domingo, 30 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa X

Halunke estava na calçada quando quando a porta se abriu acima e começou a expelir exemplares típicos da comunidade hipster de Brasília, que ele via descerem uma escada até o nível da rua. Depois que todos aparentemente haviam saído, Hal ainda teve tempo de fazer e fumar um cigarro inteiro antes que o pessoal da produção começasse a sair. Ele prestou muita atenção, voltou a analisar a fotografia; de repente surgiu uma jovem, de jeans e camiseta, que se perecia com ela, mas com cabelo castanho. Ele se aproximou.

_ Simone?

Ela pareceu surpresa, ficou na defensiva.

_ Sim, pois não?
_ Jonas Zanattini, do Correio - e mostrou o crachá falso, ou ao menos antigo.
_ Ah, prazer...
_ Eu gostei muito da peça, de sua performance em particular...
_ Ah, que isso... Mas espera um pouco, eu não vi você na plateia.
_ Estava sentado em uma caixa, no escuro. O melhor para o jornalista é não ser notado, entende?
_ Bem, eu posso dizer que fico nervosa ao perceber um - estavam ambos rindo.
_ Será que eu consigo uma entrevista?

Ela hesitou um instante. Os interesses conflitantes de fugitiva e de aspirante a estrela a dividiam. 

_ Me deixa um cartão seu, eu vou pensar.
_ A gráfica está me devendo os cartões, mas vou anotar aqui - e entregou a ela uma folha do bloco.
_ Hal? Seu nome não é Jonas?
_ É meu apelido no jornal, desculpa, é tão automático.
_ Devo chamá-lo como?
_ De Hal, eu acho.
_ Então fica assim, Hal. Espere meu telefonema.

Ele entrou no carro, esticou uma perninha no livro e pegou a W3 rumo ao Venâncio. O vigia olhou desconfiado, conferiu a autorização e liberou Hal enfim. Ele trabalhou como um lunático, com pausas para cheirar um par de carreiras, e às oito e trinta ele estava salvando o trabalho em um CD. Voltou para a pensão e tomou um banho, deitou-se e ainda pensou na atriz, que anjo!, antes de conseguir conciliar o sono. 

Acordou molhado de suor, lá pelas três. Passou café e fumou, ficou assistindo TV e não teve fome o dia todo. À noite, ligou para um amigo, conversou brevemente e desceu para pegar o carro. Dênis morava no Guará, recebeu Hal com uma long neck, estava jogando videogame. Conversaram algumas bobagens, Hal contou sobre seu caso, enquanto o bong circulava.

_ Dênis, você daria uma olhada nessa tradução, por favor?

O amigo havia morado na Alemanha, e já tinha ajudado Hal várias vezes, a troco de uma comissão que acabava não sendo cobrada. Havia poucas alterações por fazer e o CD pulou do drive no mesmo instante em que Dênis tirava a última bongada da noite. Hal achou uma estação tocando música erudita e voltou para a pensâo sorrindo, mas ainda cansado pela noite mal dormida.

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