quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Episódio V

LÚCIA atende à campainha .
SEVERO. Eu sou o pai do Henrique Severo.
LÚCIA. Ora, que coincidência, falávamos do senhor. Não quer se sentar? Eu vou buscá-lo.
SEVERO. Onde está a minha esposa?
LÚCIA. Está dormindo um pouco. Eu já volto [sai].
entra LÚCIA, empurra a cadeira
OGRO. Papai! Que surpresa!
SEVERO. Henrique, meu filho! Está tudo bem?
OGRO. Está sim, pai... por que não veio antes?
SEVERO. Você sabe que estou destacado, filho. É impossível.
OGRO. E como veio agora, então?
SEVERO. Eu obtive uma dispensa extraordinária. Onde está sua mãe?
entra TEMIS recomposta
TEMIS. O que você faz aqui, Arnaldo? Aconteceu alguma coisa?
SEVERO. No outro dia... pelo telefone... você estava alterada...
TEMIS. Era uma brincadeira, Arnaldo, um jogo que jogávamos. Eu tentei ligar novamente para explicar, mas seu telefone não funciona naquela selva onde você trabalha. Você despencou de lá até aqui por isso, mas não veio no acidente do Rique? Belo pai, seu Arnaldo.
entra SAGAZ
LÚCIA. Vamos sentar, gente. Aceitam água, café?
SAGAZ. Eu vou fazer o café. Nós sempre oferecemos droga às visitas.
SEVERO. Como?! Quem é você?
SAGAZ. Eu sou seu servo humilde, o Sagaz/ torço o verbo como outro não faz.
LÚCIA. Vai fazer o café, Sagaz. [sai SAGAZ]
SEVERO. Então está tudo bem, mesmo? Eu fiquei tão preocupado!
TEMIS. Devia ter ligado. Pelo menos agora você está aqui, com seu filho.
SEVERO. A vida de militar é sacrificada. [acha o bong]. O que é isto aqui?
LÚCIA. É um vaso de flores... precisamos de mais flores.
SEVERO cheira o bong
SEVERO. Isso aqui é para usar drogas!
OGRO. Pai, a mãe fumou maconha!
Quiproquó, SEVERO esgana TEMIS que esgana OGRO.
LÚCIA apazigua a todos, SEVERO prossegue
SEVERO. ...exijo saber o que está se passando, não tolero...
LÚCIA. Calma lá um instante, Sr. Severo, este é meu quartel e não quero motins.
silêncio morto
TEMIS. E se você quer me controlar, você devia ao menos me comer de vez em quando...
OGRO. MÃE!!!
SEVERO. Contenha-se, Temis, ou eu...
TEMIS. Pois saiba que eu dei pro Clemente!
SEVERO. Logo pro Clemente!
LÚCIA. Vocês dois, acalmem-se. Assuntos pessoais mais tarde. Vamos discutir isso civilizadamente, se ainda der tempo. Permitam que eu conduza o diálogo.
TODOS aquiescem
LÚCIA. Sr. Severo, é verdade que todos aqui em casa, menos o seu filho, fumam maconha.
SEVERO. Eu vou chamar a polícia! [detêm-no]
SAGAZ [entra com o café]. De bandeja para o Marechal. Açúcar mascavo e tudo.
SEVERO. Não tem adoçante?
SAGAZ. Não, isso é cancerígeno, Marechal.
SEVERO. Eu sou o Major Arnaldo Severo do Exército Brasileiro, com muito orgulho!
SAGAZ. Ih, Então não torturou ninguém.
SEVERO. O que você está dizendo, seu... seu...
SAGAZ. Seu o que, Marechal, preto ou maconheiro?
LÚCIA olha furiosa para SAGAZ
OGRO. Ei, não fala assim com meu pai, moleque!
brigam todos, acalmam-se
SAGAZ. Major! Limpava as latrinas do quartel nos anos 70.
voltam a brigar, acalmam-se, sentam-se
SEVERO. A juventude não tem mais disciplina!
SAGAZ. O que? Eu estou matriculado em cinco!
LÚCIA. Sagaz, se você fosse sábio você ia lá no quintal fumar um...
SEVERO [levanta-se] Eu vou chamar a polícia! [desfalece]
TEMIS. Arnaldo, Arnaldo! É a glicemia dele! Ele precisa de açúcar. Eu fiz um bolo hoje cedo, está no forno. Corre lá, Sagaz, e busca pra mim. [p/ SEVERO] Está melhor, meu bem?
SEVERO. Um pouco, sim.
entra SAGAZ com o bolo
TEMIS. Aqui, come alguma coisa.
comem TEMIS e SEVERO
SEVERO. Hum... Está uma delícia. É com erva doce?
SAGAZ. Exatamente.
LÚCIA olha furiosa para TEMIS
SEVERO. Já estou melhor.
LÚCIA. Eu gostaria de falar com o senhor, Sr. Severo, que é militar. Quando uma campanha se mostra infrutífera, uma guerra obviamente não pode ser ganha, não é melhor abrir mão da ambição inicial e conseguir uma boa paz?
SEVERO. Certamente.
SAGAZ. Quando dá pra conseguir uma boa paz. A paz anda muito malhada por aí.
LÚCIA. O senhor não concorda que aqueles que vemos como inimigos poderiam simplesmente deixar de existir sem necessidade de violência?
SEVERO. Sem o prazer do combate? Não sei.
SAGAZ. Esse aí combateu no máximo a febre amarela.
LÚCIA. Agora me diga se faz sentido atirar no próprio pé para matar um mosquito e ele ainda escapar.
SEVERO. E o que significa tudo isso?
LÚCIA. Que a guerra às drogas não pode ser ganha. Que o melhor ataque ao tráfico é tirar-lhe a fonte de renda. Que o combate às drogas causa muito mais estrago do que aquilo que combate, ou tenta sem sucesso.
SEVERO. Você está falando de drogas! Drogas matam!
LÚCIA. Concordo, sr. Severo. Mas não esqueça que, segundo o Ministério da Saúde, 85% das mortes por uso de drogas entre 2006 e 2010 foram devidas ao álcool, e outros 11% ao tabaco. Maconha, sr. Severo? Zero? Nunca matou ninguém.
SAGAZ. Não é bem verdade. Cordas de cânhamo já enforcaram muita gente!
SEVERO. Mas não deixa de ser uma deturpação moral! Isso ameaça as fundações da civilização!
LÚCIA. O mesmo já foi dito sobre homossexualidade, promiscuidade, ateísmo...
SEVERO. Pois são todos ameaças a tudo que o homem já prezou como sagrado... vocês propõem a barbárie e isso é inadmissível! Eu vou chamar a polícia. [detêm-no] Estamos falando da lei! Da lei!
SAGAZ. A escravidão também já foi a lei.
LÚCIA. A lei pode ser questionada, Severo.
SEVERO. Vocês dão dinheiro para criminosos!
SAGAZ. Mas uma parte vai pra polícia, pros juízes...
LÚCIA. Isso mesmo, a proibição provoca uma corrupção gigantesca. E é uma desculpa para a polícia matar impunemente. É um verdadeiro extermínio o que acontece nos morros e periferias.
SEVERO. Só morrem os vagabundos.
LÚCIA [irritada]. Isso não é verdade, Severo. E mesmo que fossem, nosso país não tem pena de morte, não deveria ter execução sumária. A guerra às drogas é um álibi para matar impunemente. Jovens mortos com tiro na nuca são lavrados como “auto de resistência”.
SAGAZ. Traficante é tão diabólico que enfrenta a polícia até de costas.
TEMIS. Não tem nem uma pontinha aí?
SEVERO. Temis! Francamente...
LÚCIA. Severo, calma. E Têmis, sem provocações. Veja bem, não quero mudar sua visão moral do mundo, só estou tentando mostrar que o uso de drogas existe, quer queira quer não, a maconha é usada há cinco mil anos... O que digo é que criminalizar e militarizar uma questão de costumes é uma estratégia equivocada.
SEVERO. Quem é você para falar em estratégia? Eu estudei estratégia na Escola Superior de Guerra...
SAGAZ. E eu já joguei muito War.
LÚCIA. Pense na Lei Seca americana: as pessoas bebiam mais, as bebidas eram de má qualidade, o crime explodiu, a máfia se tornou um poder paralelo... depois a lei foi revogada. Estamos cometendo o mesmo erro. 
SAGAZ. Erro é quando é sem querer...
LÚCIA. Imagine a quantidade de recursos do Estado que são gastos! Juízes, promotores, defensores, tudo isso por processos que não precisariam sequer existir, e às vezes vão até o Supremo por uma bagatela, um fininho...
SEVERO. Não quero ouvir discursos! As drogas devem ser combatidas, pois são ilegais!
LÚCIA. Não conheço a estratégia militar, sr. Severo. Mas eu estudo linguagem, retórica. Você usa sua tese como premissa. No fundo, o que o sr. disse não passa de tautologia.
SEVERO. Você é uma mocinha muito atrevida.
LÚCIO. Peço que o senhor me tenha mais respeito.
SEVERO. Mas e minha esposa? Vocês deram maconha para minha esposa!
SAGAZ. Ela pediu. E várias vezes, até.
TEMIS. Eu sou um indivíduo, Arnaldo.
SEVERO. Eu sei disso, amor. Mas nunca vi uma insubordinação assim...
OGRO. Alguém se lembra que eu estou aqui e estou todo quebrado?!
TEMIS. Eu não sou um subalterno seu, Arnaldo.
SEVERO. Mas você é minha esposa. E como você consentiu que o Henrique viesse parar aqui, Temis Severo?
TEMIS. Eu não fazia ideia de que eles fumavam, Arnaldo. Hoje eu agradeço aos céus.
SEVERO. Eu EXIJO que você venha comigo para casa, imediatamente!
TEMIS. Eu vou voltar pra casa quando o Rique estiver bom.
LÚCIA. O senhor está sendo muito machista.
OGRO. Lúcia, não se mete.
LÚCIA. Você dedurou a própria mãe!
OGRO. Lúcia, não se mete!
LÚCIA. Foi você quem meteu a gente nessa, já esqueceu?
OGRO. Eu já estou farto das suas lições de moral! Você não passa de uma vadia arrogante!
[discutem]
TEMIS. Arnaldo, escuta, eu ia te contar tudo um dia, mas que bom que veio então. Eu tenho muita coisa a dizer que nunca disse.
SEVERO. Mas Temis! Droga? Você? Aquela mocinha de Tambaú...
TEMIS. Eu não sou mais uma mocinha de Tambaú, Arnaldo, eu sou uma professora universitária.
SEVERO. Eu sabia que não devia ter deixado você trabalhar!
TÊMIS. Arnaldo, isso é inadmissível! Olha... não tem jeito, eu quero o divórcio.
SAGAZ. Esse aí já foi legalizado.
OGRO [interrompendo a discussão com LÚCIA]. Tá vendo!
SEVERO. Isso é uma afronta! Você! Não creio, Temis! São vinte anos!
TEMIS. Justamente, já chega. Eu preciso de espaço.
SEVERO a segura pelo braço e arrasta em direção à porta.
TEMIS. Me solta!
LÚCIA [percebendo]. Que é isso, você está violentando a Temis na minha casa!
OGRO. E a casa é sua?
entra ESTELA
ESTELA. Pessoal, o que está acontecendo? Dá pra ouvir os gritos da rua! Que vibe errada... Nós somos pelo fim da guerra e vocês estão se digladiando? O que houve?
[voltam a gritar todos juntos]
ESTELA. Calma, eu cheguei agora e vou tentar conciliar essa algazarra. Você, Ogro, qual é o problema?
OGRO. Vocês deram maconha pra minha mãe, meu pai descobriu e eles vão se separar. Além disso, a Lúcia acha que é melhor que todo mundo.
ESTELA. Lúcia, o que você tem a dizer?
LÚCIA. Eu estou tentando dar um fim racional a esta discussão. O Arnaldo...
SEVERO. Arnaldo?!
LÚCIA. ...está sendo extremamente machista, e o filho dele me chamou de vadia.
ESTELA. Se você quiser ofender uma feminista, Ogro, escolha outra ofensa pelo menos. Sua mãe pediu pra fumar, seja mais maduro. Mas nunca pense que não gostamos de você. [p/LÚCIA] E você, Lúcia, às vezes gosta de controlar, mas tem toda razão em condenar o machismo. Você é a luz desta casa, e é muito querida.
SAGAZ. Eu adoro finais felizes...
ESTELA. O senhor, pai do Henrique, lamento conhecê-lo assim. Do que se queixa?
SEVERO. Minha esposa se insubordinou, usou entorpecente, e agora quer o divórcio. E esse moleque aqui não para de me atazanar.
ESTELA. Quanto a sua esposa, o senhor deve observar o “não julgue para não ser julgado”. Até porque o Ogro, ou Henrique no caso, revelou em uma de suas bebedeiras o problema do senhor com o jogo. Se ainda achá-la culpada, que exerça então o perdão.
SEVERO. Não vejo motivo para perdoá-la. Por que deveria?
ESTELA. O melhor do perdão é não ser forçado. É uma benção dupla, ao que perdoa e ao perdoado. E combina com a farda melhor que qualquer outra coisa.
SAGAZ. Uma meia arrastão combinava mais.
ESTELA. Você, Sagaz, pode ser muito inteligente, mas no fundo é um bobo.
SAGAZ. Melhor um bobo inteligente do que uma inteligência boba.
ESTELA. E você é cruel com as pessoas.
SAGAZ. Eu preciso ser cruel apenas para ser gentil.
ESTELA. A gente sabe, Sagaz. E te quer muito. Mas tem hora pra tudo, bróder! [p/TEMIS] Temis! Querida! Parece que te conheço há anos. Me diga suas queixas.
SAGAZ. Ninguém perguntou minhas queixas.
ESTELA. Perdão, amigo, quais são suas queixas?
SAGAZ. Bem, para começar... o rolo de papel higiênico nunca voltou a ter 40 metros...
ESTELA. Fala sério, Sagaz.
SAGAZ. Então, sério. Eu me queixo de que vocês não percebem que são ainda mais bobos que eu.
SEVERO ri, se recompõe
ESTELA. Temis, diga qual é o problema.
TEMIS. [rindo] Eu me casei muito jovem...
ESTELA. Não, o problema mais imediato. Hoje, agora.
TEMIS. [rindo] O Arnaldo veio até aqui me controlar, disse que eu não devia trabalhar, é um autoritário, um brocha, um...
ESTELA. Tudo bem. Temis, você sabe que ele é militar. Você precisa ganhar espaço na negociação, sem confronto. E, cá entre nós, seu comportamento esses dias não é normal. Você nem fumava até outro dia e quer acompanhar esses veteranos? Você está fumando para fugir da realidade, isso não é legal...
TEMIS. Vocês não fumam para fugir da realidade? [ri]
SAGAZ. Fumar é nossa realidade, donna.
SEVERO ri, se recompõe
LÚCIA. Não é não, Sagaz, todo mundo leva suas atividades a sério.
ESTELA. Então, Temis, peço que pense nisso. Está claro que a maconha foi uma válvula de escape para tensões psicológicas reprimidas. Procura ajuda, vocês dois juntos, inclusive. Você se casou com ele por algum motivo. Espere um pouco e se tiver que tomar essa decisão que seja em termos amigáveis. Aceitem minha sugestão: tem um hotel-fazenda aqui na cidade. Vocês dois ficam lá com o Ogrinho...
OGRO. Ninguém me respeita mesmo.
ESTELA. ...até ele poder viajar de avião. Você curtiu, foi bom, mas precisa parar um pouco, juntar as pontas...
SAGAZ. Se juntar as pontas já dá um fino!
ESTELA. Aí vocês voltam pra casa e resolvem isso o melhor que puderem. Pensem quantas vezes já disseram eu te amo.
SAGAZ. Aí foi um pouco demais, não?
TEMIS. Eu nunca dei pro Clemente, Arnaldo.[ri]
SEVERO. E eu nunca brochei sem um bom motivo! [ri]
TEMIS. Me perdoa, então? Vai tentar me ouvir?
SEVERO. Com esse aparelhinho, eu ouço tudo! [ri]
LÚCIA. Desculpa, Henrique, eu me irritei...
OGRO. Eu não penso que você é vadia, Lúcia. Me escapou na hora...
ESTELA. Vamos todos fazer uma roda, dar as mãos. É sério. Todo mundo, vamos. Agora vamos fechar os olhos, respirar fundo.
SAGAZ. Alguém acenda um incenso.
ESTELA. Silêncio. Agora todo mundo imagina uma caixinha. Imaginaram? Agora vamos arrancar todo rancor que está em nós, lá no fundo, e vamos jogar dentro da caixinha. Nós vamos fechar  a caixinha, trancar a caixinha, e jogar essa caixinha bem longe! [gesto]
SAGAZ. Mais cuidado, é lixo contaminado!
SEVERO e TEMIS riem sem parar
SEVERO abraça e beija TEMIS
TODOS se abraçam
TEMIS. [comendo mais do bolo] Bem aventurados os confeiteiros da paz.


FIM.

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