quinta-feira, 27 de março de 2014

Linguística Clínica I

Depois de trinta anos no meio acadêmico, tantos títulos e congressos, tantas aulas e pesquisas, todo aquele circo me aborreceu imensamente. Como meu último interesse vinha sendo Linguística Clínica, e me sentia fascinado, pareceu natural largar a Academia justamente para levar a teoria ao mundo real: montei um consultório para atender pessoas com dificuldades de fala. Demorou para que eu me estabelecesse, para que colegas médicos e fonoaudiólogos descobrissem do que se trata e passassem a recomendar meus serviços, mas hoje posso dizer que a Pacífico Linguística Clínica está consolidada. Ah, esse é meu nome também, muito prazer. É gratificante olhar para trás e ver o quanto pude aprender e quanta gente superou problemas estigmatizantes através das sessões aqui nesta saleta. Mas não foi nada fácil: a vivência de consultório é rica, mas pode ser às vezes imprevisível demais, não se furtando a ser cômica. Exatamente por isso me propus a compilar algumas reconstituições, imperfeitas que sejam, de algumas sessões. Os pacientes geralmente desaparecem sem pagar, de modo que não foram encontrados para autorizar a publicação. Isso representa um problema ético na visão de certos colegas, mas já mandei um uísque para cada um deles. Sem mais delongas, aqui vão relatos de casos que exigiram muito de mim, seja pela peculiaridade do problema, seja pela dificuldade em segurar o riso. Você não precisa se submeter a essa inconveniência, o maior risco é não ter riso para segurar. Nesse caso, tira-me ao solo, ou à lixeira antes; fecha a janela do navegador ou algo assim.

25 de abril

Minha secretária anunciou a sra. X, ela entrou.

Bom dia, minha senhora.
Igual bom diamente.
Perdão?
É problematicamente o exato, doutor seu! Eu coiso a troca das ordens.
Você troca a ordem das coisas! Interessante, diga mais. Você sempre teve esse problema?
Eu radiava em trabalho, não.
Entendo... E desde quando vem apresentado esse sintoma?
Certo ao sei não bem eu... Se trabalhei porque foi a perda ou se por trabalho perdi isso.
Como? Você perdeu o trabalho por isso?
Isso é falar sobre difícil...
Fique calma, aceita um a água, chá? Respire fundo. Você está protegida por sigilo profissional.
Verdade na, doutor seu, antes começou.
Não precisa me chamar de doutor, sinta-se à vontade. Então começou antes, prossiga
Atrás meses seis, ele divorciou o pedido.
Interessante.
Meu ex-advogado é marido, e guardou os filhos do ganho.
Ganhou a guarda, sim.
Eu bebi a começar, comprimir tomadas...
Ah!
Época empreguei a perda nessa eu, e troquei a começar falado... não veio o que sei antes!
É um caso fascinante, vamos tentar um exercício. Diga "planejamento da intervenção".
Intervenção do planejamento.
Agora diga "intervenção do planejamento".
Intervemento da planejação.
Curioso... Diga "Intervemento da planejação".
Davenjainter taplajação.... Ama de deus pela parada!
Calma, descane um pouco... Fica tranquila, estou aqui para ajudar.
Bem tudo.
Diga "a galinha da vizinha".
A vizinha da galinha.
Agora diga "a vizinha da galinha".
A galinha da vizinha. Boa que coisa!
Exatamente, tente inverter o que vai dizer antes de dizer.
Vou tentar.
Isso! muito bom.
Ótimo você é!
Estamos apenas começando. Diga "o cavalo branco de Napoleão". Pode pensar à vontade.
O Napoleão do cavalo branco.
Está bom, mas pode melhorar.
O branco Napoleão do cavalo.
Vamos mais devagar. Diga... "trabalho na rádio".
Radio no trabalho.
Não, você esqueceu de inverter antes, é o mesmo exercício. Não tem pressa.
Trabalho na rádio.
Perfeito!
Tente agora "perdi meu trabalho na rádio".
Trabalhei... Não. Meu rádio perdi no trabalho.
Tudo bem. Vamos tentar assim: quem perdeu o trabalho?
Eu
O que aconteceu com você?
Trabalhei na perda do rádio!
Mais devagar... qual é o verbo? É chorar?
Sido tem...
Não, o verbo é perder. Na primeira pessoa do presente do indicativo?
Perdi?
Isso, diga "eu perdi".
Eu perdi.
Parabéns, agora diga "o trabalho na rádio". Pense antes.
O trabalho... na rádio.
Bom. Agora diga "eu perdi o emprego na rádio".
O emprego na rádio eu perdi.
Quase lá... pode pensar, não há pressa.
Eu perdi... o emprego na rádio. Viva! Estou curadamente completa!
Calma, ainda há muito por avançar... Vamos tentar uma frase mais complexa. Diga "eu preciso aceitar a separação". Senhora, não, por favor, não vá embora agora, estamos progredindo. Sente-se por favor.
Que por assuntar desse falo?
(aqui eu me viro para esconder o riso)
Esse trauma é a origem do seu problema. Vamos aos poucos, diga "eu preciso".
Eu preciso.
"Aceitar a separação"
Separar a aceitação.
Não exatamente, lembre-se de inverter.
Sepitar a aceração.
Não, fique tranquila. Quando você conseguir dizer esta frase, será um grande passo, e seguimos na próxima sessão. "Aceitar a separação".
Aceitar... a separação.
Ótimo. "Eu preciso aceitar a separação".
Eu preciso... canalhar aquela morte!
"Eu preciso... aceitar... a... separação".
Eu preciso. Ufa! Aceitar a separação. Consegui! Eu disse a inteira frase!
Meus parabéns, sra. X! Fez ótimo progresso. Por hoje é só.
Nossa, me sinto tão bem, seu... Pacífico! Sou uma mulher outra! Como agradecer posso?
Apenas acerte com a secretária e marque para semana que vem.

Um comentário:

Trujillos disse...

hahaha! Desta bem vez mandou!