quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XII

Logo após o café e uma espiada no jornal, Hal foi até a lan house, levando o cabo que lutara para desenterrar do meio da bagunça. Conectou o celular ao computador e abriu as fotos. Estavam uma porcaria, é claro, sentiu saudades de sua Nikon, apenas mais um item do equipamento que a pindaíba e as drogas haviam levado. Mas ainda era possível distinguir o rosto da socialite e identificar uma situação amorosa. Não chegava a ser um grande feito, não até que surgisse utilidade para as fotos, ao menos, mas era uma carta na manga. Pesquisou então pelo nome artístico da filha do empresário, havia pequenos artigos sobre a peça, apenas mais uma do circuito semi-profissional da capital. Mas ela não aparecia em nenhuma das fotografias. Fez uma busca de imagens, nada; tentou o nome verdadeiro. A principal imagem era a que circulou nos jornais quando de seu sumiço, ela era muito jovem, toda produzida, com brilho e maquiagem excessivos, era provavelmente de sua festa de debutante. Ela tinha um sorriso pouco sincero estampado no rosto, talvez a festa tenha sido uma imposição. Hal lançou um olhar em volta e visitou sua páginas "adultas", usando o banheiro antes de pagar e voltar para a pensão.

Ligou o rastreador, a caminhonete havia saído, mas o deslocamento até o comércio local certamente não havia sido feito por ele. Pelo menos era possível saber que estava funcionando. De qualquer forma, conseguir alguma coisa com o aparelho seria um golpe de sorte, Hal pensava, e o mais indicado agora seria recorrer aos velhos métodos. Mas é loucura, deteve-se, o homem com um escândalo nas costas, sua segurança deve estar triplicada. Foi considerando todas as possibilidades de ação que desceu até o PF, almoçou e voltou para buscar o carro. A fita escolhida foi Kind of Blue. Quando desceu a escada para seu escritório, já tinha um plano delineado na mente. A luz estava funcionando, a água ainda estava cortada, e com uma hora de trabalho o lugar ficou bastante apresentável. Ele havia saído de casa com roupas velhas para a tarefa, e voltou à pensão para se trocar. Pôs o terno e até, coisa que não costumava, uma gravata, também preta. Desceu para a L4, indo até a N2, onde ficava a saída do estacionamento do Senado. Estacionou em local proibido, mas teve sorte e surgiu uma vaga em poucos minutos. Em uma hora, viu cinco carros de senador saírem, nenhum era o Macieira. Segundo sua esposa, ele chegava em casa entre seis e oito da noite, então aquela era a hora em que ele sairia se fosse encontrar uma amante. Talvez ele tenha descontinuado os encontros em meio à crise, teorizava. De repente surge o veículo preto com o número 53 que Hal esperava. O senador não estava no banco do passageiro e era impossível ver o traseiro. O motorista tomou o rumo oeste, caminho oposto ao da casa do casal. Hal seguiu o veículo oficial com um carro entre eles, que virou no balão adiante. O detetive tentava não ficar muito próximo nem perder o rastro da presa nos semáforos, à medida que tomavam o Eixo Monumental e entravam no Sudoeste. O motorista por fim entrou em uma quadra e encostou em um bloco de luxo; Halunke estacionou de modo a observar a cena pelo retrovisor. Uma morena espetacular, de porte elegante e com não mais que trinta e cinco, vestindo um tailleur cinza e um lenço rosado no pescoço sai pela porta de vidro e se encaminha ao carro do senador. Agora era o momento crucial: Hal teria que sair do carro e apontar o celular para a cena, mas ser percebido, mesmo pelo motorista, era muito arriscado. Depois de hesitar por frações de segundo, Hal acionou a maçaneta, saltou do carro, virou-se sobre o calcanhar e ergueu o braço, disparando a câmera quase sem olhar o visor, tudo muito rapidamente, acendendo um cigarro para disfarçar. O carro 53, que, ele pensava agora, tinha o mesmo número do célebre fusca Herbie, deixou o estacionamento lentamente, mas parecia não se importar com Hal, que terminou de fumar e telefonou para Cláudia.

_ Halunke!
_ Como vai a senhora?
_ Sem essa de senhora.
_ Certo, você. Você vai gostar da novidade que eu tenho.
_ Pegou o homem?
_ Quase. Podemos almoçar amanhã?
_ Difícil. Mais tarde é melhor.
_ Às quatro no Conjunto, como da primeira vez?
_ Tudo bem. Qualquer coisa eu ligo.

Hal entrou no carro e dirigiu até o Bar Brasília na Asa Sul, pensando na sorte de conseguir alguma coisa, pouca que fosse, sem ser incomodado, e logo na primeira tentativa. A fita entrava na seção extra, de Coltrane, e ele estacionou no instante em que acabava Blue Train, ele adorava quando isso acontecia. Pensou em ligar para Jorje, mas desistiu, resolvendo beber em silêncio. Entretanto, voltou a pensar no amigo quando a segunda cerveja disparou a fissura. O amigo nem fumava durante a semana, e, talvez por isso mesmo, sempre tinha um em casa. Ligou, combinou de ir até o apartamento do outro, pagou a conta e dirigiu poucos minutos até chegar, subir e ser recebido com um baseado pronto. Conversaram, Hal mostrou a foto que conseguira e que, ele esperava, valia quatro barões. Jorge parabenizou o colega e confessou estar perdido em seu próprio caso, Hal o tranquilizando: às vezes é assim mesmo. Voltava feliz da vida para casa, mas quando estacionou perto da pensão notou um par de vultos no beco. Sabia na mesma hora do que se tratava.

Nenhum comentário: