quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pode Acreditar!




Você já ouviu falar em um centro-avante consagrado que também bate uma tremenda bola como zagueiro? Se no futebol isso é raro, na música nem tanto: muitos artistas fazem incursões fora de sua esfera habitual. É o caso do grande Tony Williams, baterista que entrou para o grupo de Miles Davis aos dezessete anos e destacou-se desde então como um elegante e eficiente baterista de bop, mas precisou dar vazão a seu lado mais roqueiro em seu projeto solo: Tony Williams' Lifetime. Foram diferentes encarnações e propostas, com menção especial à primeira, com John MacLaughlin, mas o ápice da produção do grupo é, a meu ver, o fantástico álbum Believe It, de 75. Além da percussão alucinada de Tony, o disco conta com o brilhantismo do guitarrista britânico (e favorito do blogueiro) Allan Holdsworth, cuja lista de empregos aqui seria enfadonha, bastando citar Bruford e Gong; conta ainda com dois prolíficos e competentes session men, Alan Pasqua nos teclados e Tony Newton no baixo. Isso não significa que estes últimos sejam coadjuvantes: todos são compositores na banda, e a afinidade entre os membros garante a coesão do disco.

Classificar a música de Williams não é difícil, basta escolher entre os sinônimos jazz-rock ou fusion. Diria mesmo que Believe It disputa com Hymn of the 7th Galaxy, do Return to Forever, o posto de epítome do gênero. Os andamentos são mais rápidos do que lentos, a dinâmica mais pra fortissimo do que pra piano. Os riffs poderosos do rock se aliam à improvisação virtuosística do jazz, e o funk vem adicionar um tempero a mais (sem a preponderância que teria no álbum seguinte, Million Dollars Legs). Alguém pode chegar a ter pena dos tambores e pratos de Mr. Williams, tal a veemência com que ele espalha fills mirabolantes sobre levadas intrincadas. É irônico imaginar a tranquilidade com que o circunspecto Holdsworth tamborilava freneticamente os dedos no braço de sua guitarra. Obviamente, o disco tem passagens mais calmas e líricas: nada mais desinteressante do que a energia no topo todo o tempo.

Meu LP - e os sintetizadores analógicos realmente PEDEM vinil aqui - foi comprado na Big Papa, com o Carlos e a Kátia, em meio a muita prosa musical; afinal, disco não é como um sapato ou um perfume, coisa que algumas "lojas de disco" não aprenderam. A capa é em P&B e traz o músico, que gostava de aparecer pelado nas capas... pelado na capa, com um sorriso de Mona Lisa e segurando um par de baquetas; o nome do grupo e do disco figuram em uma fonte elegante, à esquerda. O verso traz, sobre um fundo avermelhado, Williams ao kit, envolto em uma legítima purple haze, além de uma foto dos quatro e créditos. Prossigamos portanto a, não uma análise, mas impressões bastante subjetivas de cada faixa.

O álbum abre com um baixo em wah-wah, que conduz a um riff poderoso de guitarra. É a introdução de Snake Oil: aqui basicamente se alternam um tema alegre e ensolarado, com a condução direta, e um misterioso e tenso, com chimbau no contratempo; o andamento é mediano. No solo, Williams abusa de sua caixa de ferramentas: muito prato, fills de flams nos tons, apenas para citar, por sobre os teclados funqueados de Pasqua; vem então a hora do solo de Holdsworth, com suas tradicionais notas longas tecendo uma atmosfera espacial, e a peça termina em fade out.     

A intro de Fred são singelas notas de bumbo e prato, dando lugar a um tema que remete ao Havaí, andamento presto... vivace, com uma linha bem interessante de baixo e uma batera jazzística de bumbo sincopado. Uma falsa ponte traz de volta o mesmo tema, que por sua vez dá lugar aos famosos intercâmbios de tema-"solinhos-de-batera", e logo em seguida ao solo de Pasqua, bem animado, sugerindo um funk-progressivo, com bom gosto e maestria. Vem então Holdsworth e a montanha russa de suas escalas pouco convencionais, enquanto a música vai ficando mais pesada em direção à ponte, complexa, antes de voltar ao Havaí e daí a mais um intercâmbio com a batera, para fechar num outro energético, quase adolescente.

Proto Cosmos abre, bombástica, tempo presto... con fuoco, diretamente em mais um bate-bola entre tema (2 tempos) e baquetadas vulcânicas (6 tempos). É a peça que vai exibir a maior dose de virtuosismo, boa candidata a representar o disco. Por isso mesmo, em vez de descrevê-la, aqui vai o vídeo da reunião em que, dez anos depois da precoce morte de Williams, por enfarto em 1997, ele é muito bem representado por Chad Wackerman, pupilo de Frank Zappa e grande parceiro de Holdsworth - e excelente baterista.


Proto-Cosmos com Holdsworth-Pasqua-Wackerman-Haslip

Urgente é o adjetivo adequado para a uptempo Red Alert, compreensivelmente. O riff que explode desde o início é uma martelada em uníssono, que faz balançar a cabeça como, digamos, um fusion-metal. O tema atravessa toda a peça, e sustenta ora a metralhadora de Holdsworth, ora o doce Fender Rhodes de Pasqua, com Williams irrequieto todo o tempo.

Se a essa altura, você precisa de fôlego, está com sorte. Por algum tempo. Wildlife começa melódica, quase piegas; depois dá uma reviravolta e se transforma num vigoroso funk com a pulsação irrepreensível do discreto Newton ancorando mais um solo de piano elétrico, enquanto guitarrista descansa. Volta o tema apenas para encerrar a peça em que Tony parece mais comportando; uma que, sendo tão boa, só me parece a mais fraca do disco porque todas as demais são espetaculares.

Existe uma ciência no ordenamento das faixas em um disco, que fica meio prejudicada nos CD's (que não têm a "primeira do lado B" por exemplo), e um dos pressupostos básicos estipula que o bom álbum começa bem e termina bem. A última peça de Beieve It é similar à anterior no sentido de que vai do suave ao intenso, mas chega a um resultado mais interessante. Introduzido pelos tradicionais flams, um tema bem roqueiro, mas sorridente, entrega, depois de uma ponte, o bastão a mais uma conversa entre a cozinha e os teclados; Tony não se limita a conduzir, aspergindo semicolcheias furiosas e acentos no contratempo. Ele segue se expressando com a fúria e a fluidez características por cima das notas anasaladas de Holdsworth, num crescendo que leva a um solo enfático e coeso, contra um riff sujo e pesado. É o grande momento da volúpia rítmica do músico americano. O tema sorridente volta brevemente, e parece que a música acabou; mas Williams não quer parar de tocar, e só o fade out para acabar com o disco. Pode respirar agora.     

domingo, 17 de novembro de 2013

Deriva

Desde que fugi para dentro de mim,
Pouco se me dá que o mundo exploda.
Política, esporte, guerra - que se foda:
Levar o circo a sério não estou afim.
Misantropia é meu refúgio enfim,
E com o cinismo ela celebra boda.

Por que dar ouvidos à cacofonia?
Tantas bizantinas e estéreis polêmicas;
Mediocridade e estupidez endêmicas.
Busco, no silêncio, uma sinfonia;
Na solidão, férias da humana agonia:
Desejos frustrados, afeições anêmicas.

