quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XVII


Olhou no relógio e concluiu que ainda tinha tempo bastante para trocar a lanterna do carro. Pegou trânsito e chegou à loja de peças, no Setor de Indústrias com menos indústrias de que se tem notícia, minutos antes de descerem as portas. Os funcionários fizeram cara feia, mas um topou o serviço, contando com uma boa gorjeta. Obviamente não conhecia Hal. O aspecto do carro melhorou muito, mas persistia o amassado na lataria, que não era para ele uma prioridade.

De volta à pensão, ligou imediatamente o rastreador, ansioso. A caminhonete importada do senador havia parado em dois pontos: no Setor de Autarquias, certamente seu escritório, e... voilà: no Setor de Hotéis de Turismo, exatamente onde ficava o Ilhas do Lago. Grande Aranha! Acertou na mosca. Excitado, Halunke ligou para Jorge.
_ Meu velho!
_ Como vai essa força?
_ Beleza. Bem, quase tudo.
_ Que houve?
_ Vamos tomar um chope e eu conto as novas, boas ou más, que tal?
_ De leve? Hoje é quarta...
_ Deixa de frescura, Jorjão. Bar Brasília em meia hora?
_ Calma, eu estou... meio ocupado. Vamos marcar às nove?
_ Eu vou estar lá. Até mais.
_ Hasta.
Halunke tomou o jornal e o Bukowski e rumou para o bar, que estava lotado. Era um ambiente mais contido que o Beirute, frequentado basicamente por funcionários, e mais de uma vez Hal pescou uma coroa por lá. Conseguiu uma mesa, pediu um chope e o cardápio, e abriu o jornal. A matéria arrolava todas as velhas práticas dos coronéis, contava como uma determinada fazenda era guardada por um imenso efetivo de jagunços e cercada de mistério. Chegava enfim ao relato de dois trabalhadores que fugiram de lá, cujas dívidas no armazém do próprio latifundiário cresciam mais do que a soja que plantavam, e mal comiam crendo que assim comprariam um dia sua alforria. Enrolou um cigarro e tomou o livro. Parou um instante, tentando recuperar alguma coisa na memória. No caso dos sócios, era justamente uma fazenda do Macieira que era citada. Precisava verificar. Pediu uma porção e leu um capítulo inteiro antes que chegasse o amigo, que se sentou, sinalizou ao garçom com um dedo no copo do outro e desbafou.
_ Nada, Hal, não consigo nada. Voltei a rodar os teatros, perguntei a todo mundo, ninguém a conhecia. Eu decidi procurar em Alto Paraíso.
_ Faça isso, já disse que é um bom palpite. Mas tem também Pirenópolis, Goiás Velho... se não estou esquecendo de nenhum reduto riponga.
_ Putz, não fala isso. O pai dela está me pressionando, eu tenho que inventar que estou seguindo tal e tal pista. Ele me deu duas semanas.
_ Não surgiu nenhum outro caso?
_ Surgiu um matrimonial, mas é uma história estranha. O cliente exige anonimato e se recusa a dar mais informação do que uma foto. É outro beco sem saída, não decidi se vou aceitar.
_ Você tem a foto aí?
_ Só um instante.
Jorge tirou de sua pasta uma impressão de uns vinte por dez centímetros, em papel fotográfico, e mostrou ao colega. Halunke conteve o susto, sacudiu a cabeça e devolveu a foto. Era Cláudia Albuquerque.
_ Nunca vi. É uma coroa bonita.
_ Eu vou conseguir qualquer outro emprego, Hal...
_ Por falar em coroa bonita, olha aquela ali. Ela não tira os olhos de nós.
_ Vai lá conferir, eu sou compromissado.
_ Você é muito otário, mesmo.
_ E suas novidades? Aconteceu algo errado?
 _ Só isso – disse, tirando os óculos escuros.
_ Caralho, Hal, quem fez isso?
_ Bem, sabe aquela dívida que eu assumi, para pagar a anterior e assim sucessivamente?
_ De quanto é?
_ Três barões. Eu estava contando com a grana da madama, achei que tinha um puta flagrante e era ouro dos tolos.
_ De volta a estaca zero? Bem vindo ao clube.
_ Não exatamente. Graças ao seu aparelho eu consegui uma boa pista.
_ Maravilha!
_ Eu não aguento, Jorjão. Tem papel e caneta aí?
Rabiscou qualquer coisa na folha arrancada do bloco do amigo e chamou o garçom. A coroa estava com duas amigas menos agraciadas pela beleza, então ele especificou enfaticamente: aquela de verde. Os dois acompanharam enquanto o senhor que os atendia levava o torpedo até o navio inimigo. A mulher, loira de olhos claros, e com um batom rosado discreto, sorriu na direção deles. Hal acenou para que ela se juntasse aos dois detetives. Ela achou tal ocupação “super glamourosa”, Jorge suspirou enfadado e Hal concordou entusiasmado: “é uma aventura constante”.  Ao fim de uma conversa animada e depois de muitos chopes, Jorge tomou o rumo de casa e Hal seguiu Cíntia até o Park Way. O sexo valeu com sobras todo o combustível necessário, e Hal se viu na manhã seguinte brincando de fazer caretas com a filha de sua presa na mesa do café.

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