quarta-feira, 19 de abril de 2017

Anjo Terrestre

Seu encanto é não ser anjo algum,
Não pairar por sobre a superfície;
Mas enfentiçado cá estou um,
Com tudo que naquele dia disse.

Que dizer de seus tão formosos pés?
De ombros e umbigo, Deus ajude!
Me guarde de outro triste revés,
Mas terei feito tudo que pude

Para convencer a seu doce encanto
Que podemos pisar o mesmo chão;
Que sua graça me cativa tanto,

É pouco chamar isso de paixão.
E se a sina disto é novo pranto,
Quero crer ser uma linda união.  

sábado, 8 de abril de 2017

Tainted or free: Doença venérea nas peças-problema

Tainted or free: Doença venérea nas peças-problema


Na Inglaterra do início do século XIX, ganhando impulso o movimento por reforma de costumes que seria característico do vitorianismo, duas obras se dedicaram a expurgar o que se considerava obsceno na obra dramática de William Shakespeare (1564 – 1616). Em Family Shakespeare (1807), de Henrietta e Thomas Bowdler, são suprimidas “palavras e expressões que sejam de tal natureza que ergam um rubor nas faces da modéstia”. No mesmo ano, as adaptações de outro casal de irmãos, Charles e Mary Lamb, em Tales From Shakespeare, igualmente eliminam o conteúdo sexual. A esse expediente ficou consagrado o verbo na língua inglesa to bowdlerize.
Isso é o bastante para suspeitar que o dramaturgo lida mais com “indecência” do que costuma lhe associar o senso comum. Romeu e Julieta (1595), epítome do amor sublime e trágico, está recheada de diálogos obscenos, e nem mesmo Hamlet (1601), em sua ambiciosa exploração da natureza humana, deixa de lado as tiradas picantes. Merecem destaque especial na incidência de humor sexual as peças que envolvem Sir John Falstaff: as duas partes de Henrique IV (1596, 1598) e Alegres comadres de Windsor (1597); e também – como tenta demonstrar a dissertação de mestrado que originou este artigo – as chamadas peças-problema: Troilus e Créssida (1602), Medida por Medida (1604), e Bem está o que bem acaba (1604-05).
A questão da detecção de conteúdo sexual em Shakespeare – uma vez que ele é muita vez velado – deu origem aos extremos de negar ou atribuir à “contaminação derivando de condições da casa de espetáculo elisabetana” algum duplo sentido, de uma parte, e aquele de fazer malabarismos impensáveis para enxergar jogos de palavra sexuais, de outra. Aquela era uma prática editorial comum no século XVIII, e esta pode ser observada, por exemplo, no trabalho de Frankie Rubinstein, um dos nomes que se dedicaram ao tema. Outros foram Eric Partridge, espécie de pioneiro, E.A.M. Colman, que parte de uma abordagem crítica, e Gordon Williams, cujo glossário Shakespeare's Sexual Language (1997) é criterioso e equilibrado – tendo sido adotado como ferramenta central da pesquisa.
Das ocorrências de linguagem sexual com intenção cômica levantadas nas três peças-problema, um grupo chama atenção: aquelas envolvendo doenças venéreas. Do total de piadas, elas são tema de 13%, atrás apenas daquelas sobre o ato sexual, que são 16%; Em Medida por Medida, é o tema mais prevalente, com 18% dos gracejos “sujos”. Numa prospecção do glossário de Williams, as três peças estão de fato entre as seis com maior incidência de menções ao tema. A primeira da lista, no entanto, é a tragédia inacabada Timão de Atenas (1605), com um total de 26 ocorrências. Em segundo e terceiro lugar estão duas das peças-problema: Troilus e Créssida (20 registros) e Medida por Medida (16 registros). E logo após Péricles (1607) com doze e Henrique IV Parte II com nove, vem Bem está o que bem acaba, outra das peças-problema, com seis. Propõe-se aqui uma exploração do tema como representado nesse conjunto de peças, primeiramente por tópicos e posteriormente analisando os mecanismos de humor das piadas e sua relevância dramática. As citações das peças neste trabalho são sempre das edições New Cambridge, salvo indicado de modo diverso, e as traduções fornecidas foram criadas ad hoc pelo autor tendo em mente os jogos semânticos discutidos, sendo qualquer semelhança com traduções existentes incidental. Palavras em negrito representam verbetes no glossário de Williams.
Duas menções à sífilis referem-se à infecção em si. A primeira fornece o título do artigo: em Medida por Medida, durante longo diálogo a respeito, que ocorre no prostíbulo de Madame Detonada (1.2.24-48), ao ter seu “Do I speak feelingly now?” deliberadamente mal entendido por Lúcio como referência às dores da doença venérea, o 1ºCavalheiro concede: “I think I have done myself wrong, have I not?”, ao que o 2ºCavalheiro completa: “Yes, that thou hast, whether thou art tainted or free.” Ou seja, contaminado ou não, ele acabou confessando a doença (Williams: tainted, feel). Alguém que nunca tentou esconder o incoveniente é o alcoviteiro Pandarus, de Troilus e Créssida, que não apenas se queixa dos sintomas ao longo da peça como, em seu epílogo, lega à plateia (ao menos àqueles de seu ofício) suas doenças, obviamente venéreas: “And at that time bequeath you my diseases.” (5.11.54; disease).
São muitas as menções aos sintomas e às complicações da sífilis; algumas decorrem de confusão com outras moléstias. A doença em fase avançada destrói a medula óssea, provocando intensa dor (bones: “sujeitos a dano severo pela sífilis”). Em Medida por Medida, no diálogo já referido, o mesmo 1ºCavalheiro recebe outra riposte abusada de Lúcio, que emenda a seu “Thou art always figuring diseases in me, but thou art full of error: I am sound.” uma brincadeira com a palavra sound (sadio/sonoro): “Nay, not as one would say, healthy, but so sound as things that are hollow. Thy bones are hollow. Impiety has made a feast of thee.” Já Pandarus reclama da dor: “such an ache in my bones” (5.3.104), e não deixa de atribuí-la à plateia, no epílogo: “Or if you cannot weep, yet give some groans,/ Though not for me yet for your aching bones,” (5.1148; groan.2: “expressão de dor causada pela sífilis”). Tersites a isso se refere em dois momentos: “After this, the vengeance on the whole camp!  Or rather the Neapolitan bone-ache, for that methinks is the curse depending on those that war for a placket.” (2.3.14-16; sobre Neapolian, ver abaixo); e quando dirige a Patroclus uma torrente de doenças e sintomas (5.1.17-22), muitos atribuídos ou mal atribuídos a origens sexuais (e, para ele, punição apta para a sodomia, ou “preposterous discoveries”), a qual inclui “incurable bone-ache” (bone-ache). Na mesma lista consta um sintoma que poderia ser venéreo: “the rivelled fee-simple of the tetter”, em que tetter aponta para “erupções putulares, às vezes aplicadas à sífilis e seus sintomas”. Tersites já havia se referido a complicações cutâneas em “Now the dry serpigo on the subject, and war and lechery confound all!” (2.3.65-66; serpigo: “usado para várias doenças de pele que se propagam, incluindo a sífilis.”). Outra manifestação superficial a que se alude é “coroa francesa”, ou Frech crown (“sinal visível de sífilis na cabeça”), imagem discutida abaixo. Também é mencionado o efeito da moléstia sobre os olhos. Pompeu diz à patroa Detonada: “you that have worn your eyes almost out in the service...” (1.2.92); e Pandarus diz aos membros de sua “guilda” dentre o público: “As many be here of panders' hall,/ Your eyes, half out, weep out at Pander's fall.” (5.11.45-46), tendo já se queixado dos próprios olhos, como será visto adiante. Outra consequência da doença venérea que aflige o alcoviteiro é a debilidade impotente que termina por acometer os sifilíticos, a que ele alude metaforicamente: “Full merrily the humble-bee doth sing/ Till he has lost his honey and his sting,” (5.11.40-41; sting, 2: “aquilo que está figurativamente localizado no rabo: genitais”).
Havia ainda sintomas mal atribuídos e confusões com outros problemas de saúde. Pandarus elenca suas queixas: “A whoreson phthisic, a whoreson rascally phthisic so troubles me [...] and I have a rheum in my eyes too and such an ache in my bones...” (5.3.101-104), onde Williams aponta que phthisic (tuberculose) “soa como um eufemismo para sífilis” e, sobre rheum (secreção, remela), diz que “confusão de nomenclatura resulta nisso sendo usado para a sífilis ou um de seus sintomas”. Já Colman (p.118) vê uma possibilidade diferente: “O mal-estar generalizado que Pandarus descreve podia de fato advir da sífilis em sua prolongada fase secundária, assim como os olhos lacrimejando e juntas doloridas podiam ser sintomas da irite e da artrite às vezes associada com a gonorreia em estágio avançado”. Em Medida por Medida, o Duque, disfarçado em frade e consolando (à sua maneira) Cláudio, defende que a natureza humana é tal que os filhos desejam a morte do pai: “Do curse the gout, serpigo, and the rheum/ For ending thee no sooner.”; Williams observa que “todos os três nomes [são] apropriados à sífilis” (rheum). A gota, a propósito, é mencionada por Falstaff em  Henrique IV Parte II: “A pox of this gout, or a gout of this pox, for the one or the other plays the rogue with my great toe.” (1.2.238-239; gout: “Uso deriva em parte de confusão de sintomas, em parte de eufemismo”). Outra mazela que se confundia com a sífilis era a dor ciática (sciatica), que aparece na lista de maldições de Tersites a Patroclus (5.1.20) e na pergunta dirigida a Detonada por um frequentador: “How now, which of your hips has the most profound sciatica?” (1.2.47-48). Por fim, outra dessas confusões toca tangencialmente à personagem Cressida, que em uma das versões da história, Testament of Cresseid, de Robert Henrison, torna-se uma leprosa mendicante; e a lepra também se confundia com a sífilis (talvez porque as chamadas spital houses acolhiam vítimas de ambas), de modo que o nome da troiana vira um insulto apto para uma prostituta em Henrique V: “No, to the Spital go, and from the powdering tub of infamy fetch forth the lazar kite of Cressid's kind, Doll Tearsheet...”. Ver leprosy e Cressida; sobre powdering tub, ver abaixo.
Até que surgisse a penicilina no século passado, a sífilis era um problema de saúde terrível, e restava muito pouco aos infectados da modernidade nascente a não ser paliativos que, às vezes, pareciam piorar as coisas: um dos sintomas atribuídos à sífilis, perda dos cabelos, poderia advir realmente dos tratamentos, aponta Williams em bald e hair. No já referido alegre diálogo sobre a doença em Medida por Medida, menciona-se a perda capilar: “Thou art good velvet: thou’rt a three-piled piece, I warrant thee. I had as lief be a list of an English kersey as be piled, as thou art piled, for a French velvet” (1.2.26-28). Williams esclarece em velvet (em si “alusivo a sífilis”) que piled, “desprovido de cabelo”, vem do latim pilus (cabelo), brincando com o terciopelo, veludo de três camadas (three-piled). Sobre French, ver adiante. Também é mencionado em pain que dores advinham de “doença venérea e seu tratamento”. Aqueles mencionados nas peças-problema incluem a sudorese (sweat), que figura no epílogo de Pandarus: “Till then I’ll sweat and seek about for eases” (5.11.53; eases reforçando o caráter paliativo dos cuidados) e nas queixas de Detonada: “Thus, what with the war, what with the sweat, what with the gallows, and what with poverty, I am custom-shrunk” (1.2.67-69). Não fica clara em Williams a relação entre sudorese e salivação, quando ele diz que “'suor' presumivelmente [indica] clientes submetendo-se à salivação – um assunto prolongado que podia arruinar-lhes a lida por meses”; em tooth (3) é observado que esse tratamento podia levar à perda dos dentes. Como já encontrado na fala de Pistol em Henrique V acima, powdering tub se referia às banheiras que serviam tanto para salgar carne quanto para tratar os sifilíticos, que eram não apenas submetidos à sudorese, mas “expostos a vapor de sulfeto de mercúrio, que se condensava no corpo na forma de pó”. Em Medida por Medida, Pompeu brinca com os dois usos: “Troth, sir, she hath eaten up all her beef, and she is herself in the tub.” (3.2.50-51); quanto a beef, Williams lhe atribui o sentido de “homem em sua capacidade sexual; pênis”, imputando atividade sexual demasiada a  Detonada, enquanto Gibbons, responsável pela edição de Cambridge (50-1n), cita a opinião de Evans de que a expressão “eaten up all her beef” significa “exauriu todas suas prostitutas”. Lúcio, em sua resposta, cinicamente naturaliza o destino das mulheres no ramo, cujos serviços ele mesmo aprecia: “...it must be so. Ever your fresh whore and your powdered bawd, an unshunned consequence; it must be so.” (3.2.52-54; powdered bawd). Acreditava-se, ainda, no poder de comidas secas como tratamento ou mesmo profilaxia: Pompeu, em suas tergiversações quando interrogado, diz que “...such a one, and such a one, were past cure of the thing you wot of, unless they kept very good diet...” (2.1.99-100), diet insinuando “comida seca como parte do tratamento para a sífilis”. As ameixas cozidas, por sua vez, suscitam-lhe um humor elaborado: “...this Mistress Elbow, being, as I say, with child, and being great-bellied, and longing, as I said, for prunes...” (2.1.88- 90). Williams esclarece (prunes) que “ameixas cozidas [stewed prunes] ficavam frequentemente disponíveis em bordéis, um prato às vezes aparecendo em uma janela como um sinal cifrado (talvez jogando com stew = bordel). Elas tanto eram vistas como profiláticos contra a sífilis quanto eram, assim como os bolos secos, usadas em prescrições para sifilíticos”. A brincadeira vai além ao associar “tamanho, formato, pele enrugada” da ameixa cozida a testículos, pela menção a “two in the dish” e “cracking the stones” (2.1.90; 95-96); ver stone (caroço/testículo).
A palavra stew nos remete a um campo semântico associado à doença, aquele envolvendo calor e fogo. Em intercâmbio com um criado de Páris, Pandarus atesta sua pressa dizendo “my business seethes”, ao que se responde com um gracejo: “Sodden business? There’s a stewed phrase indeed!” (3.1.37), em que o verbo ferver (to seethe) é deliberadamente mal entendido, não como denotando urgência, mas infecção pela sífilis (sodden). Duque Vincentio recorre ao tropo: “I have seen corruption boil and bubble/ Till it o'errun the stew” (5.1.314-315), trecho que “representa o Estado como um bordel, stew ligando a ideia de um caldeirão entornando à de infecção venérea” (boil). Em Bem está o que bem acaba, Lavache diz do diabo: “his fisnomy is more hotter in France than here” (4.5.30-31), apontando ainda para a suposta origem da moléstia, vista adiante (hot, 2). Tersites também o faz, em duas ocasiões: “Fry, lechery, fry!” (5.2.56; fry), e “Lechery, lechery, still wars and lechery, nothing else holds fashion – a burning devil take them” (5.2.191-193; burn).    
Algumas menções a doença venérea relacionam o tema ao da prostituição. Lúcio se refere a uma prostituta como “rotten medlar” (4.3.161), a piada misógina brinca com a nêspera, que pelo formato ganhava o apelido de open-arse (como em Romeu e Julieta), e tem por peculiaridade ficar própria para consumo após apodrecer, sendo que o emprego de “podre” pelo libertino sugere infecção; Williams glosa medlar como “mulher sexualmente disponível; mulher como vagina”, e aponta para a brincadeira com o verbo to meddle (intrometer-se/copular, como em “meddling friar”, 5.1.127). Lavache, por seu turno, “brinca com o preço e a doença da prostituta” (taffeta punk): “your French crown for your taffety punk” (2.2.16-17); French crown designava, já vimos, complicações cutâneas da doença, e era ainda o nome de uma moeda. Já Pandarus em seu epílogo teme que “Some gallèd goose of Winchester” na plateia lhe vaie o testamento. Enquanto o adjetivo gallèd indica aqui não uma “assadura”, mas infecção venérea, Williams explica que a expressão Winchester goose se refere tanto a “bulbo ou inchaço sifilítico na virilha [quanto a] prostituta ou cliente de bordel do Bankside”, acrescentando que “a zona de meretrício de Bankside, ao sul do Tâmisa em Southwark, ficava nas 'liberties' do bispo [de Winchester], cujo palácio se encontrava adjacente”. Já Colman (p.48) observa que o termo – usado como insulto ao bispo de Winchester em Henrique VI Parte I – “parece dever sua origem ao licenciamento, no reino de Henrique II, de dezoito prostíbulos em Southwark”. É bom lembrar que Bankside é onde se encontrava o Globe Theater, e onde foi reconstruído.  
