sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa VI


Saiu de lá em direção ao começo da asa norte, parou o carro dentro da quadra e chegou ao bloco onde ficava, ou ficara, seu escritório, pelos fundos. A porta de ferro estava repleta de teias de aranha por fora, e corria com dificuldade. Dentro, o pó cobria tudo: a escrivaninha com topo de fórmica outrora branca, o ventilador metálico e as prateleiras com muitos papéis em desordem. Ele atacou o interruptor, nada. Alcançou uma das contas na gaveta e ligou, ouviu cinco minutos de gravação mas conseguiu solicitar o religamento, que foi prometido dentro de 24 horas. Fechou tudo, subiu e caminhou até o supermercado na L2, comprou vassoura, balde, pano, e um limpador multiuso; foi um trabalho ingrato voltar com isso tudo nas mãos. Lembrou-se ainda de ligar novamente para o Aranha, que desta vez atendeu.
_ Boa tarde?
_ Aranha, Hal.
_ Seu patife! Qual é a boa dessa vez?
_ Estou na trilhe de um coelho gordo, rapaz, talvez você possa...
_ Está foda, aqui, Hal, muito trabalho.
_ Então anota ai os nomes, procura quando der.
_ Não quer mandar por e-mail?
_ Isso vai ser mais... não, tudo bem, eu faço isso. Mesmo endereço?
_ Mesmo endereço.
_ Firmeza, meu camarada, até outra então.
Gastou duas horas para deixar o lugar apenas sujo, o que era um progresso enorme. Passou a fazer uma triagem nos papéis e jogava quase tudo fora, às baldadas, em uma caçamba em frente ao bloco. De repente algum documento chamou atenção. Era uma investigação de um empresário encomendada pelo sócio. Foi um trabalho interessante. O respeitável magnata da coleta de lixo tinha mais esqueletos no armário do que o Campo da Paz desenterrava todo mês para acomodar a questão fundiária do além-vida. Começava com licitações arranjadas e ia até vínculos com traficantes e execução de adversários, e em algum momento o senador Macieira apareceu, na qualidade de governador do Tocantins. Hal não tinha a boa memória que deveria, em seu ramo. Interrompeu a limpeza, pôs o envelope pardo sob o braço, fechou a loja e sentou-se no bar mais próximo, a ler a papelada. As fraudes nos contratos governamentais eram apenas mais do mesmo, mas havia indícios de que Macieira e outros políticos usavam seus salvo-condutos para levar pó da fronteira boliviana até Brasília, Rio e São Paulo. O cliente não precisava seguir aquela trilha, pagou – bem – a Großlügner e denunciou o sócio à polícia. Por algum motivo não teve sucesso, e Hal soube dele pela última vez como caixa de supermercado no interior, meio paranoico. Isso havia sido mais de dez anos atrás.
_ Eu que não quero me meter com essa gente, vou conseguir essas fotos e pular fora – disse a si mesmo em voz alta, atraindo olhares.
Resolveu que já era hora de descansar, mas foi surpreendido por uma mensagem. Era de Cláudia, e confirmava que seu marido viajaria de sexta a segunda. Ele deu uma golada substanciosa do uísque – estava com ânimo para bebida quente – e uma baforada do fumo vagabundo, pensando nas variáveis.
_ Aeroclube: aí é que eu preciso de um amigo. Esses putos não ajudam nada – desta vez apenas pensou.
Pagou, pôs o chapéu, e se levantava quando tocou o telefone, um número novo.
_ Boa tarde.
Na verdade já era mais de sete, mas era horário de verão. Seria outro caso?
_ Boa tarde, pois não?
_ Você que faz tradução?
Pronto, ia perder as madrugadas, mas ia ter o que comer: o adiantamento já tinha ido quase todo embora. Passou mais uma vez no supermercado e comprou rum, que, juntamente com um fino que sobrara, fizeram sua noite. 

Nenhum comentário: