sábado, 12 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XV


Hal parou bloqueando a coleta de lixo e achou o bloco de Âmbar. A entrada tinha um intercomunicador, ele apertou o botão; faltavam dois minutos para meio-dia. Ela acionou a abertura da porta e ele subiu. Era uma kitinete na sobreloja de um bloco comercial, onde moravam basicamente estudantes, e ele cruzou com uma morena linda, estilo sério, que o olhou com uma expressão de desprezo. Bateu na porta com os nós dos dedos e a moça abriu. Ela usava jeans e uma camiseta azul, as tranças haviam sido desfeitas e ela estava ainda mais bonita.

_ Tudo bem?
_ Tudo, claro.
_ O que é isso no seu olho?
_ Não foi nada... a porta do armário, eu... dei uma pancada.
_ Vem cá, vamos pôr gelo.
_ Poxa, Âmbar, você é um anjo.
_ Para com isso. A tradução, deu muito trabalho?
_ Não, depois que você se acostuma com o jargão oficial, é mais fácil.

Ele entregou o CD e ela o pôs no computador, que ficava em uma mesa repleta de todo tipo de objeto. Abriu os arquivos, fingiu inspecionar o trabalho e sorriu satisfeita.

_ Tem um resto de vinho aí.
_ Você não estava com pressa?
_ Cinco minutos, eu tenho.

Serviu duas taças e sentaram-se no sofá encardido, lado a lado. Ele se escorava no encosto de cabeça, torcendo a coluna para vê-la. Ela abriu a bolsa, retirou a carteira e entregou duas garoupas a Hal.

_ Você está com sorte, eu tinha sacado dinheiro.
_ É melhor minha sorte melhorar mesmo – e apontou para o olho inchado.
_ Lembrei de você outro dia, nós vamos tocar uma peça do Mussorgsky.
_ Na sexta?
_ Não, sexta nós vamos tocar Cage e Varèse.
_ Eu vou estar lá – disse, erguendo as sobrancelhas em aprovação – não perderia por nada.
_ Então você é amigo do pai da Simone. Você é de Anápolis, também?
_ Eu morei lá um período.
_ Você sabe então que ela fugiu de casa?
_ Não... de verdade? – parecendo surpreso.
_ Você não vai entregar o paradeiro dela, vai?
_ Não teria por que fazer isso.
_ Eu confio em você. Escuta, na sexta à noite eu vou reunir algumas pessoas aqui, para uma espécie de despedida. Você está convidado.
_ Puxa, fico muito feliz, virei sim – e, olhando em volta, perguntava-se quantas pessoas caberiam ali.
_ Agora acho que tenho que ir.

Ele terminou de tomar o vinho, pediu licença para fazer um cigarro, e os dois desceram a escada, ele inventando uma viagem a Viena que nunca fizera, e enfim se despediram. Ele foi até o carro, pegou o eixão e em pouco tempo estava na pensão. Encontrou a mãe na copa, ajudando a outra velha a preparar uma salada.

_ Filho, o que é isso?!
_ Calma, mãe, não é nada.
_ Como nada, você levou um murro.
_ Não, mãe, foi só um acidente.

Ela o olhou, inquisidora, e pegou-o por uma das orelhas.

_ Você tá metido em encrenca, eu sei.
_ Fica tranquila, vai. Nós não íamos almoçar fora?
_ Estou só ajudando a Gervásia, mas não mude de assunto.
_ Eu explico depois, vamos lá?

Halunke escolheu um restaurante mais caro, mas não demais, certo de que sua mãe pagaria, e calhou de ser um de comida chinesa. Sentaram-se e pediram cerveja e água, enquanto olhavam o cardápio.

_ Quem fez isso com você?
_ Um colega, mãe. Você quer a verdade? Eu sacaneei um colega, e ele veio atrás de mim. Mas já passou, bola pra frente. Mas afinal, você veio para ficar quanto tempo?
_ Três meses, enquanto sua irmã estiver no exterior.
_ Vai ficar na pensão, então.
_ Filho, por que você não abre o jogo? Estava na cara que você estava mentindo.
_ Tá bom, mãe, eu não sou professor universitário, eu trabalho como investigador particular, e as coisas não vão muito bem. Mas eu estou em um caso, dois na verdade, está tudo melhorando.
_ Você pode confiar na sua mãe, Jonas, pode dizer a verdade.
_ A verdade, mãe? A verdade é que eu sou o único da família nesta merda.
_ A gente pode te ajudar.
_ Eu não quero mãe. Não quero você me ajudando, não quer o pai me ajudando.
_ Não me fale nele.
_ Não quero Nádia me ajudando, não quero ninguém me ajudando. Eu já estou me recuperando, e em pouco tempo, se tudo der certo, eu devo estar no Caribe tranquilo.
_ E sozinho.
_ Sozinho, mãe, é a minha natureza.
_ E essa moça de quem você comentou?
_ Não é nada sério.
_ Alguma coisa é séria pra você?
_ Olha mãe, eu só não te mando...

Ela estendeu a mão e a pousou sobre a do filho, mantendo silêncio por uns instantes. Fizeram o pedido e dona Ivone passou a narrar mil histórias banais de Holambra, às quais ele fingiu interesse. A comida veio, estava muito boa, e ela afinal pagou a conta. Hal a deixou na pensão e dirigiu até o Conjunto, poderia ler um pouco antes do encontro marcado.

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