sábado, 12 de janeiro de 2013

Na Trilha Cetra XIII


Ainda dentro do carro, fez com dificuldade um cigarro, as mãos tremiam. Acendeu, criou coragem e abriu a porta, saindo do veículo e olhando na direção do beco. Dois brutamontes vinham ao seu encontro. Voltou para o banco do motorista, ligou o carro e engatou a ré em uma fração de segundos. Acertou um carro estacionado do outro lado e achou enfim a saída, sentido a adrenalina ser descarregada. Eles possivelmente o seguiriam. Dirigiu pelas novecentos rumo ao norte, por quatro quadras antes de descer para o eixinho de baixo, ignorando todos os pardais, ainda que nenhum carro pudesse ser visto em seu encalço. Entrou em uma quadra na altura da sete, olhou o relógio: uma da manhã. Tirou o telefone do bolso e ligou, recebendo uma mensagem de insuficiência de créditos. Esteve para lançar o aparelho contra a parede, mas acalmou-se. Procurou a portaria e fez um teatro dizendo que houvera um acidente e que precisava falar com a Zaira imediatamente, desculpando-se pela hora, como se o porteiro ligasse. Ela autorizou sua subida, e ele tomou o elevador.

_ O que houve, Hal? – perguntou ela, visivelmente preocupada.
_ Espera, deixa eu respirar.
_ Eu vou buscar água.
_ Posso dormir aqui? – disparou ele quando ela voltou com o copo.
_ Se me contar o que aconteceu.
_ Tentaram me pegar...
_ Quem?
_ Sei lá, capangas do agiota.
_ Hal, Hal... como você se mete nessa?
_ Eu já estou saindo, é uma questão de tempo.
_ Quer tomar um banho?

Nesse momento, o telefone tocou. Ele esperou para ouvir a música antes de atender. Era o número da pensão, que diabo aquela velha podia querer a essa hora? Certamente os capangas haviam subido... ele se deu conta de que dona da pensão estava em risco.

_ Alô?
_ Jonas?

Que diabo sua mãe estava fazendo na pensão?

_ Mãe, o que você está fazendo aí?
_ Você podia ter dito, filho, que morava em pensão.
_ Como você chegou aí?
_ Eu procurei o endereço que você deu, ele não existia, então eu liguei para o Jorge.
_ Mas eu estava com ele agora há pouco!
_ Eu pedi que guardasse segredo, queria que fosse uma surpresa, mas você não apareceu e eu te liguei, onde você está a esta hora?
_ Estou com minha namorada...
_ Você não me contou sobre isso.
_ Mãe, depois. Eu te disse que não tinha como te receber, minha vida tá meio... movimentada.
_ Eu já conversei com a dona Gervásia, Jonas, tem um quarto vagando semana que vem, até lá eu fico com você.
_ Amanhã a gente conversa, mãe.

Quase ao mesmo tempo em que desligou, Zaira, que estivera no quarto pelo tempo do telefonema, ressurgiu em uma lingerie verde de muito bom gosto, que ia muito bem com seus cabelos nigérrimos. Hal sorriu e pensou no que disse à mãe: essa garota podia ser mesmo sua namorada, por que ele fazia isso? Deve ser instinto, concluiu. Beijou-a com sofreguidão, atrás das orelhas, como ela gostava, e onde mais lhe pareceu conveniente beijar. Ela parecia excitada e passou a retribuir as carícias, quando ele pediu uma pausa para desligar a televisão. Trepar com TV não dá.

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