quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nos Canos I

Teve sorte e foi o primeiro a retirar a bagagem da esteira no aeroporto de Amsterdã. De calça jeans e camisa preta sobre uma camiseta branca, ele pôs os óculos escuros quando saiu para fumar. Não era a primeira vez que Flávio ia à Meca dos pirados, mas desta vez era diferente: João Marcelo estava morando na Holanda. Os dois haviam estudado juntos na USP e mantinham contato dez anos já depois da formatura. Flávio arrastou a maleta para dentro e comprou a passagem do trem, que não demorou a passar; sentou-se e começou a ler, mas, exausto, cochilava, e acordou apenas na estação. João, que morava no interior, tinha um compromisso em Amsterdã e resolveu passar uns dias lá e encontrar o amigo, embora não visse mais muita graça naquela agitação. Trocaram mensagens e se encontraram em frente a uma banca. "Fala mermão, e essa barba?","Pois é, tudo tranquilo?". "Tudo, e por aqui, muita loucura?", "Sei lá, ultimamente estou mais tranquilo, você deve querer ir correndo pra um coffee-shop, não?". "Estou cansado, quero um banho; como é esse esquema onde você tá ficando?", "É um amigo, ele é de boa, disse que você pode pousar lá". "É holandês ele?", "Não, é sérvio; mas não se preocupe, ele fala inglês bem". Flávio sabia bem de que tipo de amigo se tratava, mas evitava o assunto. "Dá pra ir à pé?", "Claro, é aqui mesmo no Distrito da Luz Vermelha, olha ali a Igreja Velha; é um endereço que os holandeses evitam, o aluguel não é tão alto".

Chegaram, o sérvio não estava. "Ele faz mestrado e trabalha, o louco, só volta tarde", "Entendo. Cara, estou exausto, mas até que eu fumaria um antes do banho". Era o que João já tinha em mente, e buscou no quarto uma lata redonda de onde extraiu um pacotinho daqueles com fecho onde se via uma pequena quantidade de camarões gordos, uma mescla de verde profundo e marrom claro coberta de cristais esbranquiçados, além da seda e de um dichavador metálico. Flávio ficou um tempo admirando as flores, cheirando-as, enquanto o outro preparava o petardo, com tabaco pois a maconha era muito forte, e os dois conversavam sobre os antigos colegas: quem encaretou, quem se perdeu no pó, quem casou ou teve filho. "Acende aí, sente o gosto com ele apagado antes", ele o fez, elogiou o sabor, tomou uma longa bola e ao expeli-la, sentenciou: "Já estou louco". Ambos riram, Flávio quis saber: "Qual é esse?", "AK-47, é dos mais fortes". Fumaram só até a metade, um foi para o chuveiro e o outro para o computador. Flávio sentia a água morna escorrer como se fosse uma sensação inédita, havia muito não se sentia tão chapado e com uma onda tão limpa e suave. "Isso sim é maconha, disse saindo do banheiro, no Brasil eles misturam merla, cara, você fuma e não fica tranquilo", "Sério mesmo? Já escutei isso mas não pude acreditar". "É verdade, cara, já acusou no meu exame", "Por que você fez exame?". "Foi no trabalho, cara, aquela história que eu contei", "Ah, sim, mas ficou tudo bem?". Flávio fez um gesto de enfado como quem diz "não quero falar sobre isso".