Tersites inicia sua maldição a Patroclus lhe desejando “the rotten diseases of the south” (5.1.17; disease), e já pudemos encontrar tanto Neapolitan bone-ache quanto French velvet e French crown. Todas essas ocorrências apontam para a origem histórica (e geográfica) da sífilis, que Williams esclarece em malady of France: “A associação da doença com a França se fixou após a investida contra Nápoles por Carlos VIII da França (1494), quando se espalhou rapidamente pela Europa” (ver Neapolitan bone-ache). Sobre French crown, diz que “associações da França com a doença [suscitaram] um jogo-de-palavras com o nome inglês para a moeda francesa chamada écu”, que é explorado por Lavache como visto acima, e por Lúcio em uma passagem da conversa no prostíbulo de Detonada, na qual se acrescenta outra associação trocadilhesca entre dollar e dolour (dólar e dor):
LUCIO        ...I have purchased as many diseases under her roof as come to –
[...]
2 GENTLEMAN     To three thousand dolours a year.
1 GENTLEMAN     Ay, and more.
LUCIO        A French crown more.
1.2.35-36; 39-41 
A origem francesa também se manifesta em português, no termo “(mal) gálico”, tendo essa denominação (assim como “sífilis”) vindo do poema narrativo de Girolamo Fracastoro, Syphilidis, sive Morbus Gallicus (1530).
Passemos agora às ocorrências que revelam os efeitos mais extremos da sífilis e de seus tratamentos, e ainda os subterfúgios empregados para ocultá-los. Uma das faces de Bertram em Bem está o que bem acaba volta das guerras florentinas coberta com um retalho de veludo, ensejando a brincadeira de Lavache:
LAVATCH    O madam, yonder’s my lord your son with a patch of velvet on’s face. Whether there be a scar under’t or no, the velvet knows, but ’tis a goodly patch of velvet. [...]
LAFEW    A scar nobly got, or a noble scar, is a good livery of honour; so belike is that.
LAVATCH    But it is your carbonadoed face.
4.5.75-81
Williams aponta em velvet – que já vimos ser alusivo à doença – que “retalhos de veludo podiam cobrir desfiguramentos resultantes da sífilis” e explica ainda que carbonadoed, originalmente designando a prática culinária de talhar a carne para o cozimento, “aplica-se às incisões do barbeiro-cirurgião para aliviar inchaços sifilíticos”. A deterioração do nariz pode estar indicada quando Cressida, resistindo jocosamente ao encômio que o tio alcoviteiro faz de Troilus, diz: “I had as lief Helen’s golden tongue had commended Troilus for a copper nose.” (1.2.92-93). Williams registra em nose (2) que “a cartilagem do nariz era carcomida pela sífilis, produzindo uma das mutilações mais óbvias dos afetados”, e que “sifilíticos às vezes escondiam sua deformidade com um nariz metálico”, mas defende que “ela provavelmente tem o nariz vermelho dos beberrões em mente”. Outra menção ao fato ocorre em Conto de Inverno (1609), em que Autolycus apregoa “Masks for faces and for noses”. A decomposição sifilítica ensejava ainda uma repulsa que parece estar refletida nas palavras de Lúcio: “I will, out of thine own confession, learn to begin thy health; but, whilst I live, forget to drink after thee.” (1.2.31-32), nas quais Williams (velvet) vê semelhança com “a piada de Montaigne sobre o criminoso no cadafalso recusando-se a beber do copo do verdugo 'por medo de pegar sífilis dele' (Ensaios 1.323)”. Em Bem está o que bem acaba, Parolles é interrogado por aqueles que acredita serem inimigos, e denigre seu próprio campo à presença dos oficiais, imputando a decomposição sifilítica a metade da tropa: “half of the which dare not shake the snow from off their cassocks, lest they shake themselves to pieces.” (4.3.141-142). Williams aponta que shake to pieces or blow to pieces se referem a “desintegrar como resultado da sífilis”, acrescentando algo que já pudemos constatar: “imagens de decomposição sifilítica são comuns ao longo do século XVII”. Um cafetão diz de suas prostitutas em Péricles (1607): “The stuff we have, a strong wind will blow it to pieces, they are so pitifully sodden” (4.2.15-16; sodden).
Apresentadas todas as ocorrências de acordo com os temas expressos, tentemos relacioná-las a personagens e tramas, além de explorar os mecanismo de humor empregados, usando quando possível Freud e Bergson. Iniciemos com a peça menos infectada, Bem está o que bem acaba: Lavache não é um bobo sem maiores consequências dramáticas, pois sua abordagem jocosa dos assuntos sexuais lança um comentário cínico tanto sobre o casamento por amor – refletindo-se sobre o precário final feliz de uma união forçada – quanto sobre a lascívia do “honrado” soldado, cuja consequência já vimos. Apesar de a condessa alegar que só o mantém por consideração ao finado conde, fica claro que ela se diverte com a impropriedade vinda dele, e é de fato em diálgos com ela que surge a maior parte de suas piadas sexuais, e todas as cinco sobre o gálico. A brincadeira sobre more hotter é um innuendo (insinuação) que depende de uma associação convencional entre calor e a doença, que é de natureza metonímica (efeito por causa). Já French crown alude à doença e a sua origem também de forma indireta, mas através de um double-entendre, duplo sentido de natureza sexual (Freud, p.47), no qual se insere uma  metonímia convencional (coroa/cabeça). A menção a “veludo” é outro innuendo, e a associação entre as incisões feitas no preparo da carne e aquelas feitas pelo barbeiro como tratamento (carbonadoed) é de natureza metafórica, pois baseada em semelhança. O humor sexual de Parolles, por seu turno, tem impacto na trama principal quando ele debocha da virgindade de Helena ou aconselha a fuga de Bertram e posteriormente intermedeia – e tenta sabotar – a sedução de Diana. Seu próprio desmascaramento como soldado falastrão fornece uma trama secundária, que envolve, como vimos, uma piada sobre decomposição sifilítica: shake to pieces é outro innuendo.
Em Medida por Medida, o maior foco de menções a doença venérea é a conversa no estabelecimento de Detonada, que – tão logo introduzidos os temas administrativos na breve primeira cena, e antes de se falar na condenação sexual de Claudio ou na chantagem sexual de Angelo contra Isabella – dá o tom a um tempo jocoso e intranquilo com que se lida com a temática sexual na trama secundária da peça; Colman inclusive (p.145) argumenta que essa sequência de episódios mal se qualifica como “trama”. Nele participam Lúcio e dois frequentadores anônimos; a piada do 1ºCavalheiro sobre French velvet é um innuendo, enquanto piled explora a polissemia, mas não é um double-entendre por não haver concomitância de sentidos, como ocorre em feelingly (apropriado/dolorido), com a ajuda de um mal-entendido deliberado por parte de Lúcio, naquilo que Bergson (p.59) chama de recurso do ladão roubado: fazer alguém “cair na própria armadilha da linguagem”. Em drink after thee, Lúcio opera uma alusão por omissão (Freud, p.83) a chagas labiais (e talvez a Montaigne). O tainted do 2ºCavalheiro pode ser visto como um eufemismo cômico, e quando o mesmo personagem brinca com dolours, trata-se de um trocadilho, ou seja, explora-se a similaridade de sons (Freud, p.52). Lúcio volta a operar o “ladrão roubado” contra o 1ºCavalheiro com a palavra sound asim como fizera com feelingly. Ao longo da peça, Lúcio menciona a doença ainda duas vezes: powdered bawd traz um duplo sentido (pintura facial/tratamento de sífilis) e um paralelismo com fresh whore; e sobre rotten medlar cabe observar a convencionalidade da imagem (tanto metafórica – aspecto – quanto metonímica – “boa quando podre”) da fruta e a ironia de a ofensa ser referente a Kátia Katatodos, e dirigida ao duque disfarçado, que o forçaria a se casar com ela – a única punição exercida ao final da peça. Nas linhas do próprio Duque Vincentio encontramos menções à sífilis, mas é matéria de debate se suscitariam risos na plateia do Globe então (hoje é certo que não); quando ele fala em gout, rheum e serpigo, podemos enxergar um triplo double-entendre ou uma série de eufemismos, e nas linhas sobre o caldo entornando figura a convenção metonímica do calor e um double- ou triple-entendre em stew (caldo/bordel/Estado). A cafetina Detonada tem poucas linhas – e nenhuma prostituta tem uma sequer – mas aqueles espectadores capazes de perceber o cinismo de Lúcio poderiam ver nela um retrato de um negócio sexual nada glamouroso, e consequentemente de uma sociedade hipócrita. Quanto a sua queixa sobre a contração da clientela, ela faz em sweat uma alusão por omissão à doença e à inabilitação advinda do tratamento por sudorese ou salivação. Quando lhe perguntam sobre dor ciática, não há mecanismo de humor operando, a menos que o mal fosse usado como eufemismo, apenas o recurso a tema tabu, que suscita uma hilaridade ligada à racionalização de ansiedades latentes. Pompeu, o “cafetão em tempo parcial” e empregado de Detonada, tem da figura do bobo a habilidade verbal aguçada; ele impinge a sífilis à patroa de maneiras oblíquas (são innuendos): “worn your eyes almost out”, e “she is herself in the tub”, sendo que tub introduz uma ambiguidade cômica (tratar carne ou sifilíticos). Esse tipo de linguagem indireta prossegue em “very good diet”, e  “longing... for prunes”; merece aqui destaque a audácia de Pompeu, que usa esses innuendos sobre tratamento e profilaxia do gálico justamente em seu interrogatório.
