sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Episódio III

Em frente à casa. OGRO na cadeira, SAGAZ, LÚCIA E ESTELA, recebem TÊMIS.

ESTELA. Olá, dona Têmis! Que saudade!
TÊMIS. Foi só uma semana! E não me chame de dona mais!
SAGAZ. É a dona dos nossos corações!
LÚCIA. Que pieguice, Sagaz, não parece você.
ESTELA. Deve ser porque é sincero.
TÊMIS abraça OGRO
TÊMIS. Como tá, filhão?
OGRO [fala normal]. Melhorando, mãe, fez boa viagem?
TÊMIS. Fiz, Rique. O congresso foi uma chatice, mas não podia faltar.
SAGAZ. É assim mesmo, a gente faz o que é obrigado e é proibido de fazer o que quer.
OGRO. Não vai começar, Sagaz!
ESTELA. E aí, bateu aquele dia?
TÊMIS [rindo]. Bateu? Eu fui até o aeroporto rindo e cheguei rindo em Vitória. Achavam que eu era louca. 
SAGAZ. Estava louca.
LÚCIA. Mas foi bom?
TÊMIS. Foi ótimo! Ótimo! E a fome? Eu pedi três sanduíches no avião, a comissária dizia "nós vamos pousar", eu disse que queria pouso e pasto. Ela não entendeu [risos].
LÚCIA. Foi muito irresponsável deixar você sozinha, ainda bem que deu tudo certo.
ESTELA. Vamos entrar?
entram. corte.
OGRO. O papai ligou ontem. Disse que a casa está uma zona sem você.
LÚCIA. O mundo é dos homens, mas a responsabilidade é das mulheres.
SAGAZ. O cara não é milico, porra? Tinha empregada no quartel?
OGRO. Cuida da tua vida.
ESTELA. Posso bolar um?
SAGAZ. E precisa autorização agora? Licitação, publicar no Diário Oficial?
close em TÊMIS, sorrindo matreira.
TÊMIS. Estava esperando por isso.
SAGAZ. Não disse? Eu soube desde o início que o Ogro tinha escolhido os piores cromossomos.
OGRO. Não fala mal do meu pai, vagabundo.
SAGAZ. Vagabundo? Não fui eu quem bombou Cálculo I três vezes.
ESTELA. Meninos, chega. Cadê o dechavador?
LÚCIA. A seda tinha acabado, não?
SAGAZ. Não pode ser, a seda acabou? É só ir ao bar da esquina!
ESTELA. Eu só fumo em papel de arroz!
SAGAZ. Minha cara, eu já fumei papel de pão, de caderno, de bíblia, de sapato, de bala de coco, de fax, de extrato...
ESTELA. Tá bom, tá bom, sedanapo tá ótimo!
LÚCIA. Espera aí, gente, esta é uma ocasião especial, vamos bongar.
SAGAZ e ESTELA. Bongada! Bongada! Bongada!
LÚCIA sai.
OGRO. Mama...
TÊMIS. O que é bongar?
SAGAZ. Bong, Teminha...
OGRO. Teminha?!
SAGAZ. ...é um tipo de cachimbo que permite dar uma megabola e ficar megachapado. Agradeça por ter professores assim.
OGRO. Mãe, me alcança um cigarro?
TÊMIS. Não consegue fumar sozinho? Como fez esses dias todos?
entra LÚCIA com o bong.
SAGAZ. Eu acendi muito careta pra esse careta. Ora lá está! Isso é um bong. Que pena que tenho aula. Me dá o primeiro pega que estou atrasado.
SAGAZ usa o bong, os demais fazem silêncio.
TÊMIS [ri]. Que loucura!
toca a campainha, LÚCIA vai atender.
LÚCIA. É o Bob.
Entra BOB.
BOB. Senhoras e senhores, que belo espetáculo! Vim só fazer uma ponta! Quem é essa coroa gostosa?