João Marcelo preparou um jantar vegetariano, ambos comeram e em seguida fizeram a ponta de digestivo. Todo o tempo, as caixinhas do computador emitiam as dissonâncias e o radicalismo do jazz de vanguarda que João conseguira que o amigo apreciasse também. "Eu queria fazer alguma coisa diferente, sabe?", "O que, drugs?". "É, eu nunca fiz sálvia, nem amanita, nem... lembra quando você contou que pesquisou um processo para purificar herô?", "Cara, eu prometi não fazer mais isso, mas se você quiser... o Miro faz de vez em quando. Sálvia e amanita é fácil, vende nas head-shops". Flávio se levantou e foi até a janela, estava claro ainda, o relógio do micro dizia pouco mais de oito horas, ele aproveitou e arrumou o seu. "Quer fazer uma sálvia hoje à noite?"; João pensou, e fez um esgar que queria dizer menos "você é louco" do que "lá vou eu de novo". Suspirou e passou a mão pelo cabelo pelo amigo sentado ao seu lado no sofá velho: "Quer ir lá então?". Caminharam pelas ruas já repletas de tipos calculadamente estranhos, um passou correndo, gritando besteiras em português; "Brasileiro é foda", concordaram os dois. Entraram em uma lojinha à beira do canal, uma porta de vitrais psicodélicos sob uma placa colorida dizendo "Use Sua Imaginação". João observou: "O mais irônico é que se todos seguissem o conselho da placa talvez ele ficasse sem clientes". "Você está ficando moralista, porra?", "Sei lá, já não estou bem certo de que drogas estimulem a imaginação, a criatividade". Enquanto falavam, aguardando a vez de serem atendidos, Flávio percorria as prateleiras fascinado: cogumelos embalados a vácuo, ervas das quais nunca ouvira falar, uma infinidade de acessórios para fumo... rodopiou sobre o calcanhar com um sorriso embasbacado. O vendedor, livre, os atendeu em bom espanhol, João fez a negociação. "Vamos levar amanita também?", Flávio sussurrou, sem motivo aparente. "Amanita é meio sombrio cara, vai com calma". O outro ficou meio decepcionado, escolheu uma seda e jogou no balcão. "Você gosta de plástico?", "Não é plástico, é celulose, e eu gosto, queima devagar". "Eu não me adaptei", e ao funcionário, "um pacote de cat-nip também". "O que é isso?", "Erva de gato, eu costumava misturar no beque quando não estava fumando cigarro, deu saudade.

Chegaram de volta com a escuridão quase completa, e Miroslav estava em casa. A conversa passou para o inglês daí em diante. Após a apresentação protocolar, Miroslav virou a cadeira do computador, onde estava, enquanto os dois se estabeleceram no sofá. Os dois estranhos passaram um tempo falando sobre o que faziam, um contou de quando foi ao Brasil e o outro garantiu que queria muito conhecer Zagreb; o sérvio o corrigiu: Belgrado, e todos riram. Flávio comentou que gostava muito do Kusturica, o outro sorriu satisfeito, disse que gostava de música brasileira e começou a citar nomes. "Vamos fazer um no plástico, então?", "Achei que você não gostasse". "Não é que eu não fume, o Miro também gosta". Flávio fez questão de comandar o processo, usando para a piteira o livrinho de papel-cartão que ganharam de brinde. "Miro, nós compramos sálvia", "Mesmo? Cara, eu ainda tenho um relatório para preparar... não sei.". "Dá ressaca no outro dia?", "Pode dar dor de cabeça, mas é só". "Me disseram que a onda é curta e intensa", "Sim, são alguns minutos longe do planeta, depois passa". "Mesmo assim, eu não teria concentração para trabalhar depois... foda-se então, vamos lá". Flávio se levantou, bateu palma com palma com o novo e com o velho amigos. "Tem mais alguma coisa, Miro, diz pra ele, Flávio", "Sim eu... pensei...". "Fala, cara!", "Em tomar nos canos". O sérvio não entendeu a tradução literal e fez uma careta. "Herô, heroína endovenosa", e passou a elencar algumas gírias em inglês que conhecia. Miroslav olhou para um e para o outro, coçou a cabeça. "Eu posso te ajudar, mas eu tenho medo de... de desenvolver um hábito disso. Você tem certeza de que quer entrar nessa?", "É tranquilo, não se acha para vender no Brasil, é muito raro". "Certo, eu vou tentar meus contatos". "Bem, cabeção, quer chapar de sálvia, vamos lá, mais tarde a gente desce para umas cervejas". Flávio esfregou as mãos entusiasmado e o amigo foi buscar o cachimbo.    

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