Se é verdade que ninguém é uma ilha,
Sou tal como uma Península Ibérica.
Um terremoto que fende a América,
Faz a Califórnia seguir sua trilha.
Um lobo que se separa da matilha
E se entrega todo a sua sina tétrica.

sábado, 19 de outubro de 2013

Não há modo de escapar
Não nasci para poeta
Por que diabo tentar
Combinar alfa com beta

Larga essa imagem em paz
Que é banal ou absurda
Rimas pobres, triviais
A Musa se faz de surda

Não se meta a declarar
Entortando a linha reta
Outro amor sem nenhum par
Passando ao largo da meta

Não se ponha a elucubrar
Com sua pouca metafísica
Língua rude e vulgar
Abandona a pena tísica

Deixa o ofício a quem sabe
As Letras são arredias
Aceita a mediocridade
Ocupa melhor teus dias

quinta-feira, 7 de março de 2013

Nos Canos IV

Tudo estava pronto, então. Miroslav tinha apenas uma seringa e uma agulha, então combinaram que um tomaria o baque e o próximo teria que ferver tudo. Não era o ideal, mas era razoavelmente seguro. "É melhor que eu ajude o Flávio, injete a minha e aí o João...", "Não sei, Miro. Eu prometi a uma amiga que não ia mais fazer isso. E eu acho que eu perco o controle muito fácil, melhor não". Flávio então se sentou no sofá, trocou um olhar cúmplice e um sorriso com o amigo, que se aproximou e lhe acariciou os cabelos. Miroslav apareceu com a seringa e a agulha, mais uma colher e um isqueiro zippo, voltando para buscar algodão e um pouco de água. Abriu espaço na mesa de centro e se sentou, "John, pode buscar o garrote, na primeira gaveta do banheiro?". Com cuidado, depositou uma pequena quantidade da heroína, que se parecia agora com um pó amarelado, sobre a colher, alcançou a pipeta e adicionou algumas gotas d´água. Acendeu o isqueiro com a mão esquerda e o deixou sobre a mesinha, ao seu lado, levando o fundo da colher ao fogo. A droga se dissolveu rapidamente, então ele pôs uma bola de algodão sobre a mistura e em seguida introduziu a agulha nela e puxou o êmbolo. "Esse algodão nem é necessário, porque nós já purificamos, mas é o costume", "É uma cena clássica", concordou Flávio, "também, eu devo ter visto Trainspotting umas dez vezes". Os três riram e quebraram um pouco da tensão. João brincava com o tubo de borracha, e o entregou a Miroslav, que garroteou o braço do estreante. "Eu quero injetar eu mesmo!", "Hum, sério? isso pode ser perigoso", advertiu o amigo. João e Miroslav trocaram um olhar,  e aquele tentou tranquilizar este com um meneio de cabeça. Então a seringa estava pronta, o braço, garroteado; Miroslav deu as instruções básicas, mas como a veia estava bem saliente, o trabalho foi fácil. Flávio penetrou apele lentamente com a agulha, parou, e puxou o êmbolo para trás com o dedão; o sangue fluiu para dentro da seringa, misturando-se com a solução de heroína. Ele ainda olhou para os outros dois, sorriu nervoso, e pressionou o êmbolo.


Bem devagar, enquanto sentia a substância rapidamente ser levada até seu cérebro, fazendo efeito em frações de segundo. A primeira coisa que sentiu, enquanto mal conseguia tirar a agulha de dentro da veia e descartar a seringa de lado, escorregando do sofá e espalhando-se pelo tapete da sala, foi um formigamento tomar conta de todo seu corpo: se uma lança o trespassasse, seria como se o fizesse a um corpo inerte, e separado do dele. Na verdade, o prazer era tão intenso, um prazer corporal, primitivo, que estivesse ele em qualquer circunstância, se estivesse em um barril de merda, ainda estaria se sentindo muito bem. Ele pensava coisas diversas de sua vida, mas a maior parte era rechaçada como desnecessária, se não nociva, naquele momento. Por um instante, um sentimento de culpa tentou dominá-lo, ele repetia: é só desta vez, não vende no Brasil, e toda a racionalização há muito aprendida. Mas foi um instante breve, e a maior parte do tempo ele teve uma onda límpida, intensamente corporal e, ao mesmo tempo, de algum modo transcendente. João se ria do espetáculo enquanto Miroslav fervia a seringa para tomar o baque por seu turno, quando Flávio começou a descer de órbita e perceber o ambiente a sua volta.

"Fez boa viagem?". "Ah... eu... não, ótima. Grande viagem". Flávio olhava para o furo no braço esquerdo: tinha feito, tinha tomado nos canos, e não ia se tornar um viciado, apenas uma boa experiência. Pensou então em fazer um cigarro, mas sua coordenação era ainda errática, e o amigo teve que fazê-lo. Por longos minutos ele permaneceu deitado no chão, mas João trouxe umas latinhas da geladeira e ele se sentou. Miro, um pouco mais experiente, com facilidade fez todos os procedimentos sozinho e injetou sua dose, um pouco maior, e ficou muitos minutos no sofá enquanto os brasileiros conversavam sobre cinema e, por algum motivo, sobre a crise política de algum país do Oriente Médio. Flávio não deixava de sorrir um instante. Quando João percebeu que Miro voltava do país das maravilhas, buscou seu estojo e confeccionou um do AK-47. Todos fumaram sentindo imensa paz, João talvez ainda mais do que os que usaram herô, não obstante seus contratempos com a burocracia e com o tráfego ciclístico.

O dia seguinte era aquele em que Flávio iria embora. Ele arrumou tudo ao acordar, seu trem era às três. João propôs almoçar em um restaurante perto da estação. Entraram, rumaram para um setor aberto, onde era possível fumar, pediram duas cervejas, e enrolaram seus cigarros. "Paris, então?", "Poucos dias. Aí Lyon". "Foi bom estar com você estes dias", "Ora, eu que o digo. Não suma!". "Eu só passo às vezes um tempo sem ler e-mail, mas...", "Você sabe que eu eu te considero muito". "Igualmente, Flávio, esteja certo", "E avisa quando for ao Brasil". A resposta do outro foi um aperto de mãos afetuoso. A comida chegou e foi regada a qualquer conversa amena, e a um bom vinho tinto; o café estava excelente. Pagaram a conta e rumaram para a estação de trem, faltavam vinte minutos para o horário. Ainda tomaram outro café antes de ir até a plataforma, onde esperaram pouco tempo, conversando sobre a crise europeia, até que o chamassem para embarcar. Os dois trocaram um forte abraço, beijos nas faces, e tapas nas costas. "Mantém contato!", "Pode deixar!". Flávio entrou no trem e procurou seu assento. João voltou para casa para ele mesmo arrumar as coisas, iria mais tarde para sua cidade prosseguir seus estudos. Flávio achou a poltrona e ligou os fones de ouvido tocando Bitches Brew do Miles. Ele até tentava evitar, mas pensava na possibilidade de simplesmente ter tentado dar um beijo no amigo. Mas isso era assunto controverso e ele logo achava outra coisa para pensar.      

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Big Papa Records

Descobri que o Carlos e a Kátia, Biga Papa e Big Mama, donos da melhor loja de discos do Brasil, incluíram um link da Leosfera no site da loja! Muito honrado, e a partir de hoje, Big Papa, a loja e o site, estão mais do que recomendado por aqui. É bem verdade que eu dou muito dinheiro a eles quando vou lá, mas dá pra sentir o apreço que eles têm por um "true collector". Então se você curte vinil, mora ou está passando por Sampa, apareça lá na Galeria Nova Barão, perto da República, para conferir.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XVII


Olhou no relógio e concluiu que ainda tinha tempo bastante para trocar a lanterna do carro. Pegou trânsito e chegou à loja de peças, no Setor de Indústrias com menos indústrias de que se tem notícia, minutos antes de descerem as portas. Os funcionários fizeram cara feia, mas um topou o serviço, contando com uma boa gorjeta. Obviamente não conhecia Hal. O aspecto do carro melhorou muito, mas persistia o amassado na lataria, que não era para ele uma prioridade.

De volta à pensão, ligou imediatamente o rastreador, ansioso. A caminhonete importada do senador havia parado em dois pontos: no Setor de Autarquias, certamente seu escritório, e... voilà: no Setor de Hotéis de Turismo, exatamente onde ficava o Ilhas do Lago. Grande Aranha! Acertou na mosca. Excitado, Halunke ligou para Jorge.
_ Meu velho!
_ Como vai essa força?
_ Beleza. Bem, quase tudo.
_ Que houve?
_ Vamos tomar um chope e eu conto as novas, boas ou más, que tal?
_ De leve? Hoje é quarta...
_ Deixa de frescura, Jorjão. Bar Brasília em meia hora?
_ Calma, eu estou... meio ocupado. Vamos marcar às nove?
_ Eu vou estar lá. Até mais.
_ Hasta.
Halunke tomou o jornal e o Bukowski e rumou para o bar, que estava lotado. Era um ambiente mais contido que o Beirute, frequentado basicamente por funcionários, e mais de uma vez Hal pescou uma coroa por lá. Conseguiu uma mesa, pediu um chope e o cardápio, e abriu o jornal. A matéria arrolava todas as velhas práticas dos coronéis, contava como uma determinada fazenda era guardada por um imenso efetivo de jagunços e cercada de mistério. Chegava enfim ao relato de dois trabalhadores que fugiram de lá, cujas dívidas no armazém do próprio latifundiário cresciam mais do que a soja que plantavam, e mal comiam crendo que assim comprariam um dia sua alforria. Enrolou um cigarro e tomou o livro. Parou um instante, tentando recuperar alguma coisa na memória. No caso dos sócios, era justamente uma fazenda do Macieira que era citada. Precisava verificar. Pediu uma porção e leu um capítulo inteiro antes que chegasse o amigo, que se sentou, sinalizou ao garçom com um dedo no copo do outro e desbafou.
_ Nada, Hal, não consigo nada. Voltei a rodar os teatros, perguntei a todo mundo, ninguém a conhecia. Eu decidi procurar em Alto Paraíso.
_ Faça isso, já disse que é um bom palpite. Mas tem também Pirenópolis, Goiás Velho... se não estou esquecendo de nenhum reduto riponga.
_ Putz, não fala isso. O pai dela está me pressionando, eu tenho que inventar que estou seguindo tal e tal pista. Ele me deu duas semanas.
_ Não surgiu nenhum outro caso?
_ Surgiu um matrimonial, mas é uma história estranha. O cliente exige anonimato e se recusa a dar mais informação do que uma foto. É outro beco sem saída, não decidi se vou aceitar.
_ Você tem a foto aí?
_ Só um instante.
Jorge tirou de sua pasta uma impressão de uns vinte por dez centímetros, em papel fotográfico, e mostrou ao colega. Halunke conteve o susto, sacudiu a cabeça e devolveu a foto. Era Cláudia Albuquerque.
_ Nunca vi. É uma coroa bonita.
_ Eu vou conseguir qualquer outro emprego, Hal...
_ Por falar em coroa bonita, olha aquela ali. Ela não tira os olhos de nós.
_ Vai lá conferir, eu sou compromissado.
_ Você é muito otário, mesmo.
_ E suas novidades? Aconteceu algo errado?
 _ Só isso – disse, tirando os óculos escuros.
_ Caralho, Hal, quem fez isso?
_ Bem, sabe aquela dívida que eu assumi, para pagar a anterior e assim sucessivamente?
_ De quanto é?
_ Três barões. Eu estava contando com a grana da madama, achei que tinha um puta flagrante e era ouro dos tolos.
_ De volta a estaca zero? Bem vindo ao clube.
_ Não exatamente. Graças ao seu aparelho eu consegui uma boa pista.
_ Maravilha!
_ Eu não aguento, Jorjão. Tem papel e caneta aí?
Rabiscou qualquer coisa na folha arrancada do bloco do amigo e chamou o garçom. A coroa estava com duas amigas menos agraciadas pela beleza, então ele especificou enfaticamente: aquela de verde. Os dois acompanharam enquanto o senhor que os atendia levava o torpedo até o navio inimigo. A mulher, loira de olhos claros, e com um batom rosado discreto, sorriu na direção deles. Hal acenou para que ela se juntasse aos dois detetives. Ela achou tal ocupação “super glamourosa”, Jorge suspirou enfadado e Hal concordou entusiasmado: “é uma aventura constante”.  Ao fim de uma conversa animada e depois de muitos chopes, Jorge tomou o rumo de casa e Hal seguiu Cíntia até o Park Way. O sexo valeu com sobras todo o combustível necessário, e Hal se viu na manhã seguinte brincando de fazer caretas com a filha de sua presa na mesa do café.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nos Canos III

Flávio subiu e encontrou os dois se beijando no sofá. Fingiu que aquilo não lhe importava e confessou logo seu lapso. "Putz,  que horas são?", João - que não usava relógio - disse, em português mesmo. Seu parceiro pareceu entender e consultou o relógio: "quinze para as seis". João foi até a minúscula área de serviço, ocupada plenamente por uma bicicleta do tipo speed, a qual ele trouxe para a sala. "Não tenho certeza se a farmácia fecha às seis ou às sete, mas eu vou correr. Já saindo pela porta, escutou de Miroslav: "você é um speedfreak agora". Todos riram, era uma alusão à droga que combina pó e herô. Flávio voltou a se desculpar e os outros dois mandaram ele ficar tranquilo.

Sentaram-se no sofá novamente, o brasileiro levemente constrangido, mas a conversa começou a rolar sobre a música que rolava, do Velvet Underground. "É a trilha perfeita para 'tomar nos canos'", expressão que o sérvio também já entendia. Uma ponta no cinzeiro foi devidamente acesa, era o AK-47 da casa. "Então você faz mestrado e trabalha?", "É, um tanto duro, mas eu perdi minha bolsa". "O que houve?", "Eu soquei meu antigo orientador". Flávio escancarou a boca e o outro prosseguiu: "Um cuzão completo, vaidoso, intransigente, machista...". "Mas aconteceu alguma coisa?", "Claro, ele disse que 'alguém como eu' - aspas que ele fez com os dedos no ar - jamais teria um futuro em computação". "Pois é, eu nem sabia sua área", "Enfim, você entende o que ele quis dizer", "Perfeitamente". "Eu quase fui expulso, mas só perdi a bolsa e mudei para uma orientadora, e ela é adorável; além de ser, obviamente, alguém 'sem futuro em computação' na visão dele". "O João então também é um intruso na matemática", "Um intruso respeitado, ao que me parece, o último artigo dele já foi citado sem nem ser publicado". "Ele é um crânio. E seu trabalho?", "É num supermercado. Bem tranquilo, as pessoas são ótimas". "Aqui dá pra viver com uma profissão dessas, no Brasil, é emprego de pobre", "Imagino". A trilha mudou para Led Zeppelin, o que animou Flávio. "Tem cerveja aí?", "'Opa', pega uma aí, deve ter" - essa interjeição era uma muleta para João, o outro aprendeu rápido. "E você, o que faz no Brasil?", "Cara, eu devo confessar que ainda estou na graduação, eu desisti de química, tentei geografia e vim me encontrar nas Letras, eu quero me dedicar a estudar Dostoiévski", "Fascinante!". "E eu trabalho também, pro governo, é uma chatice  mas a grana é boa, tem certas vantagens". Flávio sacou seu saquinho de White Widow e confeccionou um fino, mas com bem pouco tabaco, o que permitia saborear melhor a planta proibida que era tolerada naquela terra. Passaram por diversos assuntos, como a visita ao museu, e criavam uma empatia cada vez maior enquanto aguardavam João Marcelo.

Amsterdã é célebre por ser amigável às bicicletas. Mas no horário em que João saiu, o tráfego era tão intenso que nem ele pôde desenvolver alguma velocidade nem pilotar tranquilamente: qualquer ciclista que saísse do rumo constante derrubaria uma dezena deles. Mesmo assim, às seis em ponto ele chegava à farmácia. Era a única que não exigia até certidão de batismo para vender certos produtos químicos, e só funcionava - como ele ficou aliviado em descobrir - até as sete da noite, ou do dia, no verão. A compra foi rápida, o frasco plástico foi para o bolso da bermuda e a bicicleta de volta para a ciclovia ainda movimentada. Quase chegando, quando João precisava sair da ciclovia e atravessar a rua para chegar ao conjunto de blocos de Miroslav, um engraçadinho achou por bem ultrapassá-lo pela direita, os dois foram ao chão e uma colisão em cadeia, verdadeiro engavetamento, fez até o fluxo de carros se interromper e olhos curiosos concentrarem-se no acidente. João se desvencilhou do emaranhado de rodas e guidons que o cobriam, levantou-se e descobriu que tivera escoriações leves apenas, mas que o frasco de ácido clorídrico havia se aberto, metade do conteúdo perdido. "É o bastante", pensou, enquanto terminava o trajeto empurrando a bike imprestável. Subiu as escadas, deixou a speed no hall e entrou. Miroslav acariciava a orelha de Flávio, que levou um susto ao ver o amigo, enquanto o outro parecia não se importar. "O que houve?", disseram os dois quase em uníssono. João Marcelo contou sobre o acidente, espumando de raiva, e pôs o frasco meio vazio ou meio cheio sobre a mesa de centro. "Fica tranquilo, John, toma um banho que eu vou montar a vidraria e começar o processo", Miroslav apaziguava o amante.    

Flávio olhava fascinado enquanto o sérvio misturava as bolinhas marrons do tamanho de cabeças de alfinete no ácido diluído, esmagando-as e mexendo até se dissolverem. Quando João saiu do banho, preparou um cone gigante: "eu preciso". Quando terminaram de fumar, conversando sobre a batalha burocrática que João não pudera vencer  no compromisso da tarde, já era hora da segunda etapa: com uma pipeta, Miroslav transferiu a solução para outro vidro. "Tá vendo esse resíduo sólido? É sujeira que nego manda pra dentro", João disse. O amigo eslavo adicionou então hidróxido de amônio à solução, deixando-a branca, acrescentando então etil-éter e chacoalhando vigorosamente. Era preciso esperar, então desceram para comprar mais cerveja e ver o movimento, estava terminando de anoitecer. "Cara, estou tão ansioso", Flávio afirmava o óbvio: uma constante excitação e um sorriso bobo o denunciavam. Encontraram brasileiros no mercado, e ele não se conteve: "a gente vai tomar nos canos!"; a reação dos amigos foi de clara mas silenciosa desaprovação, os compatriotas só aconselharam cuidado. Voltaram, era hora de retirar a água e adicionar nova solução de ácido clorídrico, de mexer com vontade e, mais uma vez, esperar a decantação. João tirou o rock'n'roll da playlist (tocava The Who) e voltou ao jazz extremo. Isso deve ter distraído Miroslav, que esbarrou no béquer e quase põe tudo a perder. Refeitos do susto, Flávio pediu para participar da feitiçaria: teria que transferir com a pipeta o líquido do fundo do recipiente para uma placa de Petri, e não decepcionou. Descobriram então que além do ácido que João sofrera tanto para adquirir, faltava o fermento em pó, mas isso se resolveu em nova ida ao mercado, ao qual foram tranquilamente pitando mais um. Bem, não tão tranquilamente no caso de Flávio, cada vez mais nervoso. Chegaram de volta e só faltava realmente essa última etapa: o fermento fez a solução borbulhar, e um secador de cabelo eliminou a umidade, após o que restou apenas heroína e sal de cozinha. "A quantidade é um quarto do original, imagina injetar esse lixo todo", observou Miroslav. Flávio esfregava as mãos. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XVI


Ele aproveitou para comprar tabaco, e reclamou pois não havia onde sentar para ler e tomar um café, fumando, por isso fumou um cigarro em pé e subiu para a Praça, onde conseguiu uma cerveja e atacou o Bukowski que estava começando. Voltou a descer minutos antes da hora marcada, fumou e subiu para encontrar Cláudia sentada em uma mesa do canto. Ela estava ligeiramente menos perua do que de costume, em um vestido simples e sem muita maquiagem. Seu nariz era bem desenhado e as sobrancelhas altas davam um ar altivo à cinquentona.

_ Cláudia Albuquerque, que prazer revê-la.
_ Igualmente, seu canalha.
_ Como?!
_ É o que quer dizer seu nome, não? Eu pesquisei sobre você, e tudo que descobri foi isso. Que espécie de piada é essa?
_ Calma, Cláudia. É só um elemento de estilo. Eu leio muita história de detetive, deve ser isso. Você foi a primeira a me ganhar, parabéns.
_ Espero não ter feito a escolha errada, Hal, ou seja lá como você se chama.
_ Vamos ficar com Halunke, Hal, como queira.
_ E o que você tem pra mim?
_ Ah! – sacando o telefone.
_ Sua câmera é seu celular? Não acredito.
_ Celulares são muito mais discretos, e este tem setenta megapixel.
_ Não fala bobagem.
_ Sei lá, tem muitos, pode ficar tranquila. Aqui, é esta a foto.

Cláudia tomou o aparelho e levou alguns instantes antes de soltar uma gargalhada. Hal, angustiado, não conseguia extrair dela uma explicação, até que o riso deu uma trégua.

_ É a sobrinha dele!
_ E ele está tendo um caso com ela?
_ Um certo tipo de caso, ela é a líder do comitê de crise que ele montou.
_ Então isso aqui não vale nada?
_ Não para mim.

Halunke bebeu o resto da cerveja de um gole só, esfregou as mãos, nervoso. Precisava de uma estratégia matadora para resolver o caso, pôr algum no bolso e aplacar o agiota. Recobrou a calma e pôs-se a interrogar a cliente.

_ Qual tem sido a rotina do seu marido?
_ Bom, ele quase não fica em casa, se divide entre o Senado e o escritório.
_ Você não me falou sobre um escritório.
_ Puxa, é mesmo. Perdão, foi um lapso.
_ Eu preciso de toda a informação.
_ Toma este cartão aqui, tem o endereço. É no setor de autarquias.
_ Ele usa os carros particulares?
_ Muito pouco. Mas eu tenho uma boa notícia: hoje ele saiu na caminhonete, porque o motorista do Senado está de licença.
_ Isso é ótimo. Me diz, a que horas ele tem voltado?
_ Lá pelas nove.
_ Certo. Eu vou acompanhar o rastreador, você dê um jeito de forçá-lo a usar a caminhonete.

Despediram-se com dois beijinhos e um meio abraço que os unia pelo pescoço, Halunke podia sentir o perfume da socialite, que era forte demais, e a maciez apreciável da pele daquela mulher madura. Ela ainda cravou os olhos verdes nos dele, fez um comentário sobre o traço que ambos compartilhavam e virou-se para ir. Ele aproveitou para perguntar sem olhá-la de frente:

_ Será que eu não consigo mais um adiantamento?
_ Mas... Hal, foi combinado que...
_ Bom, eu trouxe alguma foto, não? Quer dizer que estamos progredindo. Eu vou ganhar o senador, é questão de tempo. Se eu não ganhar, fica claro que era só uma suspeita sua, e eu recebo mesmo assim.
_ Como assim?!
_ É só a praxe do ramo.
Ela levou a mão ao queixo, pensou, suspirou e alcançou a carteira francesa donde sacou cinco garoupas.
_ Tá bom assim?
_ Ótimo. Mais uma coisa.
_ Sim?
_ Vocês têm um imóvel no Ilhas do Lago?
_ Não que eu saiba. Ele tem inúmeros, sabe. Mas ele costuma ir lá, na casa do Alfredo, um assessor, por quê?
_ Nada, talvez eu tenha me precipitado. Muito obrigado, Cláudia. Não vou te decepcionar.

Desceu e descobriu que estava chovendo forte, felizmente não faltavam ambulantes vendendo guarda-chuvas e ele enfim comprou o seu. Passando pela Rodoviária, comprou o jornal, que trazia o senador Macieira na capa. Era uma nova denúncia que surgia, de que o oligarca usava trabalho escravo em suas fazendas. Boa gente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XV


Hal parou bloqueando a coleta de lixo e achou o bloco de Âmbar. A entrada tinha um intercomunicador, ele apertou o botão; faltavam dois minutos para meio-dia. Ela acionou a abertura da porta e ele subiu. Era uma kitinete na sobreloja de um bloco comercial, onde moravam basicamente estudantes, e ele cruzou com uma morena linda, estilo sério, que o olhou com uma expressão de desprezo. Bateu na porta com os nós dos dedos e a moça abriu. Ela usava jeans e uma camiseta azul, as tranças haviam sido desfeitas e ela estava ainda mais bonita.

_ Tudo bem?
_ Tudo, claro.
_ O que é isso no seu olho?
_ Não foi nada... a porta do armário, eu... dei uma pancada.
_ Vem cá, vamos pôr gelo.
_ Poxa, Âmbar, você é um anjo.
_ Para com isso. A tradução, deu muito trabalho?
_ Não, depois que você se acostuma com o jargão oficial, é mais fácil.

Ele entregou o CD e ela o pôs no computador, que ficava em uma mesa repleta de todo tipo de objeto. Abriu os arquivos, fingiu inspecionar o trabalho e sorriu satisfeita.

_ Tem um resto de vinho aí.
_ Você não estava com pressa?
_ Cinco minutos, eu tenho.

Serviu duas taças e sentaram-se no sofá encardido, lado a lado. Ele se escorava no encosto de cabeça, torcendo a coluna para vê-la. Ela abriu a bolsa, retirou a carteira e entregou duas garoupas a Hal.

_ Você está com sorte, eu tinha sacado dinheiro.
_ É melhor minha sorte melhorar mesmo – e apontou para o olho inchado.
_ Lembrei de você outro dia, nós vamos tocar uma peça do Mussorgsky.
_ Na sexta?
_ Não, sexta nós vamos tocar Cage e Varèse.
_ Eu vou estar lá – disse, erguendo as sobrancelhas em aprovação – não perderia por nada.
_ Então você é amigo do pai da Simone. Você é de Anápolis, também?
_ Eu morei lá um período.
_ Você sabe então que ela fugiu de casa?
_ Não... de verdade? – parecendo surpreso.
_ Você não vai entregar o paradeiro dela, vai?
_ Não teria por que fazer isso.
_ Eu confio em você. Escuta, na sexta à noite eu vou reunir algumas pessoas aqui, para uma espécie de despedida. Você está convidado.
_ Puxa, fico muito feliz, virei sim – e, olhando em volta, perguntava-se quantas pessoas caberiam ali.
_ Agora acho que tenho que ir.

Ele terminou de tomar o vinho, pediu licença para fazer um cigarro, e os dois desceram a escada, ele inventando uma viagem a Viena que nunca fizera, e enfim se despediram. Ele foi até o carro, pegou o eixão e em pouco tempo estava na pensão. Encontrou a mãe na copa, ajudando a outra velha a preparar uma salada.

_ Filho, o que é isso?!
_ Calma, mãe, não é nada.
_ Como nada, você levou um murro.
_ Não, mãe, foi só um acidente.

Ela o olhou, inquisidora, e pegou-o por uma das orelhas.

_ Você tá metido em encrenca, eu sei.
_ Fica tranquila, vai. Nós não íamos almoçar fora?
_ Estou só ajudando a Gervásia, mas não mude de assunto.
_ Eu explico depois, vamos lá?

Halunke escolheu um restaurante mais caro, mas não demais, certo de que sua mãe pagaria, e calhou de ser um de comida chinesa. Sentaram-se e pediram cerveja e água, enquanto olhavam o cardápio.

_ Quem fez isso com você?
_ Um colega, mãe. Você quer a verdade? Eu sacaneei um colega, e ele veio atrás de mim. Mas já passou, bola pra frente. Mas afinal, você veio para ficar quanto tempo?
_ Três meses, enquanto sua irmã estiver no exterior.
_ Vai ficar na pensão, então.
_ Filho, por que você não abre o jogo? Estava na cara que você estava mentindo.
_ Tá bom, mãe, eu não sou professor universitário, eu trabalho como investigador particular, e as coisas não vão muito bem. Mas eu estou em um caso, dois na verdade, está tudo melhorando.
_ Você pode confiar na sua mãe, Jonas, pode dizer a verdade.
_ A verdade, mãe? A verdade é que eu sou o único da família nesta merda.
_ A gente pode te ajudar.
_ Eu não quero mãe. Não quero você me ajudando, não quer o pai me ajudando.
_ Não me fale nele.
_ Não quero Nádia me ajudando, não quero ninguém me ajudando. Eu já estou me recuperando, e em pouco tempo, se tudo der certo, eu devo estar no Caribe tranquilo.
_ E sozinho.
_ Sozinho, mãe, é a minha natureza.
_ E essa moça de quem você comentou?
_ Não é nada sério.
_ Alguma coisa é séria pra você?
_ Olha mãe, eu só não te mando...

Ela estendeu a mão e a pousou sobre a do filho, mantendo silêncio por uns instantes. Fizeram o pedido e dona Ivone passou a narrar mil histórias banais de Holambra, às quais ele fingiu interesse. A comida veio, estava muito boa, e ela afinal pagou a conta. Hal a deixou na pensão e dirigiu até o Conjunto, poderia ler um pouco antes do encontro marcado.

Na Trilha Certa XIV


Outra vantagem de ter Zaira por perto era a comida de primeira que ela tinha sempre pronta logo de manhã. Por sorte a padaria era bem perto. Hal tomou café antes de fumar pela primeira vez em muito tempo, e despediu-se colocando na cabeça o chapéu. Ela o atacou e em instantes estavam no quarto mais uma vez. Na segunda tentativa, Hal conseguiu descer pelo elevador e procurar o carro no estacionamento, avaliando os danos da pancada da noite anterior, uma lanterna foi pro espaço e a lataria ficou um pouco amassada. Nádia não podia saber. Dirigiu até o escritório, sentou-se atrás da mesa vazia e pôs os pés sobre a mesa. De posse de seu único equipamento, telefonou para a mãe e combinou de buscá-la para almoçarem juntos. Recuperou um número na memória e ligou. Demoraram a atender, mas de repente veio aquela voz tão musical que ele esperava.

_ Âmbar!
_ Quem é?
_ Halunke.
_ Oi! Que que cê manda?
_ Sua tradução está pronta.
_ Que ótimo!
_ Eu acabei dando uma prioridade, sabe.
_ Obrigada. E você vai mandar por e-mail?
_ Bom, você tem que me pagar, não?
_ Verdade. Mas hoje eu tenho ensaio. Pode ser amanhã?
_ Eh... pode, na UnB?
_ Peraí, na sexta tem meu recital, você disse que viria.
_ É que na verdade eu já empenhei esse dinheiro, para mim seria melhor, você sabe.
_ Nesse caso, tem como passar aqui em casa antes de meio dia? É na 408, perto da UnB.
_ Posso sim, até mais então.

