quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XI

Acordou tarde, estava chovendo. Uma enorme preguiça o tomava; e, pior, não fazia ideia de por onde começar. Recolheu forças para levantar e passar um café, um jornal tinha sido deixado na mesa da copa, ele  se pôs a examiná-lo. Havia uma nota sobre a abertura da CPI e um perfil biográfico do parlamentar, indicando inclusive denúncias anteriores, mas nada que acrescentasse muita coisa. Subiu, ligou o rastreador: o veículo permanecera parado. O senador deveria voltar hoje, então a probabilidade de um encontro com uma hipotética amante seria alta à noite. Hal precisava ficar muito atento. Havia estiado, caminhou até a lan house e acabou mais vendo besteira do que trabalho; estava já disposto a desligar quando chegou uma mensagem, era do Aranha. Dizia que havia pesquisado e a maior parte dos imóveis parecia ser legítima, mas havia um flat no nome de um irmão de um assessor, que nem mora na cidade, e esse era o único um tanto suspeito. Dava todo o endereço, era no Ilhas do Lago. Maravilha, já tenho alguma coisa. Respondeu prometendo pagar uma cerveja.

Ligou para a ex-mulher, no velho telefone que fora o seu. Atendeu a Sílvia, Hal fez um pouco de atenção a ela antes de perguntar por Nádia, que por fim atendeu.

_ Diga, Hal.
_ Oi, Nádia, como vai?
_ Que foi dessa vez, bateu o carro?
_ Ei, calma! Não aconteceu nada, eu só pensei se podia passar aí, ver se eu acho as fitas.
_ Fitas?!
_ Você sabe, música.
_ Você é inacreditável, Hal. Já disse mil vezes pra levar essa tralha toda embora.
_ Quando eu tiver espaço. E o usurpador tá aí?
_ Já te pedi que não... vai, vem logo, mas nem me incomode, estou trabalhando. Vou avisar a Sílvia.

Caminhou de volta para a pensão, molhando-se um pouco, e dirigiu até o Lago Norte sem pressa. Tocou a campainha e foi recebido pela empregada, que o conduziu até a edícula como se ele não houvesse crescido na casa, ou como se temesse por seu comportamento. Teve que revirar toda sua bagunça até achar a sacola com os cassetes gravados duas décadas atrás. A maior parte era erudita, mas havia também jazz, blues, e Beatles. Ele voltou para a cozinha, onde Sílvia tirava um bolo do forno, fez um comentário elogioso sobre a comida outro dia e foi recompensado com mais um prato, o que ele tivera em mente desde sempre. Pegou o carro e dirigiu até um shopping ali perto, entrou e conferiu a programação do cinema. Havia um que dava pra arriscar, começando em meia hora. O filme de fato não era tão ruim, tomou um café ao sair e preparou um cigarro para fumar lá fora. Consultou o bloco tomou o caminho do Park Way, quando se lembrou que precisava passar na pensão. Estacionou, subiu e buscou o rastreador; desceu e tomou a W3. A primeira fita que escolhera era Stravinski e o Rito da Primavera se desenvolvia dentro do Monza enquanto a chuva desabava lá fora e antecipava a noite.

Chegou ao endereço desejado, passou em frente à casa de dois pavimentos que se via lá no fundo de um terreno enorme, arquitetura sóbria e de bom gosto. Escolheu um ponto donde podia observar a movimentação na casa do senador sem ser notado. E esperou. Repassou todas informações das notas, fumou mais do que de costume preencheu as cruzadas que roubara do jornal, e nada acontecia fora os carros chegando nas outras casas. De repente, o portão se abre, e logo se vê um modelo compacto importado sair, com filmes tão escuros que é impossível enxergar dentro. O carro sai na direção oposta à de Hal, que espera um pouco e o segue; o rastreador será inútil, o mini não pode sair de vista. Hal mantém uma certa distância até chegarem ao balão do aeroporto, onde um carro se interpõe entre os dois, o que pareceu conveniente a Hal. Essa situação se prolongou até o eixinho, quando o mini pegou a tesourinha na 13/14 e acabou entrando na 113 e parando embaixo de um bloco. Hal desceu do carro e ficou encostado a uma árvore, fumando. De repente sai da entrada do bloco um coroa usando um pullover no meio do verão, e do carro sai ninguém menos que Cláudia Albuquerque, toda produzida, linda. Hal faz fotos dos dois se beijando com seu celular, entra no carro e vai dali diretamente ao Beirute. Joga o chapéu sobre a mesa, dobra o paletó e o joga por cima do banco. Liga para Jorge.

_ Diga, Hal.
_ Jorjão, eu tentei seguir o senador e imagina quem eu ganhei?
_ O madame.
_ É claro, pulando a cerca também.
_ E o que você vai fazer?
_ Vem pro Beira.
_ Tá bom.

Enquanto esperava, Hal pagou a conta, comprou maconha com os noias da quadra e voltou. Demorou um cigarro para Jorge aparecer.

_ Você disse cara, essas coroas sempre têm seu amante. E como isso muda seu caso?
_ Não sei, será que ele não quer pagar por isso? A grana é toda dele afinal.
_ Mas você é um canalha, mesmo.
_ De modo algum, o investigador particular deve analisar o cenário e escolher a opção mais vantajosa. Como vai sua fugitiva?
_ Andando em círculos. Talvez ela estivesse só passando por Brasília quando ligou, talvez não more aqui.
_ Não desista. Não tem ido aos teatros?
_ Não, eu tenho focado lugares de elite, foi sua dica.
_ Não me leve tão a sério, Jorjão.

O outro fitou o nada, pensativo, por um instante. Beberam mais duas garrafas e Hal voltou para casa, fumando no velho beco, agora com a seda que comprou no Conjunto.

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