OGRO. É minha mãe, seu safado! Mais respeito!
SAGAZ. É impossível fazer uma ponta, Bob. Você faz o beque, aí ele vira uma ponta. Mas chega aí, estamos bongando. [passa para LÚCIA]
BOB. Desculpa, dona coroa gostosa, eu não sabia. Ô Sagaz, e aquele disco do Peter Tosh, hein? Toca ele aí!
LÚCIA [tossindo]. Vai perder a aula.
ESTELA. Esse filho da puta nem precisa ir às aulas, passa com notão.
SAGAZ. Já que vocês se importam tanto com minha vida, eu vou. Mas vou rodar o disco do Tosh antes.
LÚCIA passa para TÊMIS, e a instrui:
LÚCIA. Você tapa o buraco, acende, puxa, enche o tubo de fumaça, solta o dedo e aspira. Mas não enche demais da primeira vez, vai devagar.
BOB. A mãe do Ogro fuma?!
TÊMIS se atrapalha e tosse muito.
TÊMIS. Virge Maria santíssima! É forte! Meu corpo pesa uma tonelada!
TOSH [música]. Legalize it...
TOSH, SAGAZ e BOB. Don’t criticize it...
TÊMIS passa para ESTELA
OGRO. Se eu não estivesse preso aqui...
LÚCIA. Ia fazer o que, Ogro, mandar a gente pagar dez flexões?
OGRO. As vantagens da disciplina... constrói caráter.
SAGAZ. Você aí não pode fazer flexões, mas pelo menos a flexão verbal pode fazer!
ESTELA. Tá bem, Têmis?
TÊMIS [rindo]. Demais, filha! Essa música é muito boa! [levanta e tira ESTELA para dançar, desajeitada; todos riem]
TOSH e TÊMIS. Legalize it!
SAGAZ. Bom, eu tenho que ir mesmo. [despede-se de todos; ad lib; sai]
ESTELA passa para LÚCIA
LÚCIA. Não pense que a gente passa o dia todo fumando, nós temos nossos compromissos. Eu preciso trabalhar na dissertação. Depois da inspiração. [bonga, passa para BOB]
BOB. Louvado seja Jah, nas alturas onde eu quero estar, bendita é a flor da vossa planta, assim na terra como na areia da praia, amém. [bonga]
telefone toca; ESTELA corre para atender
ESTELA. Alô? (...) Sim, sim, ela acaba de chegar. (...) Ela, eh... tá meio ocupada, agora, tá... no chuveiro...
TÊMIS. É o Arnaldo? Passa pra mim! Pode passar.
TÊMIS [assume o telefone]. Fala, queriiiiiido!
ARNALDO [voice over] Meu tesouro, está tudo bem?
TÊMIS. Maravilha, Arnaldo. O Ogro está bem melhor.
ARNALDO. Quem?!!!
TÊMIS. O Rique, Naldo. O Henrique Vilanova Severo, seu filho.
ARNALDO. Você está estranha, Têmis.
TÊMIS. Estranho é você!
ARNALDO. Aconteceu alguma coisa?!!!
TÊMIS. Aconteceu, sim, eu... virei uma borboleta!
LÚCIA. Isso vai dar merda...
BOB. Pô, então, eu vou virar o disco.
ESTELA. Eu ainda tentei...
LÚCIA. Nós vimos, Estela.
OGRO [extremamente ansioso]. Agora não falta mais nada...
TÊMIS [tapando o bocal]. Falta sim, falta ele experimentar!
LÚCIA. Têmis, diz que precisa desligar.
ARNALDO. Estou muito preocupado, amor, não estou entendendo nada!
TÊMIS. Você nunca entendeu nada, passar bem. [desliga]
BOB. Olha, dona, com todo respeito, mandou muito bem, toca aqui.
OGRO. Bob, quando eu melhorar eu te quebro.
BOB. Que agressividade, bro, devia fazer como sua coroa gos... aqui, bonga aí, a gente ajuda.
OGRO. Bonga aí... eu sou um homem de caráter!
LÚCIA. Como quando você engravidou uma moça e a abandonou à própria sorte? Belo caráter.
ESTELA. Gente, tá ficando esquisito, não quero briga aqui nesta sala. Não quero essa ondas cerebrais carregadas invadindo meu corpo.
BOB. Gente, eu vou em boa hora. A paz de Jah fique com vocês. Ou a guerra dos cristãos, o que preferirem.
todos se despedem; ad lib
TÊMIS. Ué, eu não fiz nada. Só porque eu virei uma borboleta vou me incomodar com quem ainda é lagarta? Nunca!
LÚCIA. Então. Têmis, infelizmente que usa maconha tem que saber como lidar com uma sociedade careta. Ninguém aqui queria acabar com seu casamento, e...
OGRO. Nenhum casamento acabou. Mãe, explica tudo, inventa uma história. O papai não pode saber que você...
TÊMIS. Que eu fumei? Eu mal posso esperar para contar pra todo mundo: meus alunos, minha manicure... meu psiquiatra!
ESTELA. Cuidado com esse psiquiatra...
LÚCIA. Verdade, Têmis, médicos têm uma postura ideológica, e a maioria deles é conservadora. Acho que você deve dizer, mas é importante ter um médico com quem você pode ter um diálogo franco... quem sabe você não possa abrir mão do Rivotril? Esses caras patologizam até a primordial angústia humana.
TÊMIS. Angústia? Deixa isso pra outra hora, eu estou feliz!
ESTELA. No momento, você está chapada, felicidade é mais complicado.
TÊMIS. Eu estou feliz no meio de tantos jovens felizes. E é só maconha, ué. Vocês não usam outra droga.
LÚCIA. Não é bem assim, Têmis, a gente flerta com outras coisas às vezes. As drogas estão no mundo, cabe a cada um fazer um uso responsável. O Sagaz dá seus tiros, de vez em quando eu tomo um ácido ou um cogu...
TÊMIS. O que é cogu?
ESTELA. Cogumelo, Têmis. Psilocybe cubensis, cresce no esterco de vaca. É alucinógeno, ou enteógeno.
TÊMIS. Enteógeno?
ESTELA. Permite o acesso a outros níveis de consciência.
LÚCIA. É uma onda muito forte, mas é seguro. Enfim, voltando ao assunto: são várias as drogas, e o ideal é que todas sejam legalizadas eventualmente. Imagina que só a maconha seja legalizada, os traficantes vão fazer um [sinaliza aspas] “marketing” agressivo para vender as que ainda são ilegais.
TÊMIS. Mas você quer legalizar o crack? O crack cria zumbis.
OGRO. Tem que internar esses noias.
ESTELA. Tinha que internar você. Pelo menos eu não ia trocar fralda de ninguém.  
LÚCIA. Veja bem, o crack é uma questão difícil. Primeiro, o problema de quem está na rua usando crack não é o crack, é estar na rua. O crack é sintoma. Tem gente em boa posição social que usa suas duas pedrinhas depois do trabalho e vai em frente. Outra coisa, o crack não deveria existir, ele existe porque o refino da cocaína está nas mãos do crime. Durante a lei seca nos Estados Unidos, as pessoas bebiam álcool com plastificantes, o chamado jake, que as levava à loucura e à morte. Ele sumiu com o fim da proibição.
TÊMIS. Ninguém nunca me disse isso! Bem galera, pintou uma fome...
ESTELA. Fome, não. Larica. Isso encerra a lição de hoje. Nós vamos preparar um frango ao vinho com risoto de cogumelo pra você.
TÊMIS. Cogumelos alucinógenos?
LÚCIA. Não, essa é uma lição avançada. É shitake mesmo.


Nenhum comentário: