quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Episódio I

Quintal ou área; churrasqueira. OGRO (o careta) prepara a carne. ESTELA (a hippie), SAGAZ (o bobo) e LÚCIA (a raisonneur) preparam e fumam um.

ESTELA. Sagaz, tem uma seda aí?
OGRO. Vocês já vão fumar isso de novo? Daqui a pouco a polícia aparece aí.
SAGAZ.[dá a seda]  A gente dá uma cervejinha pro guarda.
LÚCIA. Relaxa, Ogro, a guerra é aos pobres.
OGRO. Ah, quer dizer que você defende bandido?
SAGAZ. Ué, você vai ser advogado pra defender bandido, não?
ESTELA. Pô, gente, que vibe mais errada. Estamos vivendo a Era de Aquarius...
SAGAZ. Ainda bem que eu sou Peixes, então.
ESTELA. Caramba! Nunca tinha pensado nisso? Eu sou Leão, vou me afogar (risos). E vocês? De que signo são?
SAGAZ. O Ogro fumando tanto careta só pode ser Câncer. A Lúcia...
LÚCIA. [interrompendo] Na verdade, Ogro, a ideia é que com a legalização das drogas a figura do traficante deixaria de existir, e o comércio seria legal, em drogarias.
OGRO. Vocês querem vender DROGAS nas DROGARIAS? Como assim?!
SAGAZ. Não vende PÃO na PADARIA?
ESTELA. Vamos celebrar Shiva então, gente?
LÚCIA. Opa, é uso religioso então?
SAGAZ. O meu uso é medicinal.
ESTELA. Sério?!
SAGAZ. Foi a única coisa que curou minha caretice refratária.
LÚCIA. Você ainda deixa ele te enganar, Estela? Acende logo.
OGRO. A maconha é o primeiro degrau para as outras drogas.
SAGAZ. Isso é verdade. Eu guardo o pó em cima do armário e preciso usar um quilo de fumo como degrau para alcançar.
LÚCIA. Ogro, a maconha é a droga mais usada, de longe. Isso significa que a maior parte de seus adeptos não migraram para cocaína ou crack. A maconha é, na verdade, ótima porta de saída, ajudando no tratamento de viciados.
ESTELA. A maconha é o primeiro degrau para a iluminação!  
OGRO. Maconha como tratamento, tá louco? A maconha mata neurônio.
SAGAZ. [mano] Aê mano, alguma coisa esse neurônio deve ter feito, também, tá ligado?
LÚCIA. Isso é uma fabricação, Ogro. O que mata mesmo é abusar da birita como você faz.
ESTELA. E a ressaca? Só a erva pra dar jeito...
OGRO. Se legalizar, vai aumentar o consumo.
SAGAZ. É simples, a gente aumenta a produção.
LÚCIA. Na verdade, Ogro, isso é improvável. Quem quer, hoje, já consegue. Se legalizar, talvez as pessoas tenham menos medo de experimentar, mas quantos vão adquirir o hábito é uma questão de predisposição individual. Os jovens da Holanda usam menos maconha do que a média europeia.
OGRO. Mas a maconha causa até esquizofrenia!
SAGAZ. Olha, eu sempre fumei pra ficar doido.
LÚCIA. A verdade, Ogro, é que quem tem o gene que predispõe à esquizofrenia pode ter a doença disparada pelo uso da cannabis, mas estamos falando de 1% da população.
ESTELA. Ai, gente, a maconha me ajuda muito a NÃO ficar louca!
OGRO. A maconha tira a motivação.
SAGAZ. Ué, maconha não é crime? Todo crime tem uma motivação.
LÚCIA. Outra invenção, Ogro. Há um bocado de gente dinâmica, produtiva e criativa que usa. Quando a pessoa abandona suas atividades, a explicação vai ser encontrada na psique, e não na substância.
ESTELA. Quem não tinha nenhuma motivação legítima eram os proibicionistas!
OGRO. Todo mundo sabe que a maconha causa alucinações.
SAGAZ. É verdade, eu acho que posso ver um asno na minha frente!
LÚCIA. Alucinações foi o que as campanhas de desinformação criaram, como essa noção equivocada. Sem comentários.