Ela ainda complementou o endereço antes de desligar. Hal fechou tudo, subiu, e, quando contornou o prédio, uma dor imensa explodiu em seu crânio. Só depois ele entendeu que havia tomado um poderoso cruzado. Cambaleou para trás e foi ao chão. Quando voltou a si, um sujeito ainda mais feio do que forte o segurava pelo colarinho.

_ Você já teve seus quinze dias, caloteiro imundo. Considere isto um aviso: em mais cinco, quebramos suas pernas.
_ Eu vou conseguir hoje, garanto.
_ Então por que fugiu da gente ontem, espertalhão? Achou que ia escapar? Cinco dias. Verme.

O outro que assistia calado veio até Hal, que fora arremessado de volta ao chão, e soltou-lhe uma cusparada. Ambos foram embora tranquilamente. Era uma área pouco movimentada e ninguém pareceu ver a cena. Halunke limpou o rosto com um lenço já imundo, juntou forças para levantar e andou, meio tonto, até o carro mais próximo, em cujo retrovisor pôde ver um olho inchado, já ganhando os primeiros matizes escuros. Encontrou o batmóvel, escorregou para dentro, encontrou uma garrafa d’água e jogou um pouco no rosto. Se corresse, ainda chegaria em tempo. E o sinal no painel indicava que o tanque estava na reserva. 

Na Trilha Cetra XIII


Ainda dentro do carro, fez com dificuldade um cigarro, as mãos tremiam. Acendeu, criou coragem e abriu a porta, saindo do veículo e olhando na direção do beco. Dois brutamontes vinham ao seu encontro. Voltou para o banco do motorista, ligou o carro e engatou a ré em uma fração de segundos. Acertou um carro estacionado do outro lado e achou enfim a saída, sentido a adrenalina ser descarregada. Eles possivelmente o seguiriam. Dirigiu pelas novecentos rumo ao norte, por quatro quadras antes de descer para o eixinho de baixo, ignorando todos os pardais, ainda que nenhum carro pudesse ser visto em seu encalço. Entrou em uma quadra na altura da sete, olhou o relógio: uma da manhã. Tirou o telefone do bolso e ligou, recebendo uma mensagem de insuficiência de créditos. Esteve para lançar o aparelho contra a parede, mas acalmou-se. Procurou a portaria e fez um teatro dizendo que houvera um acidente e que precisava falar com a Zaira imediatamente, desculpando-se pela hora, como se o porteiro ligasse. Ela autorizou sua subida, e ele tomou o elevador.

_ O que houve, Hal? – perguntou ela, visivelmente preocupada.
_ Espera, deixa eu respirar.
_ Eu vou buscar água.
_ Posso dormir aqui? – disparou ele quando ela voltou com o copo.
_ Se me contar o que aconteceu.
_ Tentaram me pegar...
_ Quem?
_ Sei lá, capangas do agiota.
_ Hal, Hal... como você se mete nessa?
_ Eu já estou saindo, é uma questão de tempo.
_ Quer tomar um banho?

Nesse momento, o telefone tocou. Ele esperou para ouvir a música antes de atender. Era o número da pensão, que diabo aquela velha podia querer a essa hora? Certamente os capangas haviam subido... ele se deu conta de que dona da pensão estava em risco.

_ Alô?
_ Jonas?

Que diabo sua mãe estava fazendo na pensão?

_ Mãe, o que você está fazendo aí?
_ Você podia ter dito, filho, que morava em pensão.
_ Como você chegou aí?
_ Eu procurei o endereço que você deu, ele não existia, então eu liguei para o Jorge.
_ Mas eu estava com ele agora há pouco!
_ Eu pedi que guardasse segredo, queria que fosse uma surpresa, mas você não apareceu e eu te liguei, onde você está a esta hora?
_ Estou com minha namorada...
_ Você não me contou sobre isso.
_ Mãe, depois. Eu te disse que não tinha como te receber, minha vida tá meio... movimentada.
_ Eu já conversei com a dona Gervásia, Jonas, tem um quarto vagando semana que vem, até lá eu fico com você.
_ Amanhã a gente conversa, mãe.

Quase ao mesmo tempo em que desligou, Zaira, que estivera no quarto pelo tempo do telefonema, ressurgiu em uma lingerie verde de muito bom gosto, que ia muito bem com seus cabelos nigérrimos. Hal sorriu e pensou no que disse à mãe: essa garota podia ser mesmo sua namorada, por que ele fazia isso? Deve ser instinto, concluiu. Beijou-a com sofreguidão, atrás das orelhas, como ela gostava, e onde mais lhe pareceu conveniente beijar. Ela parecia excitada e passou a retribuir as carícias, quando ele pediu uma pausa para desligar a televisão. Trepar com TV não dá.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XII

Logo após o café e uma espiada no jornal, Hal foi até a lan house, levando o cabo que lutara para desenterrar do meio da bagunça. Conectou o celular ao computador e abriu as fotos. Estavam uma porcaria, é claro, sentiu saudades de sua Nikon, apenas mais um item do equipamento que a pindaíba e as drogas haviam levado. Mas ainda era possível distinguir o rosto da socialite e identificar uma situação amorosa. Não chegava a ser um grande feito, não até que surgisse utilidade para as fotos, ao menos, mas era uma carta na manga. Pesquisou então pelo nome artístico da filha do empresário, havia pequenos artigos sobre a peça, apenas mais uma do circuito semi-profissional da capital. Mas ela não aparecia em nenhuma das fotografias. Fez uma busca de imagens, nada; tentou o nome verdadeiro. A principal imagem era a que circulou nos jornais quando de seu sumiço, ela era muito jovem, toda produzida, com brilho e maquiagem excessivos, era provavelmente de sua festa de debutante. Ela tinha um sorriso pouco sincero estampado no rosto, talvez a festa tenha sido uma imposição. Hal lançou um olhar em volta e visitou sua páginas "adultas", usando o banheiro antes de pagar e voltar para a pensão.

Ligou o rastreador, a caminhonete havia saído, mas o deslocamento até o comércio local certamente não havia sido feito por ele. Pelo menos era possível saber que estava funcionando. De qualquer forma, conseguir alguma coisa com o aparelho seria um golpe de sorte, Hal pensava, e o mais indicado agora seria recorrer aos velhos métodos. Mas é loucura, deteve-se, o homem com um escândalo nas costas, sua segurança deve estar triplicada. Foi considerando todas as possibilidades de ação que desceu até o PF, almoçou e voltou para buscar o carro. A fita escolhida foi Kind of Blue. Quando desceu a escada para seu escritório, já tinha um plano delineado na mente. A luz estava funcionando, a água ainda estava cortada, e com uma hora de trabalho o lugar ficou bastante apresentável. Ele havia saído de casa com roupas velhas para a tarefa, e voltou à pensão para se trocar. Pôs o terno e até, coisa que não costumava, uma gravata, também preta. Desceu para a L4, indo até a N2, onde ficava a saída do estacionamento do Senado. Estacionou em local proibido, mas teve sorte e surgiu uma vaga em poucos minutos. Em uma hora, viu cinco carros de senador saírem, nenhum era o Macieira. Segundo sua esposa, ele chegava em casa entre seis e oito da noite, então aquela era a hora em que ele sairia se fosse encontrar uma amante. Talvez ele tenha descontinuado os encontros em meio à crise, teorizava. De repente surge o veículo preto com o número 53 que Hal esperava. O senador não estava no banco do passageiro e era impossível ver o traseiro. O motorista tomou o rumo oeste, caminho oposto ao da casa do casal. Hal seguiu o veículo oficial com um carro entre eles, que virou no balão adiante. O detetive tentava não ficar muito próximo nem perder o rastro da presa nos semáforos, à medida que tomavam o Eixo Monumental e entravam no Sudoeste. O motorista por fim entrou em uma quadra e encostou em um bloco de luxo; Halunke estacionou de modo a observar a cena pelo retrovisor. Uma morena espetacular, de porte elegante e com não mais que trinta e cinco, vestindo um tailleur cinza e um lenço rosado no pescoço sai pela porta de vidro e se encaminha ao carro do senador. Agora era o momento crucial: Hal teria que sair do carro e apontar o celular para a cena, mas ser percebido, mesmo pelo motorista, era muito arriscado. Depois de hesitar por frações de segundo, Hal acionou a maçaneta, saltou do carro, virou-se sobre o calcanhar e ergueu o braço, disparando a câmera quase sem olhar o visor, tudo muito rapidamente, acendendo um cigarro para disfarçar. O carro 53, que, ele pensava agora, tinha o mesmo número do célebre fusca Herbie, deixou o estacionamento lentamente, mas parecia não se importar com Hal, que terminou de fumar e telefonou para Cláudia.

_ Halunke!
_ Como vai a senhora?
_ Sem essa de senhora.
_ Certo, você. Você vai gostar da novidade que eu tenho.
_ Pegou o homem?
_ Quase. Podemos almoçar amanhã?
_ Difícil. Mais tarde é melhor.
_ Às quatro no Conjunto, como da primeira vez?
_ Tudo bem. Qualquer coisa eu ligo.

Hal entrou no carro e dirigiu até o Bar Brasília na Asa Sul, pensando na sorte de conseguir alguma coisa, pouca que fosse, sem ser incomodado, e logo na primeira tentativa. A fita entrava na seção extra, de Coltrane, e ele estacionou no instante em que acabava Blue Train, ele adorava quando isso acontecia. Pensou em ligar para Jorje, mas desistiu, resolvendo beber em silêncio. Entretanto, voltou a pensar no amigo quando a segunda cerveja disparou a fissura. O amigo nem fumava durante a semana, e, talvez por isso mesmo, sempre tinha um em casa. Ligou, combinou de ir até o apartamento do outro, pagou a conta e dirigiu poucos minutos até chegar, subir e ser recebido com um baseado pronto. Conversaram, Hal mostrou a foto que conseguira e que, ele esperava, valia quatro barões. Jorge parabenizou o colega e confessou estar perdido em seu próprio caso, Hal o tranquilizando: às vezes é assim mesmo. Voltava feliz da vida para casa, mas quando estacionou perto da pensão notou um par de vultos no beco. Sabia na mesma hora do que se tratava.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XI

Acordou tarde, estava chovendo. Uma enorme preguiça o tomava; e, pior, não fazia ideia de por onde começar. Recolheu forças para levantar e passar um café, um jornal tinha sido deixado na mesa da copa, ele  se pôs a examiná-lo. Havia uma nota sobre a abertura da CPI e um perfil biográfico do parlamentar, indicando inclusive denúncias anteriores, mas nada que acrescentasse muita coisa. Subiu, ligou o rastreador: o veículo permanecera parado. O senador deveria voltar hoje, então a probabilidade de um encontro com uma hipotética amante seria alta à noite. Hal precisava ficar muito atento. Havia estiado, caminhou até a lan house e acabou mais vendo besteira do que trabalho; estava já disposto a desligar quando chegou uma mensagem, era do Aranha. Dizia que havia pesquisado e a maior parte dos imóveis parecia ser legítima, mas havia um flat no nome de um irmão de um assessor, que nem mora na cidade, e esse era o único um tanto suspeito. Dava todo o endereço, era no Ilhas do Lago. Maravilha, já tenho alguma coisa. Respondeu prometendo pagar uma cerveja.

Ligou para a ex-mulher, no velho telefone que fora o seu. Atendeu a Sílvia, Hal fez um pouco de atenção a ela antes de perguntar por Nádia, que por fim atendeu.

_ Diga, Hal.
_ Oi, Nádia, como vai?
_ Que foi dessa vez, bateu o carro?
_ Ei, calma! Não aconteceu nada, eu só pensei se podia passar aí, ver se eu acho as fitas.
_ Fitas?!
_ Você sabe, música.
_ Você é inacreditável, Hal. Já disse mil vezes pra levar essa tralha toda embora.
_ Quando eu tiver espaço. E o usurpador tá aí?
_ Já te pedi que não... vai, vem logo, mas nem me incomode, estou trabalhando. Vou avisar a Sílvia.

Caminhou de volta para a pensão, molhando-se um pouco, e dirigiu até o Lago Norte sem pressa. Tocou a campainha e foi recebido pela empregada, que o conduziu até a edícula como se ele não houvesse crescido na casa, ou como se temesse por seu comportamento. Teve que revirar toda sua bagunça até achar a sacola com os cassetes gravados duas décadas atrás. A maior parte era erudita, mas havia também jazz, blues, e Beatles. Ele voltou para a cozinha, onde Sílvia tirava um bolo do forno, fez um comentário elogioso sobre a comida outro dia e foi recompensado com mais um prato, o que ele tivera em mente desde sempre. Pegou o carro e dirigiu até um shopping ali perto, entrou e conferiu a programação do cinema. Havia um que dava pra arriscar, começando em meia hora. O filme de fato não era tão ruim, tomou um café ao sair e preparou um cigarro para fumar lá fora. Consultou o bloco tomou o caminho do Park Way, quando se lembrou que precisava passar na pensão. Estacionou, subiu e buscou o rastreador; desceu e tomou a W3. A primeira fita que escolhera era Stravinski e o Rito da Primavera se desenvolvia dentro do Monza enquanto a chuva desabava lá fora e antecipava a noite.

Chegou ao endereço desejado, passou em frente à casa de dois pavimentos que se via lá no fundo de um terreno enorme, arquitetura sóbria e de bom gosto. Escolheu um ponto donde podia observar a movimentação na casa do senador sem ser notado. E esperou. Repassou todas informações das notas, fumou mais do que de costume preencheu as cruzadas que roubara do jornal, e nada acontecia fora os carros chegando nas outras casas. De repente, o portão se abre, e logo se vê um modelo compacto importado sair, com filmes tão escuros que é impossível enxergar dentro. O carro sai na direção oposta à de Hal, que espera um pouco e o segue; o rastreador será inútil, o mini não pode sair de vista. Hal mantém uma certa distância até chegarem ao balão do aeroporto, onde um carro se interpõe entre os dois, o que pareceu conveniente a Hal. Essa situação se prolongou até o eixinho, quando o mini pegou a tesourinha na 13/14 e acabou entrando na 113 e parando embaixo de um bloco. Hal desceu do carro e ficou encostado a uma árvore, fumando. De repente sai da entrada do bloco um coroa usando um pullover no meio do verão, e do carro sai ninguém menos que Cláudia Albuquerque, toda produzida, linda. Hal faz fotos dos dois se beijando com seu celular, entra no carro e vai dali diretamente ao Beirute. Joga o chapéu sobre a mesa, dobra o paletó e o joga por cima do banco. Liga para Jorge.

_ Diga, Hal.
_ Jorjão, eu tentei seguir o senador e imagina quem eu ganhei?
_ O madame.
_ É claro, pulando a cerca também.
_ E o que você vai fazer?
_ Vem pro Beira.
_ Tá bom.

Enquanto esperava, Hal pagou a conta, comprou maconha com os noias da quadra e voltou. Demorou um cigarro para Jorge aparecer.

_ Você disse cara, essas coroas sempre têm seu amante. E como isso muda seu caso?
_ Não sei, será que ele não quer pagar por isso? A grana é toda dele afinal.
_ Mas você é um canalha, mesmo.
_ De modo algum, o investigador particular deve analisar o cenário e escolher a opção mais vantajosa. Como vai sua fugitiva?
_ Andando em círculos. Talvez ela estivesse só passando por Brasília quando ligou, talvez não more aqui.
_ Não desista. Não tem ido aos teatros?
_ Não, eu tenho focado lugares de elite, foi sua dica.
_ Não me leve tão a sério, Jorjão.

