou a segurança. A fugitiva não havia dado as caras.
_ É como achar agulha no palheiro.
_ Há quanto tempo você está nesse caso?
_ Uns cinco dias. Mas ela fugiu faz dois meses.
Estavam chamando para entrar.
_ Alguém está bancando ela.
_ Sim, bem possível.
Foi a última coisa que conseguiram dizer antes de começar o espetáculo. Com cinco minutos, os dois se olharam. Com dez, Hal cutucou Jorjão, mas ficaram. Aos quinze, ele não se conteve e se levantou, não deixando outra alternativa ao amigo.
_ Não é falta de educação sair no meio do espetáculo?
_ Falta de educação é apresentar uma peça tão pretensiosa e abusivamente metalinguística como essa.
Halunke fez e acendeu um cigarro. Dirigiram-se ao carro
_ Mas enfim, você dizia, alguém banca ela, algum cara rico, certamente. Aonde você quer chegar?
_ Quero dizer que você está procurando nos lugares errados.
O outro só o fitou entre intrigado e embaraçado. Estavam chegando ao bloco de Jorge. Subiram para finalizar a noite e Hal cochilou no sofá. Foi acordado, murmurou uma despedida e desceu para pegar o carro e voltar para casa, que por sorte não era longe, em modo automático.

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