sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa VIII

Halunke voltava para casa pensando nos pés pequeninos de Âmbar, na faceirice de Patrícia/Simone e na amiga que precisou imaginar, com cabelos curtos, pretos, e olhos azuis, e em pouco tempo estavam todas nuas, explorando a anatomia umas das outras. De repente uma faixa lhe chamou atenção: internet; conseguiu, com muita sorte, uma vaga na comercial, não se molhou muito até chegar à lojinha de subsolo. Sacou seu bloco e enviou ao Aranha a lista com os nomes do senador e de seus assessores; suas buscas pelos nomes das seguidoras do político na rede social não renderam nada. Chegou então ao que queria: pesquisou tudo que pôde sobre Âmbar, achou sua aprovação no vestibular, o programa em Viena, um blog de poesia e suas contas em redes sociais; a moça ficava cada vez mais interessante. Salvou algumas fotos e enviou a si mesmo. Pesquisou então por Patrícia Saavedra, conseguiu muitas notícias em jornais locais e só; buscou então por Simone + teatro + Brasília, até que descobriu uma nota no caderno de Cultura, mencionando uma peça, ainda em cartaz, no Espaço Mosaico, e tomou notas. Não havia uma foto dela, mas parecia ser um bom palpite. Pagou pelo serviço e, subindo à superfície, percebeu que havia uma farmácia atravessando a rua; comprou enfim uma escova de dentes.

Terminou o trajeto até a pensão, tomou um banho e pôs roupas secas. Ligou o rastreador e verificou que o carro não saíra do lugar, o que fazia sentido, pois o senador fora viajar. Lembrou-se do cheque, faltavam poucos minutos para o fechamento da agência, desceu desesperado. Conseguiu sacar o dinheiro, por muito pouco, e já aproveitou para tomar uma gelada no botequim mais próximo. Sacou o telefone e ligou para Jorge, que atendeu entusiasmado.

_ Já ia te ligar, bandido!
_ Telepatia pura, meu velho. Vamos tomar uma?
_ Daqui a pouco, estou meio...
_ Hoje é sexta, porra.
_ Às seis? No velho Beira?
_ No velho Beira.

Bebeu duas cervejas sozinho, lendo o mesmo Chandler, e rumou para o Beirute, que já começava a fervilhar com o happy-hour de profissionais liberais e libertinos profissionais da capital federal. Antes que o amigo chegasse, ligou outro número da memória.

_ Zaira?
_ Sim?
_ Hal, beleza?
_ Você tem coragem de me ligar?
_ Poxa, Zaira, eu te expliquei por que...

Ela desligou, ele insistiu. Ela demorou a atender.

_ Fala.
_ Escuta, eu realmente tive um imprevisto aquele dia, tenho testemunhas.
_ Você sequer me ligou.
_ Era um assunto urgente, profissional, você precisa entender.
_ Eu não quero mais conversar.
_ Não faça isso, se você me deixar...

Desligou de novo. Ele retomou o livro, mas não leu nem parágrafo e Jorjão apareceu, com a gravata listrada em torno do pescoço. Abraçaram-se, pediram mais um copo ao garçom e Jorge começou logo a narrar seus progressos.

_ Eu pensei no que você disse. Fui a todos os restaurantes caros, abordando os garçons. Eles geralmente não sabem de nada, como sempre, mas um - a troco de cinquenta mangos - revelou que a havia visto jantando com um cara mais velho. Ali no Intercontinental.
_ Sei... é uma pista, afinal.
_ É verdade, mas o maître não quis ajudar e me enxotou.
_ O garçom descreveu o acompanhante dela?
_ Eu insisti, mas ele só sabia que era velho e gordo.
_ Ele pode ter dito qualquer coisa só pela onça.

Jorge parou por um instante, pensativo.

_ Que se foda, príncipe, hoje é sexta - brindaram.
_ Por falar nisso, meu caro, eu tenho mais um favor a pedir...
_ Caralho, Hal.
_ Relaxa, é coisa pouca. Posso usar seu escritório no fim de semana?
_ Vai trabalhar?
_ Eu consegui uma tradução pra fazer.
_ Bom.
_ Em breve vou reativar o meu, tão logo possa comprar um micro. Já paguei as contas e tudo.
_ E como vai o matrimonial?
_ Nada novo, mas o rastreador foi instalado.
_ Você está ficando preguiçoso, Hal.
_ Que nada, só aderindo à tecnologia.

Continuaram bebendo e conversando, e em dado momento o Monte Calvo atacou novamente: era Zaira. Hal conversou um pouco, concordando sempre, e, ao desligar, comunicou ao colega que precisava resolver certo assunto. Pediram a conta, Jorge se ofereceu para pagar mais uma vez e Halunke fez o charme de sempre antes de aceitar. Despediram-se, Hal por um instante considerou revelar o ocorrido no Restaurante Universitário, mas conteve-se, convinha investigar mais, podia ser alguém parecido, racionalizava.

_ Ah, sim, as chaves!

Jorge lhe entregou as chaves do escritório, ligou para a portaria do Venâncio expressando a autorização para que o amigo entrasse em dias não comerciais. Quando Hal chegou ao bloco de Zaira, na asa norte, já estava um pouco embriagado. Saíram para jantar, ela o xingava e o beijava com veemência; ele dormiu no apartamento dela, depois de uma garrafa de vinho e de uma transa intensa, seguida de um baseado. Não tivesse ele tido que pagar pelo jantar, teria sido perfeito.  
    

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