sábado, 12 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XIV


Outra vantagem de ter Zaira por perto era a comida de primeira que ela tinha sempre pronta logo de manhã. Por sorte a padaria era bem perto. Hal tomou café antes de fumar pela primeira vez em muito tempo, e despediu-se colocando na cabeça o chapéu. Ela o atacou e em instantes estavam no quarto mais uma vez. Na segunda tentativa, Hal conseguiu descer pelo elevador e procurar o carro no estacionamento, avaliando os danos da pancada da noite anterior, uma lanterna foi pro espaço e a lataria ficou um pouco amassada. Nádia não podia saber. Dirigiu até o escritório, sentou-se atrás da mesa vazia e pôs os pés sobre a mesa. De posse de seu único equipamento, telefonou para a mãe e combinou de buscá-la para almoçarem juntos. Recuperou um número na memória e ligou. Demoraram a atender, mas de repente veio aquela voz tão musical que ele esperava.

_ Âmbar!
_ Quem é?
_ Halunke.
_ Oi! Que que cê manda?
_ Sua tradução está pronta.
_ Que ótimo!
_ Eu acabei dando uma prioridade, sabe.
_ Obrigada. E você vai mandar por e-mail?
_ Bom, você tem que me pagar, não?
_ Verdade. Mas hoje eu tenho ensaio. Pode ser amanhã?
_ Eh... pode, na UnB?
_ Peraí, na sexta tem meu recital, você disse que viria.
_ É que na verdade eu já empenhei esse dinheiro, para mim seria melhor, você sabe.
_ Nesse caso, tem como passar aqui em casa antes de meio dia? É na 408, perto da UnB.
_ Posso sim, até mais então.

Ela ainda complementou o endereço antes de desligar. Hal fechou tudo, subiu, e, quando contornou o prédio, uma dor imensa explodiu em seu crânio. Só depois ele entendeu que havia tomado um poderoso cruzado. Cambaleou para trás e foi ao chão. Quando voltou a si, um sujeito ainda mais feio do que forte o segurava pelo colarinho.

_ Você já teve seus quinze dias, caloteiro imundo. Considere isto um aviso: em mais cinco, quebramos suas pernas.
_ Eu vou conseguir hoje, garanto.
_ Então por que fugiu da gente ontem, espertalhão? Achou que ia escapar? Cinco dias. Verme.

O outro que assistia calado veio até Hal, que fora arremessado de volta ao chão, e soltou-lhe uma cusparada. Ambos foram embora tranquilamente. Era uma área pouco movimentada e ninguém pareceu ver a cena. Halunke limpou o rosto com um lenço já imundo, juntou forças para levantar e andou, meio tonto, até o carro mais próximo, em cujo retrovisor pôde ver um olho inchado, já ganhando os primeiros matizes escuros. Encontrou o batmóvel, escorregou para dentro, encontrou uma garrafa d’água e jogou um pouco no rosto. Se corresse, ainda chegaria em tempo. E o sinal no painel indicava que o tanque estava na reserva. 

Nenhum comentário: