quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Episódio II

Sala. OGRO na cadeira de rodas, MÃE DO OGRO (DONA TÊMIS), SAGAZ e LÚCIA.

MÃE. Meninos, meninas, muito obrigada, eu preciso ir. Cuidem dele. Desculpa filho, mas eu não posso perder esse congresso.
OGRO [com dificuldade, em toda cena]. Tô bem, mãe.
SAGAZ. Eu garanto que ele vai se comportar por um mês, dona Têmis. Pode deixar que eu busco o carro no conserto também. Quem não tem conserto é ele. 
OGRO. Vai se foder.
MÃE. Rique!
LÚCIA. Espero que ele nunca mais pegue o carro bêbado, né?
entra ESTELA
ESTELA. Carro bêbado? Até o carro é viciado em álcool?
SAGAZ. Ih, bebe até gasolina.
MÃE desvanece. ESTELA a socorre.
LÚCIA. Que houve, dona Têmis?
MÃE [arfando]. Não é nada. Quando eu tomo Rivotril logo cedo me cai a pressão.
SAGAZ. Joga fora os comprimidos e adere à onda medicinal, dona.
LÚCIA. Não, Vítor, não é assim que...
OGRO [ansioso]. Cala a boca.
ESTELA. Não, gente, nós temos que falar abertamente, ué.
MÃE. É, o Henrique comentou alguma coisa... Eu nem acho errado, sabe...
SAGAZ. Errado é deixar de aproveitar essa planta fantástica!
LÚCIA. Isso é verdade, Têmis, além do uso por prazer, a planta também é matéria prima e um remédio muito eficiente e versátil, além de ser pouco tóxico.
MÃE. Mas maconha não é tóxico?
SAGAZ. Eu peguei um fumo aí que é um veneno.
ESTELA. Veneno é o que eles misturam na maconha.
LÚCIA. Exatamente. Se legalizar, poderemos controlar a qualidade. Tóxico é só um nome popular para as drogas ilícitas, mas elas são muito diferentes. O que é fato é que a maconha – e o LSD também – têm baixo grau de toxicidade. Ninguém morre por usar maconha, ou ácido.
MÃE. Ah, mas daí a liberar geral, é difícil, né?
SAGAZ. Geral já liberou, dona, você que não sabe.
ESTELA. Se quiser comprar, é mais fácil que pão.
LÚCIA. É o contrário, Têmis, queremos que o mercado tenha regras, e recolha imposto. Criança não poderá comprar, e hoje pode. E o mais importante é perceber que o combate às drogas tem feito muito mais mal do que as próprias drogas, especialmente a plantinha.
MÃE. Acho que tem que liberar só o remédio, aquele do Fantástico.
SAGAZ. Tipo liberar o suco de laranja e proibir a laranja?
ESTELA. O uso medicinal pegou carona com o recreativo e roubou o carro.
LÚCIA. Os avanços são graduais, Estela. Mas na minha visão é muito pouco mesmo legalizar só o CBD, porque reafirma a noção de que o uso recreativo é condenável.
SAGAZ. Recreativo, não, preventivo.
ESTELA. Ritualístico.
LÚCIA. Ou privativo. Eu acho que não temos que fingir, eu gosto de “recreativo”.
SAGAZ. Recreativo. Recreativo é jogar dominó. Eu levo isso mais a sério do que qualquer outra coisa, como é que é recreativo?
MÃE. Mas como é que vamos impedir que as pessoas fumem?
OGRO. Seu voo, mãe.
MÃE. Como?
OGRO. Seu voo.
MÃE. O papo tá bom, Rique. Eu tenho ainda tempo pra queimar.
SAGAZ. Por que a senhora não disse que queria queimar?
ESTELA. Vou bolar um.
OGRO. Não...
MÃE [rindo]. A piada é boa, mas eu não tenho coragem não.