Em Troilus e Créssida, chama atenção a quantidade de gracejos sexuais da amada de Troilus, o que levou uns a vê-la, com Ulisses, como uma “daughter of the game”, enquanto Bernard Shaw enxergava a “primeira mulher verdadeira” do dramaturgo. Um deles parece contemplar doença venérea, aquele que fala em “copper nose”; é um innuendo que depende de alusão por omissão (a decomposição fica implícita), enquanto “Helen's golden tongue” insinuaria sua contaminação e ainda uma rara menção a sexo oral em Shakespeare. O gracejo do criado de Páris contra Pandarus tem a função dramática de evidenciar o baixo prestígio do alcoviteiro na corte troiana; a técnica utilizada é o mal-entendido deliberado (ou ladrão roubado), transformando “my business seethes” em um double-entendre (assunto urgente/genitália ardente), e acrescentando um innuendo: “stewed phrase”, em ambos operando a metonímia infecção/calor. Das duas figuras mais dadas a chistes sexuais da peça, enquanto Tersites se dedica à condenação amarga da luxúria e atua como comentador destacado sem desenvolvimento dramático, Pandarus usa um tom alegre de início, mas a separação dos amantes coincide com o início de sua derrocada sifilítica e social. Para Colman (p.121), os dois combinados dão à peça uma nota de “futilidade doente”. Não surpreende então que as piadas do alcoviteiro sobre a doença se concentrem no último ato. Suas queixas servem de contraponto ao momento de grande tensão em que Troilus recebe a carta de Cressida: phthisic é um eufemismo, e em “ache in my bones” há um innuendo, o qual ele repete em seu epílogo: “groans... for your aching bones”, seguindo com outro em “goose of Winchester”, o qual depende de uma alusão tópica, e a doença volta a ser insinuada na rima final da peça: eases/diseases. Quanto a Tersites, ele usa duas vezes o innuendo sobre dor nos ossos (de natureza metonímica ao tomar sintoma por doença) em “incurable/Neapolian bone ache”, sendo a associação com o sul da Europa, “diseases of the south”, de caráter convencional. Outros sintomas também lhe fornecem innuendos: tetter, serpigo e sciatica. Novamente, a ardência que parece ser um dos sintomas se reflete em mais dois deles, com imagens de calor: fry e burning.   
Assim como a referida dissertação se propõe mostrar que as piadas sexuais são parte importante das peças-problemas, este artigo pretende evidenciar a importância do subconjunto que lida com infecção venérea, revelando no processo algumas percepções contemporâneas sobre o tema, e sobre sexualidade de modo geral. Foi possível perceber que o innuendo foi a técnica mais empregada. As piadas podem assumir um tom desde moralista, vindas de Tersites, a jovial, vindas de Lúcio e seus parceiros, e podem ter algo de clown com Pompeu e Lavache, ou até certo pathos trágico em Pandarus. Mas, de modo geral, o motor por trás deste tipo de humor é a racionalização da ansiedade que gera o tema. Para muitos na plateia, afinal, era rir para não chorar. 

BERGSON, Henri. O riso – ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.
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