quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Na Trilha Certa I


Fazia parte do mis-en-scène: ao se apresentar, Halunke tinha sempre que acrescentar: é alemão. A bandeira tricolor encabeçava o cartão: Halunke Großlügner, embora ele tivesse nascido em Brasília mesmo, de pais mais paulistanos do que germânicos. Uma linha abaixo, em caixa alta, lia-se “INVESTIGADOR PARTICULAR”. Na capital, o negócio para detetives não girava em torno de segredos industriais ou mesmo negócios de Estado (geralmente chamavam gente de fora quando era coisa séria), mas geralmente em torno de infidelidades conjugais, e essa era a especialidade de Hal, como os mais íntimos o chamavam. Ele amargava um período numa pensão da W3 sul enquanto as coisas não melhoravam, e estava descendo a pé para a 400 onde havia um restaurante fuleiro onde costumava almoçar quando o telefone tocou.

_ Senhor Grosinger?
_ Gosslügner (ele alongava o ü), é alemão.
_ O senhor me foi indicado por uma amiga... Investigador, é isso?
_ Escuta, estou atravessando uma passagem subterrânea, pode me ligar daqui a pouco?
_ É rápido, quero marcar um encontro, precisamos conversar.
_ Sim, hoje ainda?
_ Se possível.
_ Às quatro? Onde?
_ Na praça de alimentação do Conjunto Nacional

Nesse momento, a ligação caiu, e ela insistiu até que, tendo ele saído do túnel, restabeleceu o contato. Ela descreveu a roupa que usaria e até a bolsa; ele só mencionou o chapéu, um clichê do qual não abria mão. Halunke entrou no restaurante de bermuda, camiseta e chinelos e pediu um prato feito e uma cerveja. Antes que a comida chegasse, o trecho de Noite no Monte Calvo que elegera para toque de seu telefone soou, distorcido e mais alto que a televisão, que transmitia o noticiário esportivo. Ele, impaciente, disse algum palavrão, imaginando que se tratava da mesma pessoa, mas não era. Era um colega, outro detetive, o Jorjão (é português). Os dois se engajaram em qualquer conversa fiada, até que veio o PF e Hal tentou desligar logo; Jorjão propôs um chopp mais tarde, e combinaram de se encontrar no Beirute.

Depois de comer, ele voltou para casa suando copiosamente sob o sol de dezembro, tomou um banho e pouco depois um ônibus até a rodoviária, e chamou atenção com sua magreza, seu terno e chapéu pretos. Tinha tempo até o compromisso, e passou no Na Hora para levantar as contas atrasadas do escritório, uma loja de subsolo que estava basicamente fechada recentemente; era uma fortuna que ele não tinha nem como pensar em pagar. Subiu para o conjunto e, apesar de ter almoçado há pouco, comeu um quibe para passar o tempo. Ainda sobrou algum para visitar a tabacaria e fumar um cigarro (ele os enrolava), e estava na praça à 16:05; percorreu-a de um lado ao outro até ver uma coroa muito bonita em um vestido verde, que mantinha uma bolsa roxa sobre a mesa: só pode ser ela.

_ Olá, minha senhora.
_ Sr. Grosunder, sente-se.
_ Großlügner, é...
_ Alemão, eu já sei. Precisamos ser rápidos, não quero ser vista aqui.
_ Então por que sugeriu?
_ Aqui ainda é menos provável que alguém do meu círculo me veja, e não quero que pensem que estou pulando a cerca, você sabe o poder da fofoca.
_ E ser vista aqui é... embaraçoso?
_ Esquece isso, Gros...
_ Halunke, por favor.
_ Certo. Enfim, você já fez isso antes, o caso é simples: meu marido está tendo um caso e você precisa provar.
_ Ele é rico? A senhora estava apenas esperando esta chance, imagino?
_ Não vim aqui para ser julgada, Halunke. Ele é rico e influente, e você deve tê-lo visto no jornal ontem – e sacou um recorte da bolsa de grife, transmitindo-o ao interlocutor.   
_ Sim, estou a par – mentiu – Comissão de Orçamento, uma vez eu trabalhei... mas deixa pra lá. É um peixe grande, senhora Macieira.
_ Albuquerque, eu mantive meu nome de solteira. Cláudia.
_ Encantado. Não é um serviço simples, esses figurões são bem assistidos e não costumam se deixar rastrear. Ele usa o veículo oficial para esses encontros?
_ Não tenho como saber, tudo o que tenho são indícios.
_ Como qual?
_ Ele sempre viaja para o Tocantins nos fins de semana, visitar sua base e tal, ser bajulado, tudo isso. Fora as negociatas, claro, ele vende sua influência para o governador, prefeitos, fazendeiros... mas não estava falando disso.
_ A senhora tem provas dessas mutretas?
_ Isso não me importa, é parte do trabalho dele. O que eu ia dizer é que na última dessas viagens ele foi visto em Caldas Novas. Não consigo imaginar outro motivo para ele mentir. E o chamei para pegá-lo no pulo.
_ E o escândalo, é uma coincidência?
_ Sim. Na verdade, nem sei se é um momento apropriado, coitado.
_ Entendo. Não se preocupe, dona. Dê a ele todo apoio nessas horas difíceis, e dê a mim o máximo de informações: rotina, telefone, endereço dos amigos mais próximos...
_ Ele não tem amigos, só assessores.
_ Exatamente, assessores, o nome dos outros parlamentares que ele frequenta, clube, cassino, qualquer detalhe... modelo, cor e placa dos veículos particulares, do carro oficial, o nome do motorista – fez uma pausa olhando pensativo para o teto; você não tem nenhum palpite sobre a identidade da amante? Muitas vezes é alguém bem próximo.
_ Vou pensar nisso, mas não me vem ninguém à cabeça. Tem outra coisa, não ligue para este telefone. Escreva para este endereço eletrônico ao fim de cada dia – e sacou papel e caneta.
_ Mas eu... ah, sim, perfeitamente (teria que percorrer quatro quadras até a lan house mais próxima todo dia).
_ Então me escreva que ainda hoje envio tudo que eu conseguir. Agora, não preciso dizer, sigilo absoluto. Eu quero esse material para uma eventualidade, de modo algum quero mais um escândalo para desgastar a ele (e a mim) ainda mais. A corrupção é tolerada, mas questões íntimas jogadas no ventilador são motivo para anátema social.
_ A senhora não terá decepção, sra. Albuquerque, eu sou o mais eficiente e o mais honesto detetive na cidade. Ética é tudo no nosso ramo.
_ Pode me chamar de Cláudia. Adeus, Halunke, preciso ir.
_ Como precisa ir? Não falamos em dinheiro, e no mais importante: meu adiantamento.
_ Onde eu tenho a cabeça? Quais são seus termos?
_ Um barão agora e mais quatro no final.

Ela, que esperava gastar muito mais, sugeriu que fossem até o terminal do banco e sacou o montante da conta conjunta (“ele nem vai perceber”). A carteira de Halunke havia muito não via tanto dinheiro, e fazia um volume enorme na calça risca-de-giz esmaecida. Despediram-se com dois beijinhos e Halunke não sabia se alucinava ou se percebia um sorriso maroto daquela matrona de cabelos castanhos presos no topo da cabeça e olhos verdes circundados de maquiagem. Livrou-se do paletó e voltou à praça de alimentação, onde comprou uma cerveja em copo de plástico. Desceu para fumar e quando terminou conseguiu um táxi. Ainda teve tempo de ler Chandler com a TV ligada antes de tomar um banho e descer para o Beirute, uma curta distância que preferiu caminhar (o que ajudava a pensar, também). Tomou uma cerveja sozinho antes que o colega aparecesse. 

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