ESTELA. Gente, se maconha fosse alucinógeno, quem ia precisar de ácido ou cogumelos!
OGRO. A maconha causa perda de memória.
SAGAZ. Ou seja, não fumem perto do computador, isso danifica o disco rígido.
LÚCIA. Esse mito provavelmente se origina nos “brancos” que o maconheiro pode ter às vezes quando sob o efeito. Pesquisas mostram que não há dano permanente às funções cognitivas.
ESTELA. Eu devo admitir que não me lembro da última vez que passei um dia sem fumar.
OGRO. A maconha provoca taquicardia.
SAGAZ. Ih, tá acabando a munição...
LÚCIA. Um susto provoca taquicardia.
ESTELA. Ou um amor à primeira vista!
OGRO. [irritado] A maconha destrói a família!
SAGAZ. Pô, minha família destrói minha maconha sempre que eles encontram.
LÚCIA. Será a maconha ou a intolerância que destrói essas famílias?
ESTELA. Eu aposto 50 gramas que o álcool destrói muito mais famílias.
OGRO. Até parece que vocês não bebem.
LÚCIA. Bebemos. Mas não defendemos a proibição do álcool.
ESTELA. É proibido proibir!
LÚCIA. A divisão entre drogas legais e ilegais é arbitrária. Até adoçante faz mais mal que maconha.
OGRO. Ah, tá. Então por que iriam proibir?
SAGAZ. Pra ganhar dinheiro traficando?
LÚCIA. São basicamente três razões; a primeira o é controle social. No Brasil, a proibição sempre teve caráter racista, pois a planta veio com os negros africanos; nos Estados Unidos, era hábito tanto de negros quanto de mexicanos.
ESTELA. La Cucaracha... La Cucaracha... ya no puede caminar...
ESTELA e SAGAZ. Porque no tiene... Porque no tiene...
ESTELA, SAGAZ e LÚCIA. Marijuana que fumar.
OGRO. Olé!
LÚCIA. Não, sério, a segunda é comercial: a planta da maconha tem muitos usos industriais, de têxteis a combustíveis, e era conveniente para a indústria petroquímica, que introduzia fibras sintéticas na época, tirar a concorrência do caminho.
OGRO. Teoria da Conspiração?
SAGAZ. Conspiração contra a piração.
LÚCIA. Não, é sério. Esse cara, o Aslinger, foi quem proibiu a maconha lá com campanhas de mistificação, era ligado à DuPont. Eu te mando o link. Falam sobre o papel dos Rockefeller, também...
ESTELA. Teoria da Corrupção, isso sim.
LÚCIA. Só terminando, tem o problema do moralismo, é claro. Na nossa tradição, o prazer é condenável.
OGRO. Mas enquanto for proibido, é proibido. Vocês financiam a violência.
SAGAZ. Eu não financio não, eu pago à vista.
LÚCIA. Cara, o usuário é uma peça nessa engrenagem sem dúvida, mas por total falta de opção. Plantar pode dar muitos anos na cadeia, nossos jardineiros são verdadeiros heróis.
ESTELA. Todo maconheiro é um herói! Seja marginal, seja herói!
OGRO. Bah! Gente, acabou a cerveja. Vamos comprar mais?
SAGAZ. Vai financiar a Ambev?
LÚCIA. Eu parei.
ESTELA. Também.
OGRO. Só a saideira.
SAGAZ. Saideira é pra sair do bar, você já está em casa.
LÚCIA. Você vai de carro? Não faça isso! Ogro! Henrique!
ESTELA. O livre arbítrio é tão tolhido quanto abusado.
(corta)
área interna. telefone toca
ESTELA atende (música, não se ouve a conversa)
sua expressão indica espanto e então desespero
desliga
ESTELA [chorando]. Gente! O Henrique se acidentou.
SAGAZ.
LÚCIA. A culpa é minha.
SAGAZ. Claro que não, Lúcia. (abraçam-se)
ESTELA [chorando]. Está em estado grave, tomando morfina.

close em SAGAZ  que ergue uma sobrancelha

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