quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pode Acreditar!




Você já ouviu falar em um centro-avante consagrado que também bate uma tremenda bola como zagueiro? Se no futebol isso é raro, na música nem tanto: muitos artistas fazem incursões fora de sua esfera habitual. É o caso do grande Tony Williams, baterista que entrou para o grupo de Miles Davis aos dezessete anos e destacou-se desde então como um elegante e eficiente baterista de bop, mas precisou dar vazão a seu lado mais roqueiro em seu projeto solo: Tony Williams' Lifetime. Foram diferentes encarnações e propostas, com menção especial à primeira, com John MacLaughlin, mas o ápice da produção do grupo é, a meu ver, o fantástico álbum Believe It, de 75. Além da percussão alucinada de Tony, o disco conta com o brilhantismo do guitarrista britânico (e favorito do blogueiro) Allan Holdsworth, cuja lista de empregos aqui seria enfadonha, bastando citar Bruford e Gong; conta ainda com dois prolíficos e competentes session men, Alan Pasqua nos teclados e Tony Newton no baixo. Isso não significa que estes últimos sejam coadjuvantes: todos são compositores na banda, e a afinidade entre os membros garante a coesão do disco.

Classificar a música de Williams não é difícil, basta escolher entre os sinônimos jazz-rock ou fusion. Diria mesmo que Believe It disputa com Hymn of the 7th Galaxy, do Return to Forever, o posto de epítome do gênero. Os andamentos são mais rápidos do que lentos, a dinâmica mais pra fortissimo do que pra piano. Os riffs poderosos do rock se aliam à improvisação virtuosística do jazz, e o funk vem adicionar um tempero a mais (sem a preponderância que teria no álbum seguinte, Million Dollars Legs). Alguém pode chegar a ter pena dos tambores e pratos de Mr. Williams, tal a veemência com que ele espalha fills mirabolantes sobre levadas intrincadas. É irônico imaginar a tranquilidade com que o circunspecto Holdsworth tamborilava freneticamente os dedos no braço de sua guitarra. Obviamente, o disco tem passagens mais calmas e líricas: nada mais desinteressante do que a energia no topo todo o tempo.

Meu LP - e os sintetizadores analógicos realmente PEDEM vinil aqui - foi comprado na Big Papa, com o Carlos e a Kátia, em meio a muita prosa musical; afinal, disco não é como um sapato ou um perfume, coisa que algumas "lojas de disco" não aprenderam. A capa é em P&B e traz o músico, que gostava de aparecer pelado nas capas... pelado na capa, com um sorriso de Mona Lisa e segurando um par de baquetas; o nome do grupo e do disco figuram em uma fonte elegante, à esquerda. O verso traz, sobre um fundo avermelhado, Williams ao kit, envolto em uma legítima purple haze, além de uma foto dos quatro e créditos. Prossigamos portanto a, não uma análise, mas impressões bastante subjetivas de cada faixa.

O álbum abre com um baixo em wah-wah, que conduz a um riff poderoso de guitarra. É a introdução de Snake Oil: aqui basicamente se alternam um tema alegre e ensolarado, com a condução direta, e um misterioso e tenso, com chimbau no contratempo; o andamento é mediano. No solo, Williams abusa de sua caixa de ferramentas: muito prato, fills de flams nos tons, apenas para citar, por sobre os teclados funqueados de Pasqua; vem então a hora do solo de Holdsworth, com suas tradicionais notas longas tecendo uma atmosfera espacial, e a peça termina em fade out.     

A intro de Fred são singelas notas de bumbo e prato, dando lugar a um tema que remete ao Havaí, andamento presto... vivace, com uma linha bem interessante de baixo e uma batera jazzística de bumbo sincopado. Uma falsa ponte traz de volta o mesmo tema, que por sua vez dá lugar aos famosos intercâmbios de tema-"solinhos-de-batera", e logo em seguida ao solo de Pasqua, bem animado, sugerindo um funk-progressivo, com bom gosto e maestria. Vem então Holdsworth e a montanha russa de suas escalas pouco convencionais, enquanto a música vai ficando mais pesada em direção à ponte, complexa, antes de voltar ao Havaí e daí a mais um intercâmbio com a batera, para fechar num outro energético, quase adolescente.

Proto Cosmos abre, bombástica, tempo presto... con fuoco, diretamente em mais um bate-bola entre tema (2 tempos) e baquetadas vulcânicas (6 tempos). É a peça que vai exibir a maior dose de virtuosismo, boa candidata a representar o disco. Por isso mesmo, em vez de descrevê-la, aqui vai o vídeo da reunião em que, dez anos depois da precoce morte de Williams, por enfarto em 1997, ele é muito bem representado por Chad Wackerman, pupilo de Frank Zappa e grande parceiro de Holdsworth - e excelente baterista.


Proto-Cosmos com Holdsworth-Pasqua-Wackerman-Haslip

Urgente é o adjetivo adequado para a uptempo Red Alert, compreensivelmente. O riff que explode desde o início é uma martelada em uníssono, que faz balançar a cabeça como, digamos, um fusion-metal. O tema atravessa toda a peça, e sustenta ora a metralhadora de Holdsworth, ora o doce Fender Rhodes de Pasqua, com Williams irrequieto todo o tempo.

Se a essa altura, você precisa de fôlego, está com sorte. Por algum tempo. Wildlife começa melódica, quase piegas; depois dá uma reviravolta e se transforma num vigoroso funk com a pulsação irrepreensível do discreto Newton ancorando mais um solo de piano elétrico, enquanto guitarrista descansa. Volta o tema apenas para encerrar a peça em que Tony parece mais comportando; uma que, sendo tão boa, só me parece a mais fraca do disco porque todas as demais são espetaculares.

Existe uma ciência no ordenamento das faixas em um disco, que fica meio prejudicada nos CD's (que não têm a "primeira do lado B" por exemplo), e um dos pressupostos básicos estipula que o bom álbum começa bem e termina bem. A última peça de Beieve It é similar à anterior no sentido de que vai do suave ao intenso, mas chega a um resultado mais interessante. Introduzido pelos tradicionais flams, um tema bem roqueiro, mas sorridente, entrega, depois de uma ponte, o bastão a mais uma conversa entre a cozinha e os teclados; Tony não se limita a conduzir, aspergindo semicolcheias furiosas e acentos no contratempo. Ele segue se expressando com a fúria e a fluidez características por cima das notas anasaladas de Holdsworth, num crescendo que leva a um solo enfático e coeso, contra um riff sujo e pesado. É o grande momento da volúpia rítmica do músico americano. O tema sorridente volta brevemente, e parece que a música acabou; mas Williams não quer parar de tocar, e só o fade out para acabar com o disco. Pode respirar agora.     

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