domingo, 30 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa IX

A manhã seguinte exigia de Hal a velha acrobacia de evadir a cena do crime sem ferir a susceptibilidade da vítima. Ele teve que esperá-la descer para ir à padaria, tomar café conversando amenidades, e por pouco escapou de ver fotos de uma viagem à Europa que ela fizera. Zaira o acompanhou até o carro e pediu-lhe que não sumisse. Ele dirigiu até a pensão, andou até a banca ali perto e conferiu se havia notícias sobre o senador Macieira, debalde. Subiu a escada pensando no olhar idiota que a dona da pensão sempre lhe reservava quando ele dormia fora, o que de fato se repetiu. Ela aproveitou para admoestá-lo pelo atraso, ele mal prestava atenção, absorto em uma fantasia que envolvia muito dinheiro e o fim daquela humilhação. Hal teve energia bastante para tomar um banho e desabar na cama, da qual sairia apenas depois de duas da tarde.

Como o PF estaria fechado, Halunke analisou as alternativas, inclusive a casa da ex, lembrando logo o risco de topar o usurpador, e optou pelo quibe do Conjunto Nacional. Era quase uma extravagância para quem havia filado almoço dois dias seguidos. O telefone tocou quando ele fechava o carro; era sua mãe.

_ Oi, mãe!
_ Jonas, você não se importa comigo!
_ Como assim, mãe, eu sonhei com você outro dia!
_ Sério, como era o sonho?
_ Não sei, foi mais uma impressão... tá tudo bem?
_ Como se você se importasse.
_ Sem drama, mãe.
_ Estou ligando pra dizer que sua irmã vai fazer um curso no Canadá. Eu vou precisar passar um tempo com você em Brasília.
_ Mãe, olha... meio difícil, o apartamento tá em reforma.
_ Você nunca me disse.
_ Pois é, faz tempo que a gente não se fala, né? Agora não dá, mãe, mais pra frente, certamente... eu adoraria.
_ Você vai negar abrigo a sua mãe?
_ Você vai ficar desconfortável aqui. Por que não vai pro Rio com a tia Jaque?
_ Olha Jonas, eu nem sei por que ainda converso contigo. Adeus.

Depois de comer sua comida árabe, dirigiu-se ao Venâncio 2000, ali perto, mais uma vez parando no parque para economizar. O segurança consultou um caderno onde aparentemente estava registrada sua autorização e permitiu a entrada. Halunke se sentou na poltrona de Jorge e saboreou o que era ter um escritório por alguns instantes antes de se dedicar ao trabalho. Quer dizer, não haveria problema se ele visitasse esta ou aquela página antes... e o resultado é previsível. Mas afinal ele atacou a tradução. Hal havia estudado alemão sim, mas seu nível era intermediário no máximo, o que ele compensava usando bem as ferramentas da internet. Quando eram sete horas ele havia feito, bem ou mal, um terço do trabalho. Trancou o escritório e caminhou até o carro, dirigindo até o bar mais próximo, que veio a ser uma pista de kart. Já havia bebido três garrafas de cerveja quando decidiu pilotar um kart, e isso não pareceu um problema a ninguém, era como se o kart fosse uma realidade paralela onde as leis do trânsito e do bom senso não se aplicassem. Ele demorou para pegar o jeito, e se mantinha à direita para ser ultrapassado, mas depois de dominar minimamente a técnica necessária, passou a intimidar os oponentes e a arriscar todo tipo de manobra imprudente. A direção do lugar deu-lhe bandeira vermelha e o fez parar; ele saiu do carro alucinado, revoltado contra a decisão; comprou uma lata e saiu cantando pneus com o batmóvel.

O destino era a Ceilândia, onde ele conhecia um canal de bright. Depois que ele chegou à quadra, passou pela área de lazer e se aproximou da praça onde ocorria o movimento, estacionou o carro e seguiu a pé.
Havia um grupinho aparentemente fumando um embaixo de uma árvore. Usavam de modo geral roupas de surfe e correntes pesadas; um se adiantou.

_ Vai querer o que?

Hal só fez um sinal roçando o indicador na narina direita, seguido de outro com a mão espalmada.

_ Cinquenta de brizola, tá na mão.

Ele alcançou alguma coisa atrás mureta da quadra de esportes e entregou a Hal, que, ao mesmo tempo, entregava a onça.

_ Bom fazer negócios com você.

Já no carro, com a ajuda do Chandler, ele deu um tiro de cada lado, esfregando o restante nas gengivas. Guardou o flagrante e pegou a Estrutural alucinado. Talvez não fosse boa ideia, mas ainda dava para testar uma teoria naquela noite ainda. Estacionou o carro e andou um pouco até localizar o teatro, no meio da quadra. A peça obviamente já havia começado, estava mais perto de terminar na verdade, o que enfim aconteceu, e a plateia, pequena, começou a sair.


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