LÚCIA. Então, Têmis, sobre sua pergunta, a primeira coisa a ter em mente é que apenas uma pequena parcela dos usuários de maconha faz uso problemático, ou seja, a maioria segue normalmente sua vida. Então não se trata de impedir o uso. Precisamos é evitar o abuso, o que não estamos fazendo com o álcool, aliás.
SAGAZ. Eu não abuso dela, sempre a tratei com todo respeito.
ESTELA. Você pode proibir o isqueiro, ou a seda, ou o oxigênio...
MÃE.  Não sei, gente, sempre ouvi que isso era perigoso.
SAGAZ. O único perigo é rodar, dona.
LÚCIA. Isso mesmo, o perigo está mais na sociedade do que na planta. Perigoso é frequentar biqueira. Os males que se atribuem à maconha são quase todos inventados, não têm base científica.
ESTELA. Seguro é beber e dirigir, né Ogro? Henrique, quer dizer.
OGRO. Humpf.
MÃE. Verdade, né? Hipocrisia pura. Dizem que é uma droga leve.
SAGAZ. Não é não, R$50 de maconha é muito mais pesado que R$50 de pó.
LÚCIA. É como eu disse, Têmis, a maconha tem baixa toxicidade e baixo poder de causar dependência. A abstinência de café é mais séria do que a de maconha!
ESTELA. Tem muito mais viciado em coca-cola do que maconheiro!
MÃE. Eu tomo dois litros todo dia.
OGRO. Mãe, vai perder...
MÃE. Calma filho. Eu vou experimentar.
OGRO. Mãe!
MÃE. Não, eu vou sim. Sempre tive colegas que fumam, eu achava o fim do mundo. Mas sabe o que? Um dia eu li o artigo de um deles e era simplesmente brilhante. Ora! Vocês têm razão.
OGRO. Que vergonha...
(ela fuma, tosse; aplausos)
SAGAZ. Bem vinda ao restante de sua vida!
ESTELA. Mandou bem, dona Têmis!
OGRO. O que o papai vai dizer!
LÚCIA. Olha lá o machismo... Você lembra quando ela disse que não tinha coragem? Aposto que tinha medo do marido conservador.
MÃE. Ah, o Arnaldo é linha dura mesmo. Militar, sabe?
SAGAZ. Filho de ogro, ogrinho é!
ESTELA. A sociedade é uma fábrica de ogrinhos.
MÃE. Não estou sentindo nada.
SAGAZ. Mentira, está sentindo a expectativa.
LÚCIA. É normal, às vezes a pessoa só vai sentir na terceira, quarta vez que fuma. Seu cérebro está se acostumando à ideia.
ESTELA. Volta de novo, dona Têmis.
MÃE. Eu vou sim, depois do congresso. Queria ficar ao lado dele, mas não posso.
SAGAZ. Fica tranquila que a gente vai espezinhar ele com muito carinho.
LÚCIA. Vai, lá, Têmis. Eu vou chamar o táxi.
OGRO. Mãe, não vai contar nada...
SAGAZ. Ela vai contar as horas para fumar de novo.
ESTELA. Deixa cada um decidir, Vítor, não força. É a cannabis que escolhe as pessoas, não o contrário. Somos os eleitos de Shiva.
SAGAZ. Então eu sou um sacerdote. Amém.
MÃE. Você é um barato, Vítor.
SAGAZ. O barato é louco, dona, e o processo é lento.
LÚCIA [entra]. Taí o táxi.
ESTELA. Isso é quase um hai cai.
MÃE [despedindo-se]. Bem, meninos... e meninas, vocês são todos um amor. Na volta conversamos mais. Cuidem bem desse moleque pra mim. [p/OGRO]E você, agora que passou o susto, vê se dá valor à vida.
OGRO. Já sei disso, mama.
SAGAZ. Não bateu nadinha?
MÃE. Não sei, estou um pouco... não sei.
ESTELA. Tenha uma ótima viagem, Têmis!
Saem todos, ESTELA empurra a cadeira.
corte
MÃE gargalhando dentro do taxi
TAXISTA. Pra Onde, senhora?

MÃE. Pra Saturno!

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