terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XVI


Ele aproveitou para comprar tabaco, e reclamou pois não havia onde sentar para ler e tomar um café, fumando, por isso fumou um cigarro em pé e subiu para a Praça, onde conseguiu uma cerveja e atacou o Bukowski que estava começando. Voltou a descer minutos antes da hora marcada, fumou e subiu para encontrar Cláudia sentada em uma mesa do canto. Ela estava ligeiramente menos perua do que de costume, em um vestido simples e sem muita maquiagem. Seu nariz era bem desenhado e as sobrancelhas altas davam um ar altivo à cinquentona.

_ Cláudia Albuquerque, que prazer revê-la.
_ Igualmente, seu canalha.
_ Como?!
_ É o que quer dizer seu nome, não? Eu pesquisei sobre você, e tudo que descobri foi isso. Que espécie de piada é essa?
_ Calma, Cláudia. É só um elemento de estilo. Eu leio muita história de detetive, deve ser isso. Você foi a primeira a me ganhar, parabéns.
_ Espero não ter feito a escolha errada, Hal, ou seja lá como você se chama.
_ Vamos ficar com Halunke, Hal, como queira.
_ E o que você tem pra mim?
_ Ah! – sacando o telefone.
_ Sua câmera é seu celular? Não acredito.
_ Celulares são muito mais discretos, e este tem setenta megapixel.
_ Não fala bobagem.
_ Sei lá, tem muitos, pode ficar tranquila. Aqui, é esta a foto.

Cláudia tomou o aparelho e levou alguns instantes antes de soltar uma gargalhada. Hal, angustiado, não conseguia extrair dela uma explicação, até que o riso deu uma trégua.

_ É a sobrinha dele!
_ E ele está tendo um caso com ela?
_ Um certo tipo de caso, ela é a líder do comitê de crise que ele montou.
_ Então isso aqui não vale nada?
_ Não para mim.

Halunke bebeu o resto da cerveja de um gole só, esfregou as mãos, nervoso. Precisava de uma estratégia matadora para resolver o caso, pôr algum no bolso e aplacar o agiota. Recobrou a calma e pôs-se a interrogar a cliente.

_ Qual tem sido a rotina do seu marido?
_ Bom, ele quase não fica em casa, se divide entre o Senado e o escritório.
_ Você não me falou sobre um escritório.
_ Puxa, é mesmo. Perdão, foi um lapso.
_ Eu preciso de toda a informação.
_ Toma este cartão aqui, tem o endereço. É no setor de autarquias.
_ Ele usa os carros particulares?
_ Muito pouco. Mas eu tenho uma boa notícia: hoje ele saiu na caminhonete, porque o motorista do Senado está de licença.
_ Isso é ótimo. Me diz, a que horas ele tem voltado?
_ Lá pelas nove.
_ Certo. Eu vou acompanhar o rastreador, você dê um jeito de forçá-lo a usar a caminhonete.

Despediram-se com dois beijinhos e um meio abraço que os unia pelo pescoço, Halunke podia sentir o perfume da socialite, que era forte demais, e a maciez apreciável da pele daquela mulher madura. Ela ainda cravou os olhos verdes nos dele, fez um comentário sobre o traço que ambos compartilhavam e virou-se para ir. Ele aproveitou para perguntar sem olhá-la de frente:

_ Será que eu não consigo mais um adiantamento?
_ Mas... Hal, foi combinado que...
_ Bom, eu trouxe alguma foto, não? Quer dizer que estamos progredindo. Eu vou ganhar o senador, é questão de tempo. Se eu não ganhar, fica claro que era só uma suspeita sua, e eu recebo mesmo assim.
_ Como assim?!
_ É só a praxe do ramo.
Ela levou a mão ao queixo, pensou, suspirou e alcançou a carteira francesa donde sacou cinco garoupas.
_ Tá bom assim?
_ Ótimo. Mais uma coisa.
_ Sim?
_ Vocês têm um imóvel no Ilhas do Lago?
_ Não que eu saiba. Ele tem inúmeros, sabe. Mas ele costuma ir lá, na casa do Alfredo, um assessor, por quê?
_ Nada, talvez eu tenha me precipitado. Muito obrigado, Cláudia. Não vou te decepcionar.

Desceu e descobriu que estava chovendo forte, felizmente não faltavam ambulantes vendendo guarda-chuvas e ele enfim comprou o seu. Passando pela Rodoviária, comprou o jornal, que trazia o senador Macieira na capa. Era uma nova denúncia que surgia, de que o oligarca usava trabalho escravo em suas fazendas. Boa gente.

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