O outro fitou o nada, pensativo, por um instante. Beberam mais duas garrafas e Hal voltou para casa, fumando no velho beco, agora com a seda que comprou no Conjunto.

Nos Canos II

Sentado no Sofá, Flávio segurava ansioso o cachimbo de vidro, João logo ao seu lado. Criou coragem e acendeu o isqueiro, dando uma boa tragada. João estava pronto para segurar o cachimbo, que ele abandonou ao colapsar e apagar por alguns segundos. A primeira coisa que sentiu foi um gosto ruim, depois sua cabeça turbilhonou e ele pareceu atravessar algum portal, sentiu uma nítida descontinuidade no tempo e no espaço. Ele se achava agora no que parecia ser outro planeta, em que tudo parecia ter cores vivas e formas psicodélicas; as pessoas eram como os humanos, exceto pelas cores da pele e do cabelo. Aos poucos foi ficando claro que ele estava no meio de uma movimentada metrópole, e ele decidiu pedir informações, embora não soubesse exatamente quais, a uma senhora que passava. Não soube em que língua falava, na verdade nem sentia ser ele mesmo. A senhora respondeu algo que ele entendia de alguma forma, mas não fazia nenhum sentido, e ele percebeu que se tratava na verdade uma das bruxas de Macbeth. As cores ficaram mais intensas, começaram a dançar e a se mesclar até evoluir para um branco completo. Flávio dormiu cerca de trinta segundos, tempo em que coube toda sua viagem, e acordou sobressaltado, levantando como se feito de molas. "Quem são vocês? Onde estou? Quem sou eu?" Os outros caíram na gargalhada, Flávio pareceu confuso por mais um minuto, até que foi recobrando sua experiência fora do mundo.

"E aí, foi bom?", "Estou meio tentando entender, mas foi lindo". Flávio tentou explicar o que viu, inventando detalhes. A essa altura, uma dose já estava pronta para João, ficando o amigo encarregado de aparar o cachimbo. Ele apagou por uns quinze segundos, acordou com um olhar perdido. "Você tá bem?", "Cara, sim, é só que... a sálvia sempre faz isso comigo". "Isso o que?", "Não sei explicar". Miroslav se aproximou, perguntou se estava tudo bem, foi com João até a cozinha para tomar um suco. Flávio estava assustado, a ideia toda tinha sido dele. Em pouco tempo João estava ótimo e fazendo um beque enquanto tranquilizava o amigo. "Não foi exatamente uma bad, foi mais uma trip estranha, e é muito frustrante não conseguir entender nada". Fumaram ao som de Zappa e desceram os três pela escada, terminando a ponta. Os bares por perto eram muito caros, então eles caminharam até um supermercado; a cerveja não vinha muito gelada, mas saía mais em conta. Voltavam com os dois pacotes quando foram abordados por um sujeito magro de jeans e jaqueta preta. Era uma rua escura, ao longo de um canal. "Coca, ácido, herô?" Os amigos se entreolharam, depois olharam para Miroslav, que acabou inspecionando o produto e dando de ombros. "O risco é seu, eu tenho um canal de coisa boa, mas nada garante que eu consiga amanhã". Flávio desembolsou trinta euros e sorriu ao guardar o saquinho com bolinhas amarronzadas, o traficante não sorriu de volta.

Tomaram uma cerveja assistindo televisão, um programa holandês que não podiam entender mas seguia sendo engraçado de tão absurdo, algo entre uma homenagem e uma paródia de todos os clichês do programa de auditório, Flávio contava sobre um programa brasileiro em que o apresentador jogava bacalhau para a plateia. A cerveja já estava bem gelada, puseram algumas em um saquinho e saíram caminhando até o Rembrandtpark, que não era tão perto, mas era bastante agradável e reservado. "João, como é esse processo de purificação? A gente precisa comprar alguma coisa?", quem respondeu foi o Sérvio: "Fica tranquilo, eu tenho toda a vidraria e a maior parte dos reagentes. Acho que precisa comprar ácido clorídrico, apenas." João então interveio: "Isso vende em farmácia, amanhã a gente compra. Se fizer o processo à tarde, à noite a gente, ou vocês, tomam nos canos". "Você prometeu a quem nunca mais fazer?", "A uma amiga, e a mim mesmo... essa é uma onda sombria, cara; ópio é muito mais doce". "Nossa, é mesmo, foi uma experiência muito boa, onírica, leve. Eu só quero tomar uma dose mesmo, como você". "Eu usei três vezes". "E como foram?", "É como... mesmo que eu estivesse em um barril de merda, ainda estaria me sentindo bem. É um atalho para os circuitos do prazer, é como se cada célula do seu corpo sentisse prazer". Chegaram ao parque, abordaram certa árvore que já conheciam e a subiram. Lá em cima João apertou outro beque. "Amanhã eu vou comprar um tanto e ponho também", "Relaxa, e cuidado pra sair daqui com alguma coisa". "O controle está cada vez mais estrito", interveio o sérvio. Terminaram de fumar falando sobre planos para o futuro próximo, concluíram que ninguém estava bem certo de nada. Flávio insistiu que João passasse no Rio quando fosse ao Brasil, o outro prometeu tentar. Abriram cada um mais uma cerveja e voltaram caminhando, indo direto deitar ao chegar ao apartamento, Flávio no sofá e os dois no quarto.

Acordaram com o sol mais ou menos quente, comeram o pouco pão e queijo que acharam, Miroslav, já há muito no trabalho, havia feito café. Fumaram cada um um cigarro, discutindo o dia: João tinha o tal compromisso na entidade que lhe conferia a bolsa, Flávio ia ao Museu Van Gogh, mas apenas depois de visitar um coffee-shop. "Por falar nisso...", Flávio pediu autorização para fazer um fino. "Você compra o ácido clorídrico?", "Poxa, fica bem fora do meu caminho. É perto dos museus, não quer passar lá?" Pesquisaram o endereço, que Flávio anotou. "E não se preocupe, todo mundo fala inglês", "Eu já estive aqui". Saíram cada um para um lado, Flávio com o mapa dos coffee-shops. Queria conhecer um novo, e não seria difícil, havia muitos na região; um nome lhe agradou: Stoner's Extravaganza, entrou. A decoração era um misto de EUA dos 50 e OVNIs-futurismo. A trilha sonora estava muito boa, um jazz-rock com turntables, um barítono solava tonitruante. Ficou em frente ao balcão admirando os spacecakes e spacebrownies, logo em seguida foi cumprimentado pela atendente, que ofereceu o cardápio. Ele pediu uma água e se sentou, analisando as opções. O cardápio tinha várias alternativas; mais uma vez foram os nomes que o atraíram, especialmente dois: Ambrosia e Aurora Borealis, ambas 50-50 indica e sativa; acabou no entanto optando pela tradicional White Widow, que ele conhecia quase que de nome. Preparou um fino, com tabaco, e acendeu; era o primeiro do dia, então a sensação era bem mais intensa, e aquela onda era muito boa. Ficou alisando a fórmica da mesa, enfeitiçado. Não precisou fumar nem metade, guardou a baga no saquinho de tabaco, aproveitou para fazer um careta e sair fumando. Optou por ir caminhando até o museu, para viver mais a cidade. Antes de entrar, contornou o museu até um pequeno parque e deu mais umas bolas. Achou fantástico o museu, que deixara de visitar da outra vez. Faltava pouco para as quatro quando chegou embaixo do bloco de Miroslav. Esquecera-se do ácido.