sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa VII

O rádio-relógio antigo, vintage, como ele preferia, dizia que estava atrasado, e a cabeça, modelo anos setenta e dificilmente em bom estado, dizia que estava com uma puta ressaca. O jarro estava vazio e saiu de cueca mesmo para buscar um pouco d'água no filtro; uma solteirona que morava lá desde sempre fez um escândalo e foi sumariamente mandada à merda. A escova ainda era só uma promessa, mas a pasta ajudou com o gosto ruim.

_ Que ideia estúpida, rum! Já devia ter aprendido essa.

Alcançou o telefone e discou um número da lista de chamadas recentes, sem muita certeza se era o correto. Com alguma sorte sua voz já não trairia sua sonolência.

_ Sim, sou eu, eu tive um contratempo... Minha filha se machucou na escola... Não, foi só um susto, obrigado. Podemos nos ver às onze, então? Sim, até lá.

Seu armário eram duas pranchas apoiadas em suportes metálicos fixos na parede, nenhuma das duas exatamente paralela ao piso. Escolheu uma bermuda já gasta, o que não não foi difícil, e uma camiseta de motivos hindus; uma sandália de couro completava a indumentária que vez por outra se mostrava útil, e dentro da qual não parecia ter mais de trinta e poucos anos.  

Haviam combinado no Minhocão Norte, e tudo que ele sabia era que ela tinha cabelo muito vermelho. A chuva, que andava escassa para a estação, resolveu dar as caras justo quando ele pôs o pé pra fora da pensão, e ele chegou molhado ao carro, acrescentando um guarda-chuva à lista de coisas que esqueceria de comprar. Rodou as estações e acabou desligando o rádio: precisava lembrar-se de procurar as fitas no meio da bagunça que deixara na edícula da casa do Lago Norte. Estacionou em uma vaga de deficientes, o que lhe parecia menos grave do que aparecer encharcado ao encontro, e nunca o incomodou muito, aliás. Correu até uma espécie de praça onde havia lanchonetes, livrarias e copiadoras, que os estudantes - ele tendo sido um duas décadas antes - chamavam de Ceubinho. Lançou um olhar em volta e viu ao menos três garotas com cabelo muito vermelho: uma usava um improvável sobretudo preto e muita maquiagem, o mesmo basicamente valendo para todo o grupo de cinco jovens levemente andróginos; uma tinha um alargador enorme em uma das orelhas e tatuagens cobrindo o colo e um braço inteiro, em um figurino evocando pin-ups dos 50 e cercada de amigos repletos de modificações corporais; outra mais adiante usava um vestidinho cor de terra coberto de uma miríade de brocados e vidros coloridos, chinelos de borracha e os cabelos ígneos em duas tranças - sentava sozinha lendo um livro. Faltavam dez minutos para a hora marcada e ele providenciou um café e enrolou um cigarro, sentando-se para observar as belas jovens que circulavam com os pés à mostra. Um garoto com uma cabeleira enorme veio perguntar se aquilo era um beque, ele tirou o pacote de tabaco e o mostrou com um sorriso forçado. Halunke sacou o celular e ligou, de olho na moça das tranças; quando ela atendeu, ele desligou e a abordou.

_ Âmbar? Oi, desculpa, eu realmente...
_ Não tem problema, eu ia estar por aqui mesmo.
_ Certo... você tinha dito que estuda música?
_ Sim, estou terminando. Fui selecionada para esse programa na Áustria...
_ E precisa traduzir a papelada, claro.
_ Você é alemão? Não tem sotaque.
_ Eu só nasci lá, aprendi os dois idiomas em casa, um do pai e um da mãe.
_ Prático isso, não? Eu levei a vida inteira para falar algum francês.
_ C'est formidable!

Ambos riram e por sorte dele ela não prosseguiu no idioma de Voltaire, pois ele era uma farsa.

_ Então, todos arquivos estão neste CD, algo em torno de dez laudas. Quando você consegue entregar?
_ Estou com outros trabalhos, você tem muita pressa?
_ Um pouco, disso depende toda a burocracia do visto.
_ Entendo. Olha, eu cobraria trezentos normalmente. Por quatrocentos eu posso entregar em uma semana.
_ É muito dinheiro!
_ É o padrão... esses termos burocráticos todos... você pode conseguir mais barato, mas vai enviar um monte de asneira, e sei que você não quer isso, estou errado?
_ É verdade.
_ O pagamento é metade-metade, é praxe também.
_ E... você tem algum tipo de referência?
_ Bom, eu acabei de me mudar para Brasília... O que você estava lendo?
_ Cortázar - mostrando o livro.
_ Então você também fala espanhol.
_ Consigo ler...

Hal fazia esforço para não transparecer que estava salivando. Cada gesto, cada sorriso era repleto de uma graça primaveril; cada encontro dos olhos, os seus verdes, os dela quase negros, era um estremecimento. Jovem, bonita e culta, simpática sobretudo. Ele não deu tempo a ela de completar a frase.

_ Quer tomar um café?
_ Sim, claro.

Ele fingiu interesse pela oportunidade que ela tinha na Áustria, e ela explicava, enquanto eles aguardavam na fila, que se tratava de um estágio na Orquestra Jovem de Viena aberto a músicos de países em desenvolvimento. Foi quando de seu bolso as madeiras executaram seu glissando soando quase como elefantes, dando lugar a uma base de cordas em semicolcheias sobre a qual os metais executavam, irreconhecíveis através do aparelho, um tema heroico, grandiloquente.

_ Mussorgsky!

Ele fez um sinal se desculpando e se afastou para atender.

_ Pois não?
_ Halunke? Cláudia.
_ Bom dia, sra. Albuquerque. Como vai a senhora?
_ Bem, obrigado. Estou ligando para dizer que o dispositivo está instalado na caminhonete.
_ Boa notícia, sra. Albuquerque. Mantenha-me informado de qualquer desenvolvimento. Bom fim de semana.
_ Igualmente.

Quando ele voltou, ela já havia pagado pelos cafés.

_ Se importa se eu fumar?
_ Não, tranquilo, eu também ia fumar... um desses. Você tem cara de quem...

Âmbar tirara uma caixinha metálica de dentro da bolsa, mais enfeitada e colorida do que o vestido, abriu-a mostrando um baseado pronto e sorrindo desafiadora.

_ Você só quer testar meu profissionalismo.
_ Eu vou confiar mais em você, na verdade.

Ele se conteve para não tentar beijá-la ali mesmo.

_ Nesse caso...

Caminharam até um banco de concreto do lado de fora, a chuva havia passado. Conversaram sobre música clássica e popular, jazz especificamente, ele mostrou a tatuagem do Miles no braço esquerdo e ela parecia cada vez mais interessada. Ela o convidou para um recital que aconteceria no último dia de aulas, ironicamente o mesmo dia em que seu prazo se encerrava, ele garantiu que a veria e perguntou que instrumento afinal ela tocava, que vinha a ser percussão. Quando o beque acabou, Âmbar preencheu um cheque e lhe entregou; disse que estava indo almoçar no Restaurante Universitário e ensejou uma despedida. Ele disse que a acompanharia, para matar a saudade.

_ Mas você não disse que acaba de se mudar?
_ Eu estudei aqui, morei em Sampa e acabei voltando.
_ Fez o que?
_ Direito.

Quando chegaram ao caixa, ele pescou a última nota de cem na carteira para mostrar que não tinha trocado, ela se dispôs a pagar. Ele remexeu a carteira em busca de sua carteirinha falsa e, na confusão, derrubou um monte de papéis. Bem no topo estava a foto que Jorjão lhe dera. Âmbar se abaixou para ajudar, parecia surpresa.

_ É a Simone!
_ Você a conhece?
_ Sim, ela frequenta minha casa, é uh... amiga da Raquel.
_ A Raquel mora contigo?
_ Isso.
_ E quão... amigas exatamente são as duas?

Âmbar sorriu e sacudiu a cabeça:

_ Vocês homens... Por que você tem uma foto dela?
_ Eu... ah... sou amigo do pai dela.
_ Oh-oh, o pai dela... bem, acho que estou sendo paranoica.
_ Ela me deu essa foto, disse que guardasse pois um dia seria muito famosa, só isso.
_ É verdade, ela é atriz, e muito vaidosa.

Quando terminaram de comer, a chuva voltara a cair, torrencial. Ela tinha uma sombrinha minúscula na bolsa e acompanhou-o até o carro, aonde chegaram cada um com um dos ombros molhados; trocaram um olhar constrangido e dois beijinhos, ele agradeceu, ele também, imagina, essas coisas.





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