sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa V


Dormiu com a TV 14” ligada, cedo ainda, e acordou deitado de mau jeito e com torcicolo. Tinha impressão de ter sonhado com a mãe, mas não conseguia recompor a cena. Eram oito horas. Realizou sua higiene pessoal precária, prometeu a si mesmo que compraria uma escova. Ali perto, em um ponto de ônibus, havia uma lanchonete muito pouco recomendável, mas ele achou naquele dia que precisava comer alguma coisa antes dos tradicionais café amargo e cigarro; estava resolvido a ser mais saudável. Obviamente não devia começar com uma coxinha impregnada de óleo e feita sabe-se lá quando, mas cada avanço é uma vitória, ou não? Pediu para preparar um copo de café solúvel, pois o da garrafa era um purgante de doce, enrolou seu cigarro e pôs-se a pensar. Tinha tempo até a hora do almoço, ia fazer uma pesquisa sobre o senador. Caminhou até a lan house, abriu a mensagem de sua cliente que fornecia um conjunto de informações nem sempre úteis, mas uma linha de investigação lhe pareceu clara: esses figurões geralmente mantêm seus próprios rendez-vous, com alguma sorte podia ser um imóvel em seu nome ou mesmo no de algum assessor. Aranha: esse era seu contato no cartório, ligou mas não teve resposta. Pesquisou o nome do político nas redes sociais; ele tinha contas de divulgação institucional apenas. Como o número de seguidores era pequeno, ele vasculhou a lista em busca de mulheres bonitas; havia poucas e ele anotou os nomes. Como era previsível, o velho gostava de jogo. Hal conhecia os melhores antros de jogatina da cidade, sabia como eles se comunicavam através de fóruns on-line e mesmo os códigos que usavam para marcar as noitadas cercadas de segredo. Descobriu uma naquele fim de semana, tomou notas. Ainda acessou mais algumas bobagens, olhando em volta e pronto para fechar a janela se alguém se aproximasse, e enfim seu tempo expirou. Ele pediu para usar o banheiro e voltou para a pensão, para vestir o mesmo terno e o pôr mesmo chapéu, mas escolheu uma camisa azul limpa para causar boa impressão.

Chegou meia hora antes ao local marcado, pediu uma cerveja e sacou o Chandler que quase se desfazia na enésima leitura. Uma coroa na mesa em frente a ele lançava olhadelas, mesmo aparentemente acompanhada. Hal costumava ser notado, era loiro e tinha cara de menino, o cabelo liso jogado de um lado para o outro da cabeça insistia em cair sobre os olhos, e ele achava um charme ficar consertando, o nariz era fino e os lábios, quase femininos; os olhos verdes, no entanto, eram o principal. E por falar em olhos verdes, lá vinham os de Cláudia, em um vestido preto quase excessivo para a circunstância, e sapatos abertos que faziam barulho à medida que ela andava; Hal reparou nos pés: nada mau para uma cinquentona.
_ Bom dia, senhor Halunke.
_ Como vai a senhora?
_ Muito bem, já conseguiu alguma coisa?
_ A senhora me acompanha?
_ Se eles tiverem gim-tônica.
Ele chamou o garçom e pediu.
_ A tecnologia evoluiu muito, sabe sra. Albuquerque. Antigamente nós tínhamos que seguir nosso alvo dias e dias, o que seria até perigoso neste caso, a segurança dele notaria. Mas isto aqui – disse, tirando da cadeira ao lado e pondo sobre a mesa o estojo – é a última palavra em localização georreferenciada.
Abriu a maleta, onde um molde em espuma continha dois dispositivos: um grande com uma tela de cristal líquido e um menor, do tamanho de uma borracha e com uma pequena antena ao lado. Ele pegou este último, embrulhou em um guardanapo de papel e entregou a ela.
_ Você pega fita adesiva e gruda isto no carro particular dele. Ali na saia do pneu dianteiro é o ideal.
_ Ele tem três.
_ É verdade. Escolhe um, o que ele mais usa, o que você acha que ele usa para suas escapadas.
_ Você não tem como rastrear todos?
_ Ironicamente, sra. Albuquerque...
_ Cláudia, por favor.
_ Sim, Cláudia, ironicamente eu tenho outro desses, mas precisei emprestar para um colega que passa um momento difícil. Mas não se preocupe, aposto que vamos pegá-lo fácil. Outra coisa eu queria perguntar, já vasculhou o telefone dele?
_ Já, mas são muitos números, ele é político, não achei nada suspeito. Por falar nisso, agora eu tenho este número aqui, você pode me ligar.
E sacou de uma bolsa, também preta, um quarto de folha A4 em que se liam seu nome em uma caligrafia caprichada e um número, que obviamente era de outra operadora, o que irritou um pouco Hal.
Pediram o peixe que era a tradição do lugar, e Hal aproveitou para sondar melhor aquela história. Uma TV estava ligada e transmitia o noticiário, a dado momento o escândalo da Comissão de Orçamento foi citado: já haviam colhido as assinaturas para uma CPI. Ela fingiu não prestar atenção.
_ Como vocês dois se conheceram, posso perguntar?
_ Claro, por que não? Foi em uma festa de Réveillon, no Iate. Eu estava divorciada havia pouco, ele tinha acabado de assumir o primeiro mandato, a esposa era prefeita de Palmas, e tinha mais dois anos de mandato.
_ E você virou a amante dele?
_ Não exatamente, ele quis ficar comigo desde o início, mas tinha que evitar qualquer escândalo, ele é muito influente lá e não podia comprometer o projeto político. Mas aí chegaram as eleições municipais, houve um racha no partido, ela ficou sem a candidatura à reeleição, ele aproveitou e abandonou a ela – um cadáver político – e ao partido, o que lhe fez bem, pois acabou ocupando postos cada vez mais importantes, até...
_ A presidência da Comissão de Orçamento.
A morena que tinha se interessado por Hal levantou os olhos do prato, curiosa.
_ E seu medo – prosseguiu – é que ele faça com você o que fez com ela.
_ Não, meu caro. Essa moça é só diversão.
_ Mas tudo que você tem é uma suspeita vaga.
Ela suspirou.
_ Não é a primeira vez que ele é visto em Caldas Novas.
_ Ele foi visto com alguém?
_ Não exatamente.
_ Quem é sua fonte?
_ Uma amiga do clube.
_ Quando foi isso?
_ Deve fazer um mês.
O prato chegou e o diálogo prosseguiu com pausas para mastigação; da parte dela, claro.
_ Ele viaja neste fim de semana?
_ Ele viaja quase todos, é bem provável.
_ Ele sabe da sua suspeita?
_ A suspeita é constante.
_ Você diz que ele já foi visto antes em Caldas. Só agora você quer flagrá-lo?
_ Você pergunta demais.
_ É minha profissão.
_ Ao que me consta, não sou eu a investigada.
_ Obviamente, não é. São informações relevantes apenas. Mas diz uma coisa: ele não tem um telefone em Palmas? Não seria fácil saber se ele foi pra outro lugar?
_ Ele só usa o celular.
_ Bem, eu quero que você descubra se ele viaja ou não. E não deixe de instalar o dispositivo no carro em que ele vai viajar.
_ Ele viaja no avião dele, seu tolo.
_ É verdade. Enfim, fica assim.

Vieram os dois cafés e a conta, ela pagou. Hal a acompanhou até o carro e observou modelo e placa. Despediram-se com beijos no rosto, e ela exibiu mais um daqueles sorrisos sedutores ao dizer contava com ele. 

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